Quando se analisa a temporada de estreia de Gabriel Bortoleto na Fórmula 1, os números podem indicar que ela tenha sido decepcionante. O jovem piloto brasileiro, de apenas 21 anos, terminou o campeonato na 19ª posição, com apenas 19 pontos – sendo que o seu melhor resultado foi o 6º lugar na etapa da Hungria.
Mas, para um novato que lidava com a pressão de ser o primeiro brasileiro em sete anos a compor o grid da F1, as estatísticas não são suficientes para classificar o desempenho de Bortoleto. Basta dizer que ele chegou a rivalizar com seu parceiro de equipe, o experiente piloto alemão Nico Hulkenberg, e foi elogiado por Jonathan Wheatley, chefe da equipe Kick Sauber.
“Tivemos momentos altos, de ótimos resultados, e alguns momentos um pouquinho mais assustadores, como o GP do Brasil, em que tive uma batida forte. Mas, se eu for bem sincero, foi um ano muito, muito bom”, diz Bortoleto, em entrevista ao NeoFeed.
As perspectivas para 2026 são totalmente diferentes. A equipe de Bortoleto deixa de se chamar Kick Sauber e passa a ser apenas Audi, após a escuderia ter sido adquirida pela fabricante alemã do grupo Volkswagen no início de 2025.
E, não menos importante, a F1 passa por uma transformação poucas vezes vista na história da categoria. Com carros menores, mais ágeis e com motor híbrido, em que 50% da potência vem da bateria e 50% da combustão de combustível, o jogo ficará ainda mais competitivo – o que é positivo para Bortoleto, que passará a jogar de igual para igual.
“A Audi foi vitoriosa em todos os esportes que decidiu entrar, e eu sei que na Fórmula 1 não será diferente, mas temos muito trabalho pela frente”, afirma Bortoleto. “É a primeira vez que eles estão construindo um carro e não acho que vamos sair ganhando corridas desde o início, mas acredito que vamos chegar lá.”
Nesta entrevista, que você lê a seguir, Bortoleto fala de sua trajetória (ele começou em 2011 nas categorias de base do kart e venceu em categorias como Fórmula 4, 3 e 2), avalia sua temporada de estreia e fala das perspectivas para 2026:
Muitos pilotos tentam, mas quase nenhum chega à Fórmula 1. O que te fez atingir esse marco?
Acredito que muitas vezes é sobre estar no lugar certo. Nas categorias da Fórmula 3 e Fórmula 2, tive ótimas oportunidades com as equipes, fiz um bom trabalho, fui constante e fiz um bom campeonato. E isso chamou a atenção das equipes da Fórmula 1.
Sei que esses dois anos foram muito importantes para chegar onde estou hoje, mas todo o caminho também fez muita diferença. Fui para a Europa aos 11 anos na expectativa de perseguir esse sonho e, mesmo com resultados expressivos no Kart, passei por momentos muito difíceis para avançar no esporte. Mas não me arrependo. Acho que esses momentos me fizeram um piloto e uma pessoa mais forte para alcançar mais resultados.
O que você precisou abrir mão?
Olha, acredito que, obviamente, da minha infância. Deixar minha família e amigos para trás para morar sozinho na Itália, ficando meses sem vê-los, foi um grande desafio. Para uma criança de 11 anos, isso é muito difícil. Mas tinha tanta ambição de chegar na Fórmula 1 e era um sonho tão grande para mim que nunca senti tanto essa falta. E quando sentia, lembrava o porquê estava fazendo aquilo e tudo ficava mais fácil.
O ano de 2025 foi o seu primeiro como piloto oficial da Fórmula 1. Como você avalia a sua temporada?
Foi uma temporada especial. Nós tivemos momentos altos, de ótimos resultados e alguns momentos um pouquinho mais assustadores como o GP do Brasil, que tive uma batida forte. Mas se eu for bem sincero, foi um ano muito, muito bom.
Bater de frente com meu companheiro de equipe, que é um cara extremamente experiente na Fórmula 1, já no primeiro ano, era algo que eu talvez não esperava assim de cara. Mas a gente passou o ano pau a pau, o que foi muito legal. E ter o reconhecimento da equipe de que estamos fazendo um bom trabalho, apesar das limitações do carro, é muito gratificante.
"Teremos mais responsabilidades a partir de agora, com a expectativa de desenvolver um bom carro, que possa lutar por títulos em algum momento"
Você é considerado como um dos novatos mais promissores da competição. Você se vê dessa forma?
Acredito que sim. Entendo o que a gente passou esse ano, o carro que a gente tinha e os resultados que a gente atingiu, então faz sentido esse título.
Agora com a Audi e com novo modelo de carro, quais são as suas expectativas para 2026?
A Audi foi vitoriosa em todos os esportes que decidiu entrar e eu sei que na Fórmula 1 não será diferente, mas temos muito trabalho pela frente. É a primeira vez deles construindo um carro e não acho que vamos sair ganhando corridas desde o início, mas acredito que vamos chegar lá. É uma construção, sem dúvidas.
Ainda tenho muito a aprender nesse próximo ano, meu segundo de Fórmula 1. E, como equipe, teremos mais responsabilidades a partir de agora, com a expectativa de desenvolver um bom carro, que possa lutar por títulos em algum momento. Será um desafio grande, mas estou muito animado para participar desse novo projeto e fazer parte dessa nova fase.
O que você acredita que falta para termos mais pilotos brasileiros chegando a elite do automobilismo?
Acredito que o cenário hoje está diferente. Nós vemos muitas empresas grandes apoiando os jovens talentos, algo que não acontecia com tanta frequência antigamente. E isso é muito importante porque o euro está cada vez mais caro e, se for depender de dinheiro próprio, é muito difícil chegar à Europa, onde você realmente consegue começar a ganhar destaque.
Na minha trajetória, isso já foi essencial. Tive o suporte de grandes empresas como a Qualcomm, Snapdragon e Motorola, e hoje conto com muitas outras parcerias que me ajudam a chegar mais longe. Sem esse apoio, provavelmente não poderia estar aqui conversando sobre a minha trajetória. Eu nunca me impus limites e não vou começar agora. Esse foi apenas o meu primeiro ano e quero chegar muito, mas muito mais longe.