O cenário de tensão geopolítica no mundo, alimentado pelo presidente americano Donald Trump nas primeiras semanas do ano – com a invasão da Venezuela para prender o ditador Nicolás Maduro e a promessa de anexação da Groenlândia, entre outras ameaças – tornou incerta a projeção de crescimento de 3% da economia global em 2026, anunciada pelo banco UBS no final do ano passado.

Para o holandês Arend Kapteyn, economista-chefe e diretor global de Pesquisa Econômica e Estratégica do banco de investimento, as atitudes intempestivas de Trump aumentam o risco de que a recuperação de confiança da economia global – obtida a duras penas no segundo semestre 2025, após absorver o choque causado pelas tarifas americanas anunciadas em abril – simplesmente não se consolide.

“E sem confiança, não há investimento”, adverte Kapteyn, nesta entrevista concedida ao NeoFeed antes de sua vinda ao País, quando participa, a partir de terça-feira, 27 de janeiro, do Latin America Investment Conference, evento de dois dias do UBS em São Paulo.

Até mesmo o país mais rico do mundo está sob ameaça. Kapteyn observa que os investimentos em IA responderam por 90% do crescimento dos EUA em 2025. Portanto, para a economia americana manter um nível robusto crescimento em 2026, outros setores precisam começar a investir.

“É por isso que os eventos geopolíticos são importantes: os outros setores só vão investir se acreditarem que a demanda estará firme e que o ambiente é estável”, afirma. “Se houver incerteza, as empresas simplemente não investem.”

Kapteyn é um especialista em momentos de instabilidade econômica como o atual. Iniciou a carreira no Banco Central holandês e passou oito anos no Fundo Monetário Internacional (FMI), onde foi economista sênior, atuando em resolução de crises em muitos dos programas de mercados emergentes do Fundo. Passou por bancos privados antes de ingressar no UBS, em 2016.

Sobre o Brasil, avalia que a fragilidade aparente da dívida pública brasileira decorre menos do desequilíbrio fiscal e mais dos juros reais excepcionalmente altos. “O Brasil vive um ‘equilíbrio ruim’: a desconfiança nas contas públicas pressiona o câmbio, alimenta a inflação e força o Banco Central a manter juros elevados, criando um ciclo difícil de romper”, adverte.

Segundo ele, diferentemente de economias frágeis que dependem de forte ajuste fiscal, o País poderia reduzir rapidamente os juros reais se recuperasse a confiança dos investidores na condução econômica,  observando que o próximo governo tem uma oportunidade de correção de rumo.

“Se surgir um plano econômico crível, no qual o mercado confie, o País entra em um ciclo virtuoso: a confiança melhora, o câmbio se fortalece, a inflação cai e o Banco Central pode reduzir juros”, emenda, ressaltando que o problema brasileiro é sobretudo de credibilidade.

O economista-chefe global do UBS também abordou a suspensão da entrada em vigor do acordo União Europeia-Mercosul, que espera ser temporária, e a força da “nova economia” da China — com inteligência artificial, energia verde e painéis solares.

“Esses setores já respondem por um quarto do crescimento da economia, que deve avançar 5% em 2026, compensando a fraqueza persistente do setor imobiliário e o impacto das tarifas americanas sobre as exportações tradicionais”, ressalta.

O economista afirma que Trump não deve estimular uma guerra tarifária com a China no curto prazo. “O governo americano está focado em conter o custo de vida — e elevar tarifas encareceria os produtos”, diz. “Esse foco tende a manter a relação relativamente estável até as eleições de meio de mandato, embora o cenário possa mudar depois.”

Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Kapteyn:

Até que ponto tensões geopolíticas — como a crise da Groenlândia — podem comprometer a projeção do UBS de crescimento global de 3% em 2026?
O risco é real. No ano passado, o anúncio de tarifas no início de abril provocou um choque global de confiança que manteve o crescimento em torno de 2% anualizados até o fim de setembro. A recuperação só veio na segunda metade do ano, quando o ambiente ficou mais calmo e a confiança melhorou, ainda que permanecendo abaixo do normal nos EUA.

O que mudou?
A projeção atual do UBS pressupõe justamente um cenário sem novos choques. As tensões recentes envolvendo a Groenlândia, porém, aumentam o risco de que essa recuperação de confiança não se consolide. E sem confiança não há investimentos. É importante lembrar que nem todos os choques têm o mesmo peso. Mas a crise da Groenlândia e decisões da Suprema Corte sobre a governança do Fed, por exemplo, poderiam ter impacto relevante sobre as expectativas.

