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Relatos da crise: o drama dos desempregados nos Estados Unidos

O número de pedidos de seguro-desemprego disparou nos EUA, saltando de 282 mil para 3,2 milhões em apenas uma semana. O NeoFeed conversou com diversas pessoas que perderam seu emprego por conta da crise econômica gerada pelo coronavírus

 

Joel Serot no palco, apresentando um dos eventos que organiza

Tudo sobre mudança e inconstância que Joel Serot, de 35 anos, aprendeu na teoria, com as palavras do guru Ram Dass, ele agora precisa colocar em prática. O administrador de empresas é um dos milhões de americanos que perderam o emprego por conta da paralisação da economia, reflexo da luta contra o coronavírus.

Junto a ele, outros quatro colegas que trabalhavam na mesma organização sem fins-lucrativos ligada às artes também foram demitidos. 

“Estávamos todos muito empolgados, porque tínhamos uma grande turnê agendada. O plano era rodar os Estados Unidos ao longo de seis meses, mas tivemos de cancelar todas as apresentações depois do primeiro mês”, relatou Serot ao NeoFeed.

Mais do que experimentar a tristeza pelo projeto que não vingou, o californiano lamenta ainda a perda de um trabalho que realmente lhe dava prazer. 

“Sinto como se tivesse sido ‘esmagado’, tendo que começar tudo do zero. Mas pelo menos agora tenho certeza que quero investir em projetos meus. Do ponto de vista profissional, minha vida foi mudada completamente por conta das circunstâncias”, diz Serot. 

Até o dia 21 de março, pouco mais de 3,2 milhões de americanos deram entrada no seguro-desemprego, número muito acima das estimativas, que estavam em torno de 1,64 milhão.

A realidade, porém, é ainda mais grave, porque trabalhadores como Joel, que exercem suas atividades sem um contrato formal, sequer entram para as estatísticas.

“Por quase 20 anos da minha vida tive trabalhos formais, mas, desde julho do ano passado sou um prestador de serviço ‘freelancer’. No começo estranhei a mudança, mas estava tudo indo bem. Tinha até esse contrato de seis meses, que era minha única fonte de renda”, afirma Serot.

Sem ter acesso a alguns benefícios assegurados por lei a trabalhadores formais, o administrador conta agora com as economias que fez ao longo dos anos. Ciente de que uma recolocação no mercado de trabalho, no atual cenário, é quase impossível, o californiano confessa que talvez possa precisar do apoio financeiro da família.

“Por sorte meus pais têm condições de me resgatar, se for necessário. Tanto meu pai quanto a minha mãe já me ligaram, oferecendo ajuda. Sou muito grato por isso, mas tenho consciência de que isso é um privilégio, não são todos que têm essa possibilidade”, diz Serot.

A brasileira Luciana Couto, também com 35 anos, é uma delas. Morando sozinha num apartamento em Las Vegas, ela agora tenta negociar algumas de suas contas fixas para se encaixar em sua nova realidade incerta. 

Formada em hotelaria, Luciana vive há mais de 10 anos nos Estados Unidos, onde atua como agente de viagem. “Meu trabalho até pode ser feito de forma remota. A agência da qual fazia parte chegou a montar uma estrutura de home office, com direito a happy hour virtual e tudo, mas o problema é que o setor foi profundamente afetado. Ninguém está viajando e ficou insustentável manter a empresa e seus quase 40 funcionários”, afirmou Couto ao NeoFeed

Recorrendo às reservas que fez justamente para momentos assim de crise, Luciana se diz mais preocupada com a situação da família no Brasil. “A impressão que temos aqui é que as pessoas não estão levando esse assunto a sério lá. Também sinto que, nos Estados Unidos, o governo e as empresas estão pensando na gente: além da ajuda anunciada pelo estado, empresas de telefonia e de moradia estão negociando com os clientes. O meu condomínio mesmo está com diálogo aberto com os moradores. Nunca vi, no Brasil, uma empresa ser tão flexível em tempos de dificuldades”, diz Couto. 

A “tranquilidade” de Luciana vem do pacote de resgate de US$ 2 trilhões anunciado pela gestão do atual presidente Donald Trump. A proposta é desembolsar US$ 250 bilhões para pagamentos direto aos cidadãos, US$ 350 bilhões para empréstimos para pequenas empresas, US$ 250 bilhões de seguro-desemprego e outros US$ 500 bilhões para aliviar grandes negócios que estejam sofrendo por conta da paralisia da economia em razão do coronavírus. 

Os americanos que já contam com o seguro-desemprego vão receber, acima deste benefício, um valor extra de US$ 600 dólares, por um período de quatro meses. Além disso, os cidadãos americanos afetados pela crise e com renda anual inferior a US$ 75 mil devem receber US$ 1,2 mil/mês. Casais ganham US$ 2,4 mil, mais US$ 500 por criança menor de 17 anos. 

O valor desta ajuda é um pouco menor para quem declara renda superior a US$ 75 mil/ano e não se aplica aos que ganham mais de US$ 99 mil/ano. De acordo com o Centro de Fiscalização Tributária, cerca de 90% dos americanos são elegíveis a receber integral ou parcialmente esses pagamentos.  

Ellen Ford, de 29 anos, vai contar com a ajuda do governo

Ellen Ford, de 29 anos, está dentro desta margem. E ainda bem, porque ao longo de sua vida profissional, não pôde construir uma poupança ou qualquer outra reserva financeira para situações urgentes. 

Com diploma em comunicação, Ford atuava como designer em uma empresa de moda, cujo maior volume de trabalho vinha das encomendas de uniformes para restaurantes. “O comunicado oficial do lockdown, medida que fechou bares e restaurantes, veio num domingo à noite. Na segunda, fomos todos demitidos”, contou ao NeoFeed.

Embora admita que jamais tenha vivido algo parecido com o que se apresenta agora, Ford não tem grandes preocupações. “Acho que ninguém é culpado por isso tudo o que está acontecendo e eu tampouco culpo a mim. Agora, eu sei que nem todo mundo vai ter as mesmas oportunidades para se recolocar no mercado, quando tudo se normalizar.” 

Pelas contas do empresário Nerses Ajemian, de 48 anos, isso não deve acontecer em menos de seis meses. Ele, que está no “outro lado do balcão”, planeja demitir cerca de cinco funcionários nos próximos dias.

“No posto de gasolina que tenho, acredito que possa manter toda a equipe, já que ali as coisas funcionam dentro da normalidade, mas com um volume de venda 30% menor. Mas, na minha oficina mecânica, o movimento quase parou, de forma que torna inviável a manutenção do quadro de funcionários”, lamenta Ajemian. 

Com esses mesmos negócios, Ajemian atravessou diversos momentos difíceis da economia americana, inclusive a crise de 2008, mas confessa que nunca viveu nada parecido. “Ouço relato de amigos perdendo empregos e fechando negócios que estavam de pé há décadas, nunca, em toda minha carreira, imaginei algo parecido.” 

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