Negócios

Vilões ou aliados? Como os aplicativos de entrega podem salvar os restaurantes

Empresas como iFood, Uber Eats e Rappi surgem como alternativa para que o setor supere os impactos do coronavírus. Com taxas de até 30% por entrega, os serviços são vistos, no entanto, com ressalvas por parte do setor, que já contabiliza quedas de até 80% no movimento dos estabelecimentos

 

Na manhã desta quarta-feira, Leonardo Vogel Dorneles decidiu sair de casa, contrariando as crescentes recomendações de especialistas e autoridades. Ironicamente, sua corrida matinal nas ruas de Porto Alegre foi motivada justamente pelo fator que está obrigando muitas pessoas em todo o mundo a mudarem suas rotinas: o coronavírus.

Dono dos restaurantes Companhia do Temaki, Fresh House & Sushi, Tempero Oriental e Usina de Massas, na capital gaúcha, ele assiste a uma queda de cerca de 50% no faturamento dos seus estabelecimentos desde o fim de semana.

“Preciso correr. Com tanto estresse, não quero ter um AVC ou um infarto”, afirma. “Estou apavorado. São 42 famílias que dependem dos meus negócios”, diz o empresário de 39 anos, que estima um recuo de até 90% da receita nos próximos dois meses.

Assim como Dorneles, proprietários de restaurantes em todo o País estão lidando com um cenário crítico e incerto, que coloca em xeque a sobrevivência de seus negócios. Além do receio justificado dos clientes, as restrições de funcionamento ou mesmo a determinação de fechamento das portas por parte de governos municipais e estaduais estão ganhando força diante da escalada local da pandemia.

Na mesma medida, diante de um cardápio restrito de opções, um segmento surge como uma alternativa para essas operações. “Os aplicativos de delivery serão a bengala que vai nos ajudar a atravessar esse momento difícil”, diz Dorneles. “Sem eles, mesmo com uma eventual ajuda do governo, não há fôlego suficiente. É a única forma de entrar dinheiro no meu caixa todos os dias.”

Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), aplicativos como Rappi, iFood e Uber Eats respondem, em média, por 10% do faturamento dos restaurantes que usam esses serviços. Nas casas de Dorneles, essa fatia é de 30%. Desde o sábado 14, os pedidos online cresceram 40%. E em um de seus estabelecimentos, o canal vem compensando em 100% a queda nas vendas do salão.

A Rappi informou, em nota, que houve um aumento de cerca de 30% no número de pedidos pela plataforma em toda a América Latina desde o início da crise. E não apenas no segmento de restaurantes. Mas também em supermercados e farmácias. “Internamente, estamos definindo ações pontuais em diferentes frentes que serão ativadas à medida que o nível de emergência aumente”, escreveu a empresa em comunicado.

Desde o início da crise do coronavírus, a Rappi já registrou um aumento de 30% no número de pedidos no Brasil e na América Latina

Usuário dos serviços da Rappi e instalada na região central de São Paulo, a Holy Burger avalia seguir operando, temporariamente, apenas com o sistema de grab and go – no qual o pedido é retirado pelo cliente – e o canal de delivery. Nessa frente, a casa já registrou um aumento nos pedidos de 20% nos últimos dias.

“Nosso movimento caiu cerca de 80% e com certeza chegará a 90%, 100% até quinta-feira”, diz Gabriel Prieto, sócio do Holy Burger. “Nós colocamos duas promoções no delivery e fizemos uma campanha para que os pequenos comércios como o nosso sejam favorecidos nos bairros”, afirma, acrescentando que os varejistas de menor porte serão os que levarão mais tempo para se recuperarem da crise.

Com seis unidades na cidade de São Paulo, o Magic Chicken também contabiliza os impactos. “Desde segunda-feira, tivemos uma queda de 50% no número de clientes”, diz Daniele Julio Ferreira, gerente do restaurante da rede no bairro do Ipiranga. “Em contrapartida, os pedidos por aplicativo cresceram 30%”

Como boa parte do setor, a unidade tem investido em medidas para reforçar os cuidados com os clientes, como a maior distância entre os frequentadores. E está trabalhando em sistema de rodízio com seus 38 funcionários. O restaurante reduziu em 50% a equipe de atendimento no salão, a princípio, entre segunda e sexta-feira.

