Com a atenção dividida entre a corrida eleitoral a três semanas do primeiro turno; a tensão no Supremo Tribunal Federal (STF) onde ministros estão em confronto arranhando a credibilidade da instituição; e o Senado, que pode, mas não deve antecipar a votação da proposta de redução da jornada de trabalho 6X1, o mercado financeiro entra em contagem regressiva para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

Em meio a uma espiral de eventos político-institucionais que disputa atenção, mas não anula a relevância da decisão monetária, na quarta-feira, 16 de setembro, o Comitê definirá a próxima taxa básica da economia e não estará sozinho.

Três dos maiores bancos centrais do planeta tomarão providência semelhante. Na mesma quarta, o Federal Reserve, o BC dos EUA, anunciará sua taxa para os próximos 45 dias. Na quinta-feira, 17, será a vez do Banco da Inglaterra e Banco do Japão.

A segunda maior autoridade monetária do mundo, o Banco Central Europeu (BCE), cumpriu o calendário e saiu na frente. Na quinta-feira 10 de setembro, elevou sua mais importante taxa de juro de 2,25% para 2,5%, pavimentando o terreno para seus pares.

As reuniões ocorrem num momento crítico. Agosto foi marcado pela intensificação da alta de juros de longo prazo. A taxa de 10 anos dos títulos do Tesouro americano fechou o mês em 4,75%, o nível mais alto em quase 20 anos. No Japão, taxa semelhante ficou em cerca de 3%, máxima em 30 anos, e na Alemanha atingiu 3,3%, maior nível em 15 anos. Setembro segue a mesma toada ascendente com renovação de patamares históricos.

Com R$ 13 bilhões sob gestão, a Ibiuna Investimentos, instituição independente dirigida pelos especialistas em política monetária e juros – os ex-BCs Mário Torós e Rodrigo Azevedo – avalia que o movimento reflete uma tendência pós-pandemia em duas frentes.

Na esfera macroeconômica, observa-se o maior endividamento dos governos após forte expansão fiscal e a inflação acima das metas na maior parte do mundo desenvolvido há mais de cinco anos, comentam. Na esfera microeconômica, há maior demanda por investimentos de capital, associada à viabilização dos ganhos de IA, em paralelo a crescentes investimentos militares por maior tensão geopolítica.

Torós e Azevedo alertam, em carta aos investidores sobre perspectivas para este setembro, para a construção de portfolios e colocam pergunta importante para a tomada de decisões: se esse movimento reflete uma normalização de juros aos níveis pré-crise de 2008, com as taxas passando a flutuar em torno dos patamares atuais, ou se há uma tendência mais extensa de alta, em um ponto de equilíbrio mais elevado.

Com foco no curto prazo, porém, relevante é detectar se a alta de juros seguirá relativamente ordenada, como observado até agosto – o que tende a afetar pouco ativos de risco e enfraquecer o dólar – ou se haverá uma intensificação desordenada.

Caso em que provavelmente ocorreria uma onda de aversão com impacto nos ativos de risco e fortalecimento global do dólar.

Eventual intensificação da alta de juros globais é relevante para o Brasil, pontuam os dirigentes da Ibiuna, especialmente porque o País experimenta fragilidade fiscal, com acelerada elevação da dívida pública, maiores prêmios pagos pelo Tesouro para compradores de seus títulos e encurtamento dos prazos de rolagem da dívida doméstica.

Cenário que se reflete em juros reais próximos aos da crise 2015/2016 ou há 20 anos, com uma diferença: a relação Dívida/PIB está em nível mais alto. E torna urgente a sinalização de um ajuste fiscal capaz de estabilizar a trajetória do endividamento público.

“A alta do prêmio soberano tem afetado a precificação dos ativos brasileiros, que operaram com desconto significativo nos últimos anos”, afirmam Toros e Azevedo que, nesse ponto, alertam para a eleição brasileira.

Eles entendem que há amplo ceticismo quanto à capacidade de o governo atual, se reeleito, promover o ajuste necessário diante de uma era de juros globais elevados. Já uma mudança de governo geraria expectativa de ajuste fiscal significativo, com menor prêmio de risco e potencial reprecificação benigna de ativos brasileiros.

A Ibiuna acrescenta ver divergência entre a probabilidade que atribui à mudança de governo e a que parece embutida nos preços dos ativos. E, por essa razão, está posicionada principalmente via opções para aproveitar uma eventual mudança de rumo da política econômica brasileira nos próximos anos.

Contramão necessária?

Na contramão de seus pares, inclinados à elevação dos juros atentos à inflação e a mais uma recidiva do preço do petróleo que esbarra em US$ 105 o barril Brent com o agravamento do conflito no Oriente Médio nos últimos dias, o BC do Brasil poderá prosseguir com o ciclo de baixa e reduzir a Selic pela quinta vez consecutiva.

Nos quatro encontros anteriores, a taxa encolheu 1 ponto percentual – 0,25 ponto em cada oportunidade – estacionando nos atuais 14%. A Selic tende a cair a 13,75%, mas a sua manutenção em 14% seria justificada pelo turbulento cenário externo, apesar da sequência de indicadores negativos a apontar desaceleração mais intensa da atividade.

Porém, a escalada do petróleo puxa o dólar internacional e pode comprometer ainda mais a inflação doméstica via câmbio, alterando o plano de voo do Copom. Mas é certo que a desaceleração em curso prova que a política monetária restritiva está fazendo efeito – contribui para desinflação. Entretanto, gera um passivo inédito pela dimensão de famílias e empresas endividadas no País.

Entre a cruz e a caldeira, inclusive por colocar em xeque a opção do governo Lula de estimular o crescimento turbinando consumo, o BC se apressa a adotar medidas para coibir abusos na oferta de crédito digital. Conforme adiantou a Folha de S.Paulo, o BC pode, inclusive, aumentar a exigência de capital dos bancos para operações com cartões de crédito e crédito pessoal sem garantias.