“As tensões envolvendo a Groenlândia impedem a recuperação da confiança após o impacto das tarifas. E sem confiança não há investimentos”

Esse ambiente de incerteza pode alterar o cronograma de cortes de juros do Federal Reserve?
É improvável. O Fed reage a dados de inflação e emprego, não a eventos isolados. Em dezembro, o banco central americano parecia confortável em manter juros estáveis no primeiro semestre de 2026 e, salvo surpresas, só deve cortar na segunda metade do ano. Apenas uma deterioração clara no mercado de trabalho ou um evento realmente disruptivo mudaria esse plano.

A economia americana teve um bom desempenho em 2025, apesar do impacto das tarifas de importação. Os riscos geopolíticos podem ter outro efeito em 2026?
Houve um grande choque tarifário em 2025, que deveria ter causado muito dano, mas isso foi neutralizado por um boom tecnológico ligado à IA, essencialmente de investimentos. Hoje, há um único setor — IA — que está impulsionando praticamente todo o crescimento do investimento nos EUA. E também o consumo, cuja maior parte vem dos 20% mais ricos, que detêm 80% dos ativos financeiros — e três quartos dos ganhos vêm de ações de tecnologia. Ou seja, os efeitos de riqueza da tecnologia impulsionam o consumo; investimentos em tecnologia impulsionam o investimento. Fora isso, há muito pouco acontecendo — e isso não é sustentável.

Por que não é sustentável?
Estimamos que cerca de 90% do crescimento dos EUA em 2025 esteve ligado, direta ou indiretamente, à IA. O problema é que, para repetir esse desempenho, o investimento em tecnologia teria de subir ainda mais. Se ele apenas repetir o nível do ano passado, a contribuição para o crescimento cai a zero — porque o que importa é a variação, não o nível. Portanto, para manter um crescimento de 2% a 2,25% em 2026, outros setores precisam começar a investir. Mesmo que o investimento em tecnologia continue subindo, não será suficiente para sustentar o ritmo de 2025.

Como os EUA podem escapar dessa armadilha?
É por isso que os eventos geopolíticos são importantes: os outros setores só vão investir se acreditarem que a demanda estará firme e que o ambiente é estável. Há incentivos fiscais que poderiam ajudar, os cortes de juros do Fed também deveriam estimular investimentos. Mas as empresas só investem quando estão otimistas e quando o ambiente está calmo. Se houver incerteza, elas não investem. Nossa projeção prevê uma rotação do setor de tecnologia para outros setores — mas ainda não está claro se isso vai acontecer.

Qual a melhor estratégia dos países da América Latina para lidar com a retomada da influência americana na região?
A atuação mais assertiva dos Estados Unidos na região, evocando a lógica da Doutrina Monroe, gera preocupação porque cria incerteza jurídica e política, o que afeta a confiança dos investidores — inclusive os chineses. Assim, a melhor estratégia para os países da região — inclusive o Brasil — é buscar equilíbrio: manter relações comerciais com ambos os lados, tentando permanecer neutros. Assim como ocorre na Europa, alinhar-se exclusivamente aos EUA significaria perder acesso à China, principal parceiro comercial da região.

Mas os EUA não tendem a pressionar os países da América Latina para reduzir o peso comercial da China na região?
Duvido que os EUA tenham capacidade para pressionar todos os países simultaneamente. Considerando o tamanho dos mercados e o volume de comércio, imagino que o foco principal dos Estados Unidos continuará sendo o México, em especial na renegociação do USMCA. Canadá e México devem ser pressionados a harmonizar tarifas para a China com as americanas.

O Brasil enfrenta uma crise fiscal, dívida alta e juros elevados, embora a inflação permaneça controlada. Qual é a projeção do UBS para a economia brasileira em 2026, considerando que será um ano de eleição presidencial?
O que me chama atenção na dinâmica da dívida brasileira é que, no papel, ela parece bastante frágil — no sentido de que, se não houver melhora fiscal, a dívida tende a continuar subindo. Mas, olhando abaixo da superfície, o que realmente explica essa dinâmica é o nível dos juros reais. Os juros reais no Brasil são muito mais altos do que em qualquer outro país que analisamos. E, na verdade, houve muito pouca deterioração fiscal.

Como assim?
O que existe hoje é o que eu chamaria de um “equilíbrio ruim”: há falta de confiança nas contas públicas, o que pressiona o câmbio, depois pressiona a inflação e o Banco Central precisa reagir. Isso cria um ciclo em que os juros reais acabam ficando extremamente altos.

