Roma - Não é difícil identificar o guarda-roupa de um italiano: ele sempre tem um piumino, ou até vários. Esse casaco acolchoado, que conquistou o mundo nas baixas temperaturas, vai muito além da proteção contra o frio. Com conforto e praticidade, a peça também transmite a sensação de pertencer a um universo de luxo e exclusividade, ligado à tradição do esqui, esporte de origem aristocrática.
A indumentária, que atravessou as montanhas para ganhar as ruas, agora ganha ainda mais visibilidade com o início dos Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026, que vai até 22 de fevereiro - o Brasil levou 15 atletas para a competição na Itália nas modalidades esqui, bobsled e skeleton.
Promete ser um verdadeiro desfile de moda na neve, em versões coloridas, com costuras mais fechadas, criando “gomos” menores, no que ficou conhecido como “boneco Michelin”, ou quadrados maiores, que aumentam o volume da roupa e são conhecidas como “puffer”.
Na vanguarda das criações está o estilista chinês William Shen, da grife Raxxy, com roupas futuristas e estruturadas, as preferidas das influencers.
O piumino nasceu para proteger alpinistas e esquiadores como uma roupa funcional. Uma das pioneiras dessa transformação fashion ao longo dos anos é a Moncler, com peças extremamente desejadas.
Fundada em 1952, no sudeste da França, em Monestier-de-Clermont (das iniciais Mon e Cler nasceu o nome), a marca produzia roupas e equipamentos para usar em montanhas. Na década de 1960, ganhou visibilidade ao fornecer uniformes para a seleção francesa de esqui usar nos Jogos Olímpicos de Inverno em Grenoble.
Mas a verdadeira guinada veio em 2003, quando o italiano Remo Ruffini adquiriu a empresa e a reposicionou como marca global cobiçada, mantendo o DNA técnico e esportivo, mas incorporando design e inovação.
Surgiram as linhas Gamme Rouge, Gamme Bleu e o projeto Genius, com colaborações de designers como Giambattista Valli, Thom Browne, Jonathan Anderson, Craig Green e Simone Rocha, consolidando o vestuário como ícone de estilo. Um piumino Moncler pode custar entre € 1 mil e € 5,8 mi (algo entre R$ 6,3 mil e R$ 36,5 mil), dependendo do estilo e material.
O esquiador profissional Lucas Pinheiro Braathen é um dos atletas brasileiros nos Jogos Olímpicos de Milano Cortina e representa a marca como embaixador da Moncler.
A EA7 Emporio Armani veste a equipe Itália, enquanto a Ralph Lauren, os americanos. O time do Canadá contará com peças da Lululemon e Grã-Bretanha, Islândia e Finlândia usarãoo Ben Sherman, 66°North e Luhta, respectivamente. As grifes Prada, Dior e Louis Vuitton estarão no evento, reforçando a ligação entre esportes de inverno e luxo.
Os piuminos também acompanham as tendências de sustentabilidade que sempre permeiam o mundo da moda. Com o passar dos anos, a pena de ganso ou pato usada no enchimento passou a ser questionada e virou “inimiga”. Algumas marcas, então, começaram a apostar em fibras sintéticas tecnológicas, que seguram o calor e protegem contra a umidade.
Nas ruas de Roma, há exemplares por € 10 (cerca de R$ 63, em uma versão simples, com fibra de poliéster), e modelos de grife a € 179 euros (R$ 1,2 mil) da grife Save The Duck, que não usa insumos animais. Em Milão, onde acontece uma das semanas de moda mais concorridas do mundo, os looks são sempre fashionistas.
“O piumino é um casaco leve e pode ser lavado em casa, isso seduziu o italiano. Ao longo dos anos, ele foi criado e recriado, mas nos anos 1980 ele ganhou impulso com os paninari, tribo de jovens milaneses que combinavam os casacos Moncler com calças Levi's 501, botas Timberland e virou música dos Pet Shop Boys”, diz Camila Leonelli, que é relações institucionais da Accademia Costume & Moda.
Os jovens se reuniam em lanchonetes (as paninoteche) e se destacavam pelo uso de marcas icônicas, com um visual que misturava esporte, luxo e streetstyle, inspirado nos Estados Unidos e eram o símbolo da Itália dos anos 1980, otimista e consumista.
No Brasil, de olho no público que viaja para estações de esqui, a Farm criou uma coleção de piuminos estampados e volumosos, bem ao estilo do que consagrou a marca: estampas coloridas.
Mesmo que as temperaturas tropicais não favoreçam o uso da peça, o que vale é desfilar durante as viagens para onde as temperaturas sempre são mais frias.