Se você já abriu uma garrafa de vinho verde e esperou que o conteúdo fosse efetivamente da cor verde, não se preocupe — você não é o único. Essa associação, na realidade, faz bastante sentido, já que todas as outras categorias da bebida são definidas pela cor, como tinto, branco e rosé.

No caso do vinho verde, o nome se refere à região na qual as uvas são cultivadas. Ou seja, existem vinhos verdes brancos, tintos e rosés, todos provenientes de um território de aproximadamente 110 mil hectares, localizado no noroeste de Portugal, batizado Região dos Vinhos Verdes em 1908.

Foi por lá que os Guedes deram seus primeiros passos para se transformar numa das maiores vinícolas do país, dona de marcas como Aveleda, Quinta Vale Dona Maria, Adega Velha e Casal Garcia — o vinho português mais vendido no Brasil.

Hoje, a Quinta da Aveleda, que acumula 150 anos de tradição e está na quinta geração da família, tem um grande desafio: unir a experiência à inovação para conquistar o paladar em eterna evolução dos consumidores mundiais.

“As novas gerações estão se desligando do vinho e do consumo de álcool, isso é um fato. Por isso, nós precisamos mudar os códigos de como comunicamos o vinho, os momentos de consumo e até o próprio tipo de vinho”, diz Antônio Guedes, co-CEO e diretor de viticultura e enologia da vinícola, em entrevista ao NeoFeed.

Pensando nisso, ao longo dos últimos dois anos, a vinícola tem apostado em alternativas ao vinho “comum”, como o zero álcool, o produto em lata e, mais recentemente, menos de um ano atrás, a bebida vínica Casal Garcia Fruitzy.

Feito com um mix entre vinho verde e frutas como morango e maracujá, o produto tem menor teor alcoólico e deve ser consumido mais gelado, o que o torna mais leve e casual, indicado para momentos de comemorações.

“Globalmente, esse tem sido o motor de crescimento da empresa, com 15% das nossas vendas. No Brasil, apenas nos dois primeiros meses de 2026, o Fruitzy foi responsável por 20% das vendas totais, o que é incrível”, diz Antônio. “O produto é a nossa aposta para buscar um consumidor mais novo."

Anualmente, a vinícola produz cerca de 3,6 milhões de garrafas, sendo 95% desse volume destinado à marca Casal Garcia. Em 2025, exportou 350 mil caixas do rótulo para o mercado brasileiro — um aumento de 52% em relação a 2023.

Apesar do destaque para a marca Casal Garcia, a Quinta da Aveleda possui outrros rótulos como Aveleda, Quinta Vale Dona Maria e Adega Velha (Foto: Divulgação)

Antônio Guedes, co-CEO da vinícola, brinca que passou a vida toda se preparando para assumir o posto, após crescer nas imediações da propriedade vendo seu pai liderar o negócio (Foto: Divulgação)

Com a diversidade de rótulos, a Aveleda consegue atingir um grupo de consumidores maior, que vai desde os mais jovens, com o Casal Garcia e as bebidas vínicas, até os mais maduros, com Adega Velha (Foto: Divulgação)

A vinícola também está presente em regiões como Algarve, Douro e Bairrada, em busca de aprimorar a qualidade e diversificação de seus mais de 80 rótulos (Foto: Divulgação)

Na visão de Antônio, que divide a liderança da companhia com o primo Martim, essa mudança faz parte da modernização da vinícola, que vem ocorrendo de geração em geração. Para ele, a gestão dos dois ficará marcada na história da Aveleda por sua grande pegada digital e modernização.

“Nós éramos uma empresa que tinha o core business nos vinhos verdes, mas hoje temos vinhos do Algarve, da Bairrada, do Douro, além das bebidas vínicas”, diz. “Nosso processo de inovação é muito aberto e estamos dispostos a tentar tudo que possa fazer sentido para o negócio. Gosto de dizer que somos uma vinícola muito orientada pelo mercado”.

Atualmente, o Brasil é o maior mercado consumidor dos vinhos da Aveleda fora de Portugal, com 15% do volume e um crescimento anual de cerca de 10%. Em segundo lugar estão os Estados Unidos, com uma fatia de 10% das vendas internacionais da companhia.

A mutação do século XVII

A região portuguesa recebeu essa denominação em 1908, em razão do distinto resultado de seus vinhos, que eram menos alcoólicos, mais leves e palatáveis, por vezes até levemente espumantes.

Esse produto só era encontrado naquela parte do país, em razão de uma combinação de fatores, como o solo granítico, clima atlântico e o mix de culturas, que trazia diferentes notas no paladar da uva.

Essa “mutação” foi descoberta no século XVII, quando havia uma grande demanda inglesa pelos vinhos produzidos na região que se tornaria a região do vinho verde. Na época, as uvas eram plantadas de forma isolada, em encostas e terrenos mais secos, o que resultava em um vinho “comum”, mais maduro e com graduação de álcool mais alta.

Porém, ao mesmo tempo, os caseiros dessas propriedades, que viviam à base da agricultura de subsistência, também começaram a cultivar uvas em seus pequenos pedaços de terra, como uma forma de conseguir renda extra.

Assim, as videiras eram colocadas em meio ao plantio de batata, feijão, milho, em uma ocupação vertical. Com a sombra das árvores, essa uva desenvolvia menos álcool e mais acidez.

Além disso, com safras tardias, feitas perto de novembro, o engarrafamento ocorria de forma rápida e, na primavera, aquele líquido voltava a fermentar dentro das próprias garrafas, criando bolhas semelhantes às vistas nos champanhes.

Aos poucos, com mudanças no comércio português e foco na região do Douro, esse modo de plantio se tornou prioritário na região, atraindo a atenção de comerciantes franceses, que viram a bebida como uma oportunidade de negócio.

“Quando se criou a região, a produção era quase inteira de vinhos com pouca graduação. Mais tarde, com a entrada na União Europeia, o aumento de subsídios trouxe novamente os vinhos mais maduros para o negócio e hoje convivemos com as duas tipologias da bebida na região, atingindo todos os públicos”, afirma Antônio.