Os reflexos não são sentidos apenas nos restaurantes independentes ou nas redes de menor porte. Embora não revele números, Jesus Rodriguez, gerente de responsabilidade social da Subway na América Latina, observa que houve queda nas vendas médias diárias no País e na região já nessa semana. Ao mesmo tempo em que houve, “claramente”, um aumento nas entregas.

“Certamente, nem toda a demanda foi transferida para esse modelo”, diz Rodriguez. “Mas o serviço de delivery por terceiros é um dos pilares da Subway nesse momento”, completa, citando a carta aberta divulgada recentemente por John Chidsey, CEO global da rede.

No documento, Chidsey ressalta a importância do canal. “Estamos fazendo com que seja um pouco mais fácil ter uma experiência com menos contato, por meio do nosso parceiro de delivery Uber Eats”, afirmou o executivo. Ele também destaca outras medidas que têm sido a tônica no setor, como o aumento na frequência de limpeza e higienização dos restaurantes.

Jesus Rodriguez, gerente de responsabilidade social da Subway na América Latina

Outras redes globais de grande porte do setor também já adotaram medidas nessa direção. Na segunda-feira 16, o McDonald’s, por exemplo, anunciou que suas unidades nos Estados Unidos fecharão suas áreas para os clientes e concentrarão o atendimento nos serviços de delivery e no drive thru.

Procurado pelo NeoFeed, o McDonald’s afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que, em virtude do cenário ainda recente no Brasil, a empresa ainda avalia as medidas a serem tomadas.

Incertezas

Além dos efeitos já observados, as incertezas sobre a extensão da pandemia, bem como a velocidade dos acontecimentos, dificultam o planejamento. “Temos feito um grande exercício para acompanhar a cada dia a evolução desse cenário”, diz Ricardo Lima, gerente do restaurante Mocotó, que conta com uma unidade na zona Norte de São Paulo, além de dois cafés na cidade. “Ainda não tomamos nenhuma medida drástica porque não temos ainda nem uma semana completa desse contexto.”

A queda no movimento das casas do grupo se intensificou nos últimos dias: de 15%, no sábado, para 50% na terça-feira. Já no café instalado no Shopping D, também na zona Norte, o recuo foi mais intenso, de 60%.

Segundo a Abrasel, os aplicativos de delivery respondem, em média, por 10% do faturamento dos restaurantes que usam esses serviços

Na contramão, a operação de delivery, que hoje responde por 20% da receita, por meio dos serviços do iFood, registrou um crescimento de 30% na terça-feira 17, alcançando o mesmo volume de pedidos observado aos sábados, dia de maior faturamento do canal no Mocotó.

“Se a queda no salão se mantiver em 50%, acreditamos que a participação das entregas possa chegar a 60%”, afirma Lima. “Sozinho, o delivery não consegue sustentar a operação. Mas é fundamental para equacionar os impactos e reduzir o rombo nas contas.”

Para impulsionar o canal, o Mocotó já trabalha para incluir mais opções no cardápio disponível via iFood. Hoje, o serviço não oferece todo o menu disponível nas unidades. E projeta a inauguração, em 15 dias, de um contêiner de dois andares em Guarulhos, cidade da região metropolitana de São Paulo, que trabalhará tanto com entregas como com o sistema de retirada dos pedidos pelos clientes.

Há quem, no entanto, faça ressalvas ao uso dos aplicativos. “É um recurso muito importante, mas é um erro acreditar que esses serviços serão a salvação, especialmente se os restaurantes forem fechados”, afirma Paulo Solmucci, presidente da Abrasel. “Quem vai ter condições de se sustentar com esse modelo são apenas as grandes redes, que têm cozinhas centralizadas e estrutura pra viabilizar essas operações.”

