A China levou 36 horas para mover sua peça no xadrez da guerra comercial global e reagir ao pacotaço de tarifas do presidente americano Donald Trump para todos os países do mundo – que, no caso chinês, representou uma sobretaxa de 54% à maioria de suas exportações.

A resposta do governo de Pequim, nesta sexta-feira, 4 de abril, foi no mesmo tom, duríssima: imposição de tarifas de 34% para todos os produtos importados dos EUA, além de um pacote de medidas adicionais contra empresas americanas que atingiu vários setores.

A rapidez da reação chinesa – o primeiro país a anunciar uma retaliação ao tarifaço anunciado na quarta, 2 - tende a abrir uma nova frente na guerra comercial entre os dois países, à parte o estrago causado pela implosão do sistema de comércio global patrocinado por Trump.

O grau de amplitude das retaliações indica ainda que o governo chinês está mais preparado para um confronto comercial contra os EUA do que em 2018, quando foi surpreendido pela decisão de Trump, em primeiro mandato, de impor tarifas e outras barreiras à China.

A reação chinesa acabou agravando a turbulência nos mercados globais pelo segundo dia consecutivo, ampliando o grau de expectativa para uma guerra comercial mundial e eventual recessão global, decorrente dos efeitos do pacote de Trump.

Os principais índices dos EUA caíram mais de 3% nas negociações da manhã, com o Dow perdendo 1.400 pontos. O Nasdaq Composite recuou 4,6%, a caminho de fechar o dia acumulando queda que se aproxima de 20% em relação ao pico mais recente. As ações europeias também caíram acima de 4%.

Economistas do J.P. Morgan veem agora uma chance de 60% de uma recessão global, em contraposição à estimativa de 40%, feita antes do pacotaço de Trump. Os preços do petróleo caíram ainda mais, com o petróleo bruto de referência dos EUA recuando para cerca de US$ 62 o barril , o menor nível desde 2021.

O dólar, que havia caído acentuadamente na véspera, recuperou-se um pouco nesta sexta, mas oscilando perto de seus níveis mais fracos do ano.

Antes do anúncio chinês, o governo americano lançou uma ofensiva para atenuar os ruídos negativos emitidos pelos mercados após o pacotaço. O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que “os mercados estão quebrando, mas a economia dos países, não”, acrescentando que os negócios globais se ajustariam ao novo ambiente.

No início do dia, Trump se dirigiu aos investidores advertindo que suas políticas não mudariam: "Este é um ótimo momento para ficar rico, mais rico do que nunca!!!", postou, em letras maiúsculas, no Truth, sua rede social.

Horas depois, após o anúncio chinês, Trump reagiu de forma irônica: "A China jogou errado, eles entraram em pânico — a única coisa que eles não podem fazer!", escreveu em sua rede social.

Resposta inevitável

Parte da reação de Trump se deve à expectativa de que a China evitaria anunciar retaliações, tentando manter aberta a possibilidade uma negociação bilateral.

A economia chinesa depende muito das exportações, incluindo para os EUA. O país asiático comprou US$ 147,8 bilhões em semicondutores, combustíveis fósseis, produtos agrícolas e outros produtos americanos no ano passado. E vendeu US$ 426,9 bilhões em smartphones, móveis, brinquedos e muitos outros produtos para os EUA.

Com as tarifas restringindo seu acesso ao mercado americano, a opção seria enviar as exportações para outros mercados. Mas a China já tem grandes e crescentes superávits com a maior parte da Europa e do mundo em desenvolvimento, o que poderia desencadear uma onda de tarifas sobre produtos chineses.

Jude Blanchette, diretor do RAND China Research Center, porém, disse que a resposta enérgica da China se tornou "inevitável" depois que Trump introduziu suas tarifas abrangentes. “Apesar dos avisos da Casa Branca contra retaliações, as tarifas totais impostas à China foram tão substanciais que o governo chinês tinha poucos motivos para exercer a contenção.”

O teor das medidas anunciadas pelo governo chinês indica uma resposta cuidadosamente estudada, que inclui retaliações que vão além do índice tarifário, afetando setores da economia americana que dependem de tecnologia chinesa.

As tarifas de 34%, por exemplo, vão atingir todas as importações americanas – já a sobretaxa imposta pelos EUA, que totaliza 54%, isentou algumas grandes categorias de importações, como semicondutores e produtos farmacêuticos.

As outras medidas, amarradas, oferecem opções vantajosas de negociações futuras por parte do governo chinês. Uma delas adiciona 11 empresas americanas à sua lista de “entidades não confiáveis”, essencialmente impedindo-as de fazer negócios na China ou com empresas chinesas.

Em outra frente, o governo chinês anunciou que estava iniciando duas investigações comerciais sobre exportações americanas de equipamentos de imagem médica, uma delas envolvendo a DuPont. O segmento é uma das poucas categorias de fabricação nas quais os EUA continuam competitivos internacionalmente.

Outra medida impôs um sistema de licenciamento para restringir as exportações de sete elementos de terras raras que são minerados e processados quase exclusivamente na China e são usados em tudo, de carros elétricos a bombas inteligentes.

O novo sistema de licenciamento de exportação da China para metais de terras raras pode desencadear mais dificuldades para a indústria americana.

Embora exista atividade de mineração para esses tipos de metais nos Estados Unidos, a maior parte do minério é enviada para a China para processamento em materiais valiosos, pois o país asiático detém tecnologia para isso.

Aliás, a melhor preparação chinesa para a atual guerra comercial se deve ao grande avanço da ambiciosa política industrial “Made in China 2025”, que começou em 2015, tornando o país amplamente autossuficiente na produção de muitos bens industriais de tecnologia avançada, de carros elétricos a painéis solares.

Para Wang Dong, diretor executivo do Instituto para Cooperação e Entendimento Global da Universidade de Pequim, as contramedidas desta sexta-feira destacam o arsenal de retaliações à disposição da China. “Se a esperança do governo Trump é pressionar a China a ceder, então isso não vai dar certo”, advertiu Wang.

Segundo ele, o governo chinês, na verdade, está apostando que Trump sofrerá crescente pressão interna para aliviar algumas de suas tarifas devido aos danos que isso pode causar à economia dos EUA. “A China está em melhor posição para vencer esta rodada de atritos comerciais.”