A péssima reação dos mercados e da maioria dos países nesta quinta-feira, 3 de abril, ao pacotaço de tarifas anunciado na véspera pelo presidente americano Donald Trump acendeu um sinal de pânico dentro e fora dos Estados Unidos.
O fato de o conjunto de medidas anunciado por Trump ter sido considerado mais letal para o comércio global que o imaginado e cheio de falhas conceituais levou vários economistas a preverem que a nova política comercial dos EUA tende a causar um efeito inverso ao inicialmente desejado pelo presidente americano.
O risco, agora, é que uma recessão e aumento de inflação, dentro e fora dos EUA, cheguem antes de uma guerra comercial mundial – efeito previsível de uma onda de medidas retaliatórias dos países atingidos, inicialmente considerada mais iminente após a implosão do sistema de comércio global causado pelo pacote americano.
O derretimento dos mercados globais ao longo da manhã desta quinta-feira não poupou ativos, países nem empresas, num sinal de contraste ao discurso otimista de Trump do dia anterior.
O índice Nikkei do Japão fechou em queda de quase 3% e o Stoxx 600 da Europa caiu 1,5% ao longo do dia. Nos EUA, os índices futuros do S&P 500 começaram o dia recuando mais de 3%. Logo após a abertura, o índice industrial Dow Jones perdeu mais de 1.500 pontos, o Nasdaq despencou 5% e o S&P 500, 4%
As ações de algumas das empresas mais conhecidas dos EUA, da Nike à General Motors, foram vendidas com medo de que novas barreiras comerciais engolissem seus lucros e elevassem os preços a níveis que enfraqueceriam a demanda por seus produtos.
As ações da Apple - que fabrica seus dispositivos eletrônicos na China e em outros países asiáticos -, caíram 9% no início do pregão. Os papéis das gigantes tech Meta e Amazon desvalorizaram-se mais de 7% cada. As ações da Nvidia, que produz seus novos chips em Taiwan e depende do México para montar seus sistemas de inteligência artificial, recuaram mais de 5%.
O fato de o dólar ter caído 2,1% em relação a uma cesta de moedas de parceiros comerciais, caminhando para seu pior dia desde 2022, deixou claro onde os investidores se mostram mais pessimistas.
“O mercado tem se inclinado mais para preocupações sobre como essas tarifas altas podem representar maiores riscos de queda para a economia dos EUA”, disse Paul Mackel, chefe global de pesquisa de câmbio do HSBC, ao jornal The Wall Street Journal.
Lógica falha
Dois fatores reforçam essa preocupação. Um deles é o efeito do pacote na economia mundial. No início de março, o J.P. Morgan estimou que havia 40% de chance de uma recessão global este ano.
Essa estimativa precificou uma política comercial mais dura, mas nada perto do tamanho do pacotaço de Trump, que impôs sobretaxas mais pesadas (acima da linha mínima de 10% de tarifas) a 60 países, entre eles os maiores parceiros comerciais dos EUA, como União Europeia (20%), China (34%) e Japão (24%).
Parte da reação negativa também se deve à lógica falha do pacote anunciado por Trump, considerado por muitos economistas como inconsistente com o objetivo declarado de levar os déficits comerciais bilaterais a zero.
Eles argumentam que as balanças comerciais são impulsionadas por uma série de fatores econômicos baseados em avaliações aprofundadas das relações comerciais bilaterais, incluindo impostos, regulamentação e outras barreiras não tarifárias ao comércio – e não simplesmente pelos níveis de tarifas.
Para John Springford, economista comercial do Centre for European Reform, think-tank com sede em Londres, o resultado perseguido por Trump não vai eliminar os déficits comerciais.
“Esta é uma receita para martelar países mais pobres com grandes superávits comerciais com os EUA, não para eliminar os déficits comerciais dos EUA com eles”, disse Springford, acrescentando que, além disso, o pacote prejudicará os consumidores dos EUA, porque o repasse de tarifas será maior do que o governo americano estima. “Em suma, esse pacote é estúpido e destrutivo.”
Até mesmo o conceito de “tarifa recíproca”, eixo do pacote anunciado por Trump, é contestado.
Alguns dos países que receberam sobretaxa pesada dos EUA – como Vietnã (46%) e Taiwan (32%) - inundam o mercado americano com seus produtos, de vestuário a chips, mas não taxam as importações americanas em proporção elevada, pelo menos no mesmo patamar que suas exportações foram atingidas nos EUA.
Ou seja, esses e outros países em igual situação foram penalizados simplemente por oferecem mercadorias com preços competitivos no mercado americano.
Proteção à indústria
Outros dados reforçam que o objetivo de Trump de resgatar a indústria dos EUA com essa sobretaxação também não para de pé justamente por conta da interligação da economia americana com a do resto do mundo - a participação dos EUA no PIB global tem se mantido estável em cerca de 25% por décadas.
Cálculo da Apollo Global Management mostra que 41% das receitas das empresas do S&P 500 vêm do exterior – em especial empresas americanas que transferiram sua linha de produção para países da Ásia.
Com isso, os EUA, com seu insaciável mercado consumidor, alimentam o crescimento econômico dos países de quem importam produtos. Cerca de 97% de roupas e calçados à venda nos EUA vêm de outros países, de acordo com um relatório de 2024 da Associação Americana de Vestuário e Calçados (AAFA, na sigla em inglês).
Daí a certeza de que as tarifas impostas a países asiáticos, como Vietnã (produtor de roupas e equipamentos eletrônicos, por exemplo), vão acabar custando mais no bolso dos consumidores americanos.
A Exiger, uma empresa de análise de dados, calculou que os anúncios de Trump resultariam em US$ 600 bilhões em novas tarifas dos EUA por ano. A maior parte da taxa viria de 10 países, com as exportações chinesas respondendo por um quarto das tarifas adicionais em US$ 149 bilhões. Os produtos vietnamitas sofreriam taxas de US$ 63 bilhões.
O impacto é enorme até em países ricos. A União Europeia prevê que as tarifas vão custar € 380 bilhões — cerca de 70% de todas as exportações do bloco europeu para os EUA.
Na prática, trazer a indústria de volta para os EUA, como pretende Trump, é inviável em vários setores. O custo da mão de obra nos EUA é muito mais alto do que no exterior, e a oferta de pessoas dispostas a fazer trabalho de baixa remuneração, como na indústria de vestuário, é menor com a demografia da população envelhecida.
"Se onerarmos o custo do vestuário e os EUA não tiverem realmente interesse em construir uma indústria para este setor, então os custos aumentarão", advertiu Jim Kilpatrick, sócio da Deloitte especializado em cadeias de suprimentos.
Numa mostra de que a armadilha preparada por Trump pode se virar contra os próprios EUA, se as tarifas anunciadas fizerem com que os principais parceiros comerciais dos EUA entrem em recessão, isso também devastaria as exportações americanas, que totalizaram US$ 2,1 trilhões em bens no ano passado, mais outros US$ 1,1 trilhão em serviços.
Com tantos efeitos negativos aguardados, incluindo a rápida chegada de uma recessão global, há uma certo ar de consolo nos mercados com a perspectiva de que Trump, em algum momento, deve recuar.
"Uma lição dos primeiros meses da presidência de Trump é que é preciso deixar as notícias se curarem um pouco antes de levá-las a sério", disse Matthew Hougan, diretor de investimentos da Bitwise Asset Management ao portal americano Axios, admitindo que acredita num recuo do presidente americano.