Aos poucos, o Brasil se prepara para superar um antigo paradoxo - o da cerveja. Terceiro maior produtor e consumidor da bebida do planeta, o País nunca conseguiu cultivar, em larga escala, o ingrediente fundamental para a sua produção: o lúpulo. Apenas 1% da planta usada pelas cervejarias nacionais cresce em solo brasileiro.
Espécie nativa de regiões de clima temperado e altas altitudes, a herbácea é responsável pelo amargor que equilibra o dulçor do malte, além de conferir aromas e sabores complexos — de notas florais e herbais a cítricas e frutadas. Contribui, ainda, para a formação da espuma. E suas propriedades antibacterianas ajudam a conservar a bebida por mais tempo. Sem o lúpulo, a cerveja seria um líquido turvo, açucarado e insosso.
Graças às inovações nas técnicas de cultivo, no entanto, desde 2018 a herbácea vem passando por um processo de “tropicalização”. E, onde antes o lúpulo não vingava, hoje ele cresce robusto e saudável.
Entre 2021 e 2024, a produção saltou de 18 toneladas para 81,3 toneladas, indica relatório da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo).
É pouco se comparada às médias globais, mas muito para um país que, até recentemente, dependia quase integralmente da importação — sobretudo da Alemanha e dos Estados Unidos, responsáveis por quase 75% da área cultivada com lúpulo no mundo. Mas a produtividade por aqui cresceu quase 90%.
“Em um mercado global altamente concentrado, a competição por qualidade é com gigantes que fazem isso há centenas de anos”, diz ao NeoFeed Daniel Leal, vice-presidente da associação. “Para chegar lá, precisamos ter mais regularidade e segurança com a produtividade. O desafio é grande, mas estamos caminhando para vencê-lo.”
O Brasil chega para disputar um mercado avaliado em US$ 9,43 bilhões no ano passado, mostra estudo da consultoria Fortune Business Insights. Em 2025, deve movimentar pouco mais de US$ 10 bilhões e, até 2034, perto de US$ 18 bilhões.
Por enquanto, os principais clientes do lúpulo nacional são as cervejarias artesanais — de pequeno e médio porte, como conta ao NeoFeed Teresa Yoshiko, fundadora do Viveiro Ninkasi, no Rio de Janeiro.
“No campo, o produtor já está resolvido. Agora, o grande gargalo está no processamento, que demanda equipamentos caros e trabalho mecânico”, diz ela. “Esse é o momento de o setor se unir para montar um local único de beneficiamento, por meio do cooperativismo, e efetivamente começar a crescer.”
É unânime entre os players do setor: em cinco anos, o Brasil será autossuficiente em lúpulo. Grandes marcas como Ambev, Heineken e Grupo Petrópolis, então, produzirão cervejas 100% nacionais. Isso significaria atingir um valor de mercado de, no mínimo, US$ 64 milhões — o equivalente ao montante anual importado hoje.
Para alcançar a independência, a área total cultivada deve ser de 20 mil hectares, nas contas de Yoshiko. Uma meta ambiciosa, já que hoje as plantações de lúpulo somam pouco mais de 95 hectares.
“Isso [20 mil hectares] não é nada comparado às outras culturas que temos por aqui”, afirma a produtora. “Hoje, é como se o mercado de lúpulo fosse uma criança que está aprendendo a andar. Para começarmos a correr, é um pulo."
Felipe Wigman, sócio do viveiro Van de Bergen, de São Paulo, também está otimista. “O Brasil tem potencial para se tornar um dos grandes produtores mundiais, seguindo uma trajetória semelhante à da soja e do eucalipto — culturas que eram consideradas impossíveis por aqui, mas que, após serem tropicalizadas, transformaram o país em um dos maiores produtores globais”, diz o empresário, em conversa com o NeoFeed.
Como ele conta, alguns pequenos produtores do estado estão se articulando para construir um centro de industrialização, ainda sem localização definida. Além disso, uma série de iniciativas governamentais, tanto federais quanto estaduais, busca fortalecer a produção.
Para Wigman, em dez anos o Brasil tem tudo para se tornar um player exportador de peso. Os benefícios para a indústria cervejeira nacional são imensos — da competitividade de preço e redução da instabilidade da variação cambial à proximidade com o campo, possibilitando o manejo de produtos mais frescos e, portanto, de maior qualidade.
Dono da marca Itaipava, o Grupo Petrópolis é um dos grandes que investe no lúpulo brasileiro desde 2018. A companhia utilizou a herbácea plantada em sua fazenda de Uberaba, em Minas Gerais, na edição especial da Black Princess Braza Hops, produzida entre 2020 e 2022, diz Leonardo Penna, especialista em Inovação de Cerveja e Produção do grupo, em entrevista por e-mail ao NeoFeed.
Transformar o Brasil em produtor global de lúpulo só não é um desafio quase intransponível graças à vocação do País para as inovações agrícolas. A Serra da Mantiqueira, por exemplo, hoje produz vinhos de inverno premiadíssimos no exterior por causa da dupla poda, uma invenção brasileira.
Enganando a planta
As adaptações do lúpulo ao nosso clima e solo seguem um caminho parecido. A planta necessita de, pelo menos, 15 horas diárias de luz. Mas, aqui, a duração do dia varia pouco ao longo do ano, ficando próxima de 12 horas. Isso pode antecipar a floração, o que prejudica a qualidade da colheita.
Os produtores brasileiros, então, resolveram “enganar” a planta. “Quando o sol se põe, acendemos as luzes, formando artificialmente um dia de 17 horas. Com a luz, a planta cresce sem florescer”, explica ao NeoFeed o agrônomo Felipe Francisco, dono da consultoria TechLúpulo. “Quando apagamos a luz, o lúpulo floresce de forma intensa e homogênea.”
Como o Brasil é um país predominantemente de baixa altitude e, por isso, com temperaturas mais altas e menor amplitude térmica, a saída tem sido o manejo agronômico ajustado, como sombreamento parcial, irrigação controlada e proteção contra o calor excessivo.
“Testamos diversas teses em ambiente controlado, que vão desde o manejo nutricional até fertilizantes e metodologia de secagem do lúpulo, para que essas descobertas sejam levadas às regiões produtoras do Brasil de forma segura”, diz ao NeoFeed Gustavo Xavier, pesquisador da Embrapa Agrobiologia, no Rio de Janeiro.
Com as adaptações, atualmente o Brasil colhe até três safras de lúpulo por ano, enquanto os produtores tradicionais do Hemisfério Norte colhem apenas uma.
Tal qual as características sensoriais dos vinhos são influenciadas pelo terroir onde as uvas são cultivadas, o perfil das cervejas está diretamente ligado à região onde o lúpulo é plantado.
Como a identidade varia de um lugar para outro, o lúpulo plantado em Santa Catarina vai proporcionar experiências diferentes do lúpulo colhido no Rio de Janeiro. Ou seja, há lúpulo brasileiro para todos os gostos - uma grande vantagem desse mercado ainda em formação na busca por reconhecimento.