A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa adicional de 10% sobre as importações do Brasil, na esteira da guerra comercial que declarou contra o mundo, é um prato cheio para aqueles que pedem uma retaliação.
O Congresso brasileiro, inclusive, aprovou a lei de reciprocidade, que foi para sanção presidencial, que dá condições ao Brasil de enfrentar a guerra comercial aberta pelo presidente americano.
A questão que se coloca é se vale mesmo a pena o Brasil adotar uma estratégia de retaliação e taxar os produtos americanos? O NeoFeed fez essa pergunta a especialistas. E a questão é complexa.
Do ponto de vista da cesta de produtos importados, a percepção é de que um aumento de preços oriundos de uma retaliação brasileira não teria grandes consequências, pelo fato de serem artigos encontrados em outros mercados.
Dentre os principais itens importados dos Estados Unidos estão motores e máquinas não elétricos; óleo combustíveis de petróleo ou de minerais betuminosos; e aeronaves, incluindo suas partes. No ano passado, o País importou um total de US$ 40,6 bilhões de produtos americanos.
“Importamos mais produtos industrializados dos americanos, algo que conseguiríamos eventualmente trazer de outros lugares. São produtos que conseguimos da Europa, da China, Japão. Conseguimos trocar de fornecedores”, diz Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.
A grande questão vem pelo lado do câmbio. O fato de o Brasil ter sido menos atingido pelas tarifas americanas, comparado com outros países (a China arcará com taxas de 34%, além dos 20% que já estavam em vigor), junto com um enfraquecimento do dólar no mundo, está ajudando a derrubar o câmbio. Por volta das 16h11, o dólar recuava 0,71%, a R$ 5,62.
O real já vem se apreciando ante a moeda americana desde o fim do ano passado e a expectativa é de que o dólar siga em trajetória negativa, com os investidores reagindo aos efeitos das tarifas sobre a economia dos Estados Unidos e do mundo.
A MB Associados, por exemplo, projetava que o câmbio ficaria em R$ 5,70 no curto prazo, enquanto o Boletim Focus aponta para um dólar a R$ 5,92 no fim do ano.
"Vemos o câmbio, com tudo o que aconteceu, derretendo, chegando em R$ 5,60, diante da ideia que o País saiu fortalecido do ponto de vista comercial", diz Vale.
Se o Brasil decidir retaliar, há risco de efeitos sobre a inflação, segundo Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos. Para ele, o País pode ser dragado a uma disputa comercial com os Estados Unidos, considerando as promessas de Trump de responder caso algum país decida impor tarifas sobre produtos americanos, que não traria nenhum benefício.
“Caso o Brasil decida retaliar, vai perder oportunidade, o câmbio não vai ceder o quanto está cedendo hoje, diante da expectativa de que o Brasil ocupe um espaço ou aumente seu share no comércio internacional. E, adicionalmente, vai impor mais inflação aos brasileiros”, afirma Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos.
Nas circunstâncias atuais, um dólar mais baixo ajuda o Banco Central (BC) a lidar com os efeitos da inflação e atrai um fluxo maior de recursos ao País, no momento em que a economia dos Estados Unidos demonstra sinais de desaceleração e os ativos estão em patamares baratos.
Ao mesmo tempo, o País pode substituir os Estados Unidos como fornecedor de commodities, especialmente agrícolas. “Se o Brasil fizer uma retaliação, ele diminui o efeito cambial, porque perderemos, ou diminuiremos, a oportunidade criada pelo ambiente em que o Brasil é relativamente beneficiado pela política tarifária do Trump”, diz Sanchez. “Adicionalmente, colocaria uma elevação de preços internos, por conta da tarifa. O efeito líquido será inflacionário.”