Segundo dados da associação, o setor é composto por mais de 1 milhão de estabelecimentos, dos quais, 98% são independentes e cerca de 60% operam na informalidade. Com uma movimentação anual de mais de R$ 400 bilhões, o segmento emprega 6 milhões de pessoas.

“O setor está derretendo, em colapso”, diz Solmucci. Ele cita fatores agravantes nesse cenário, como o decreto do governo de Goiás, sugerindo o fechamento dos estabelecimentos, medida que classificou como excessiva. “Não há faturamento e se não houver uma ajuda do governo, teremos 3 milhões de desempregados daqui a 40 dias”, afirma.

O setor de restaurantes movimenta, anualmente, mais de R$ 400 bilhões e emprega 6 milhões de pessoas no País

Em nome da associação e de outras entidades relacionadas ao setor, Solmucci vem negociando com o governo federal e o ministro Paulo Guedes algumas medidas para reduzir esses impactos. Entre as sugestões estão a flexibilização de questões trabalhistas, a criação de linhas especiais de crédito para o segmento e a inclusão do delivery como serviço essencial, independentemente de localização, e sem limitação de horário de funcionamento.

Segundo Solmucci, a expectativa é de que um anúncio por parte do governo seja feito entre hoje e o fim da semana. Paralelamente, a Abrasel já iniciou conversações com os aplicativos para reduzir a taxa cobrada dos restaurantes por entrega. Hoje, esse índice varia de 16% a 30%. A entidade tenta uma diminuição de 30% nessa frente.

Entre outros pontos, a taxa cobrada por entrega é o motivo que leva alguns proprietários de restaurantes a não recorrerem aos aplicativos. Nem mesmo em situações críticas como a atual crise. “Não faz sentido pagar 28% em uma entrega”, diz Nelson Goulart, dono das casas Ibérico, Pescara e Pasárgada, localizados em Curitiba e na região metropolitana da capital paranaense. “Tenho meus clientes e posso fazer meu próprio marketing.”

Como alternativa, Goulart está implantando seu próprio sistema de entregas. Para compensar a queda no movimento e não fazer cortes na equipe de 41 funcionários, a ideia é fazer o delivery por meio dos garçons, que terão direito a 10% de cada pedido, assim como acontece no salão. O plano foi costurado por meio de um acordo com o sindicato da categoria no estado.

Em contrapartida, quem já usa os aplicativos entende que essa é uma opção que, nesse momento, deve ser considerada por aqueles empresários do setor que ainda não investem nessa frente. “Com certeza é uma alternativa, mas tem uma curva de aprendizado”, diz Dorneles. “Se não fizer as contas na ponta do lápis, pode ser um tiro no pé.”

Lima, do Mocotó, segue na mesma linha. “É a saída mais rápida e efetiva”, afirma, ressaltando que saber usar essas ferramentas não é algo tão simples. “Mas em uma época onde muito estabelecimento vai ter dificuldade para se manter, o delivery, na menor das hipóteses, ajuda a prolongar a vida do restaurante.”

Nas ruas

Se os aplicativos podem ser uma saída para os restaurantes preservarem clientes, funcionários e suas operações, nesse roteiro, um ponto também é motivo de atenção para todas as fontes consultadas pelo NeoFeed.

“É necessário pensar na saúde dos trabalhadores das cozinhas e dos entregadores”, diz Prieto, do Holy Burger. “Ainda há uma instabilidade e conflito de informações. Mas estamos atentos a qualquer ordem do Ministério da Saúde e demais autoridades.”

Enquanto os estabelecimentos reforçam seus protocolos de saúde e higiene, os aplicativos também estão adotando iniciativas. “Além de géis e de máscaras, nós ativaremos nosso serviço de entrega ‘sem contato’”, informou a Rappi, em nota.

Já o iFood, conforme apurou o NeoFeed, criou um plano com recursos de mais de R$ 1 milhão para apoiar os entregadores da plataforma que não puderem trabalhar durante esse período.

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