A primeira vez que esteve no Brasil, em 1991, o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba se apresentou no Memorial da América Latina, em São Paulo. Depois, perdeu a conta de quantas vezes voltou. E foram muitos encontros mundo afora com músicos brasileiros. Agora, ele está de volta, desta vez numa parceria com o bandolinista Hamilton de Holanda. Juntos se apresentam no palco do Teatro de Cultura Artística, no dia 7 de abril, em São Paulo.
O espetáculo Collab é parte de uma turnê internacional que continua nos próximos meses na Europa. É um encontro sem programa claramente definido, pois se trata de dois grandes improvisadores e expoentes de sua geração conhecidos justamente por essa característica. Será um diálogo entre bandolim e piano com um repertório que mistura jazz, música brasileira e afro-cubana.
"Penso que a primeira forma de estabelecer uma relação amorosa com o Brasil é através da música e eu tive essa sorte”, diz Rubalcaba, em entrevista por telefone ao NeoFeed, da Flórida, nos Estados Unidos, onde reside. No passado, o músico de 62 anos, fez turnês com Ivan Lins e João Bosco, cada um com seu grupo, e conta que, assim teve oportunidade de ir ao Rio, Florianópolis, Belo Horizonte e muitas outras cidades.
“Pude caminhar um pouco pelo país e também conheci o norte. O Brasil é praticamente um continente, tem muitos contrastes entre o norte e o sul e, mais pra dentro, entre a selva e a costa. Há muito o que ver e quando você se enamora da maneira de ser dos brasileiros, de sua forma de ser, da comida e da maneira como eles falam, você quer voltar sempre”, diz.
Já Holanda, de 50 anos, conversou com o NeoFeed de Buenos Aires, onde estava se apresentando, e explicou que o encontro é a realização de um desejo antigo, pois sempre foi um grande ouvinte dos discos do cubano e admirador de sua cultura musical. “Há muito tempo eu tinha vontade de tocar com o Gonzalo.
Ele é um músico respeitado no mundo inteiro por ter um jeito muito particular. Porque ele é do jazz, mas também da música cubana, da latina, e gosta muito de música brasileira".
Há três anos, Holanda conseguiu realizar esse sonho no Tuca, em São Paulo, quando tocaram juntos pela primeira vez. "Foi uma química maravilhosa. Viramos parceiros, amigos, e gravamos um disco [o Collab], que foi indicado para o Grammy 2025", lembra. "No ano passado, iniciamos uma turnê grande pela Europa e agora estamos muito azeitados. Então, este será meio que um show de consolidação de nossa parceria."
Os dois são artistas ultrapremiados, vencedores de vários Grammys. Holanda ganhou fama ao revolucionar o bandolim e criar um instrumento de dez cordas com o qual projetou o choro brasileiro no circuito global. Já dividiu o palco com o pianista americano Chick Corea, com o trompetista e compositor Wynton Marsalis e com o multi-instrumentista brasileiro Hermeto Pascoal, falecido no ano passado aos 89 anos.
Rubalcaba, indicado e vencedor do Grammy e do Grammy Latino em diferentes anos, foi descoberto por ninguém menos do que o trompetista Dizzy Gillespie (1917-1993), grande lenda do jazz americano. Nesse percurso já foi incluído pela imprensa especializada no rol dos grandes pianistas do mundo.
Conversa musical
Ao falar sobre o espetáculo, que terá o repertório do disco Collab, o bandolinista adianta que, além de composições deles dois, vão interpretar outras de João Bosco com Aldir Blanc e de Steve Wonder.
"O encontro tem muito a ver com nossas raízes – brasileiras e cubanas. Nossas músicas são negras na sua essência, no seu ponto de partida, tanto o choro como o jazz e a música afro cubana, o que cria um clima quando a gente toca. E faz com que esses músicos de 100 ou 200 anos atrás apareçam, de alguma maneira, pra gente, principalmente do ponto de vista rítmico", diz.
Rubalcalba situa a conversa musical Brasil-Cuba num terreno de admiração e calor mútuo: “Temos muitas coisas em comum do ponto de vista espiritual, religioso e musical pela presença negra e europeia em ambas as culturas”. Tudo isso se torna visível no convívio que acontece nas turnês, diz.
"Não se divide apenas o palco, mas são momentos que geram uma convivência mais íntima, fruto de viajar junto, ficar nos mesmos hotéis, dividir a mesma mesa. Há tempo para intercambiar ideias, para contar histórias.”
Com a quantidade de músicos brasileiros que admira, o pianista acha difícil eleger apenas um entre seus favoritos. Mas cita Cartola.
“Gostaria de mencionar a música As Rosas Não Falam, que tem algo a ver com um movimento cancionista cubano que é mais do que o bolero, mas um tipo de canção romântica, lenta, mais sofisticada”, diz Rubalcaba, que saiu de Cuba aos 26 anos, viveu seis anos na República Dominicana e hoje tem casa a uma hora de Miami.
Holanda mora no Rio, viaja o tempo todo, e nos próximos meses vai para China, Índia, Croácia e Estados Unidos. Onde ele gosta mais de tocar?
Ele ri: “No próximo show. Cada lugar tem uma pessoa bacana, um carinho, uma comida. Quando chego numa cidade gosto de dar uma volta, de sentir o frio ou o calor. Ou seja: o show de hoje é o melhor e o de amanhã vai ser melhor ainda”.