Como reduzir os juros reais?
Se fosse possível convencer o mercado e os investidores de que a política econômica permanecerá sob controle, então, em teoria, os juros reais poderiam cair rapidamente sem necessidade de um grande ajuste fiscal. Isso é muito diferente da maioria dos países. Normalmente, quando analisamos sustentabilidade da dívida, os países frágeis precisam fazer mais ajuste fiscal. No Brasil, a solução passa por reduzir os juros reais — e os juros reais dependem da confiança na condução fiscal. É um argumento circular: falta confiança, e isso alimenta o problema. Por isso, a eleição é importante.

Em que sentido?
Não vou comentar sobre candidatos ou partidos, mas, se surgir um plano econômico crível, no qual o mercado confie, o País entra em um ciclo virtuoso: a confiança melhora, o câmbio se fortalece, a inflação cai, o Banco Central pode reduzir juros — e, de repente, a dinâmica da dívida melhora muito. No nosso ranking de vulnerabilidade, o Brasil aparece no topo. Mas, estruturalmente, isso exagera o tamanho do ajuste necessário porque grande parte do problema é, essencialmente, uma questão de confiança.

"No Brasil, a solução passa por reduzir os juros reais, que dependem da confiança na condução fiscal"

Após 26 anos de negociações, o acordo União Europeia–Mercosul foi suspenso para revisão jurídica por pressão do setor agrícola. Esse novo atraso era esperado?
O atraso surpreendeu, sobretudo pelo momento, já que a ratificação enviaria um sinal importante. Ainda assim, a expectativa é de que seja apenas temporário. A resistência agrícola tem raízes históricas: por décadas, o setor recebeu grande parcela do orçamento europeu e altos subsídios para compensar sua baixa competitividade. Além disso, agricultores são politicamente influentes e capazes de mobilizar protestos disruptivos, o que levou governos, ao longo de 50 a 70 anos, a protegê-los com barreiras comerciais. Embora esses subsídios tenham diminuído, a agricultura europeia se modernizou e opera em escala muito maior, permitindo reduzir parte da proteção — mas não eliminá-la.

O UBS estima em 5% o crescimento da China este ano. Como o desempenho dos setores tradicionais e das novas tecnologias influencia a perspectiva de crescimento da economia chinesa em 2026?
A projeção de que a China cresça cerca de 5% em 2026 foi feito apesar da fraqueza persistente do setor imobiliário e do impacto das tarifas americanas sobre as exportações tradicionais. O que sustenta esse ritmo é a força dos setores da “nova economia” — como inteligência artificial, energia verde e painéis solares —, que já respondem por aproximadamente um quarto do crescimento e compensam integralmente a perda de dinamismo das áreas antigas. Embora o crescimento agregado pareça estável, a composição mudou: os setores tradicionais encolhem, enquanto os novos ganham tração e tornam a economia estruturalmente mais saudável, ainda que as estatísticas oficiais não capturem totalmente essa transformação

O avanço tecnológico da China, especialmente em energia e IA, está influenciando o interesse dos investidores internacionais no mercado acionário chinês?
Sim. O apetite por ações chinesas cresceu significativamente no último ano e meio, impulsionado pela percepção de que a China é a principal alternativa aos EUA em IA e setores tecnológicos emergentes. Embora o mercado acionário chinês represente sobretudo empresas de internet e consumo — e não a economia inteira — ele tem atraído investidores que buscam diversificação e exposição à inovação chinesa. A presença ampliada de investidores europeus e americanos em um evento recente que fizemos no país reforça essa tendência de realocação de capital em direção à China.

“O apetite por ações chinesas foi impulsionado pela percepção de que a China é a principal alternativa aos EUA em IA”

Como deve evoluir a relação comercial entre Estados Unidos e China nos próximos meses, especialmente no que diz respeito à disputa tecnológica e às tarifas?
Apesar das tensões em torno dos chips de IA, não se espera uma escalada imediata da guerra comercial. Sob o governo Trump, houve até flexibilização das restrições ao acesso chinês a chips americanos, influenciada pelo lobby das empresas de tecnologia dos EUA, que querem manter a liderança global vendendo para a China. Embora tarifas possam voltar a subir, nada deve mudar formalmente até outubro, em parte porque o governo americano está focado em conter o custo de vida — e elevar tarifas encareceria produtos. Esse foco tende a manter a relação relativamente estável até as eleições de meio de mandato nos EUA, embora o cenário possa mudar depois.