Nova York - O estúdio da Nasdaq, na 42nd Street, em Nova York, ficou pequeno para a quantidade de pessoas que estavam ali para acompanhar a primeira abertura de capital de uma empresa brasileira após um hiato de 5 anos. No púlpito, Joesley, Wesley e José Antônio Batista, da J&F; Anderson Chamon, fundador do PicPay, e Eduardo Chedid, o CEO da companhia, celebraram e tocaram a campainha iniciando as negociações do papel sob o ticker PICS e um valuation de US$ 2,6 bilhões.
Com uma demanda quase 13 vezes superior ao book, o PicPay exerceu o hot issue e, no total, levantou US$ 490 milhões, 20% das ações classe A da companhia que largaram com valor de tela de US$ 19 cada. O IPO foi ancorado pela Bicycle, de Marcelo Claure, que se comprometeu a investir US$ 75 milhões e, com ele, vieram fundos como BlackRock, GIC, Fidelity, Columbia, entre outros gigantes para o cap table do PicPay.
A J&F, do irmãos Batista, controladores da companhia, por sua vez, ficou com 100% das ações de Classe B, as que dão direito a dez votos por ação, e 71% das ações de Classe A.
Com isso, a holding da família Batista mantém o controle da empresa com 98% dos votos. “Listar na Nasdaq não é a linha de chegada, é um novo capítulo na história do PicPay”, disse Eduardo Chedid durante a cerimônia.
O IPO do PicPay abre uma nova janela para empresas brasileiras, que, nos últimos anos, não encontraram oportunidade de abrir capital na bolsa. O próprio PicPay passou por isso. A companhia tentou, em 2021, e teve de recalcular o trajeto para que hoje conseguisse tocar o sino na Nasdaq. Na época, a fintech queimava muito caixa – R$ 1,9 bilhão só naquele ano.
Chedid, o comandante da empresa, viu que era preciso virar a chave. Os investidores não queriam mais saber de companhias que só olhavam para crescimento da base sem cuidar da última linha do balanço. Foi aí que o PicPay revisou sua operação e mudou o foco do crescimento acelerado para o crescimento sustentável. O primeiro lucro viria no último trimestre de 2022. Na época, Chedid avisou que essa seria a toada da companhia dali para frente.
“Durante 2021, revisamos isso. Precisávamos do crescimento da base e do aumento de receita”, disse Chedid, ao NeoFeed, na ocasião. E prosseguiu. “Em novembro de 2021, o desafio foi também olhar para Ebitda e lucro líquido. Não adianta só aumentar a receita e queimar caixa. O PicPay tinha que ficar sustentável”, afirmou.
A julgar pelos números, conseguiu. Nos três primeiros trimestres de 2025, os dados mais recentes disponíveis, o PicPay registrou um lucro líquido de R$ 314 milhões, alta de 82% em base anual, e uma receita de R$ 7,2 bilhões, num crescimento de 92%.
O custo de servir alcançou R$ 17,80 por cliente enquanto o Average Revenue Per Active Client (Arpac) alcançou R$ 65 por trimestre, o que significa 3,7 vezes. No caso de clientes mais maduros, o Arpac chega a bater R$ 145. O objetivo da empresa é fazer com que o Arpac alcance 5 vezes o custo de servir para toda a sua base.
O retorno sobre patrimônio líquido (ROE) nos últimos 12 meses até o final de setembro alcançou 17,4%, acima dos 14,2% registrados em 2024. A meta, entretanto, é fazer o ROE chegar a 30% até o fim de 2027. Para isso, além de aumentar a eficiência de servir, o banco digital precisará fazer o share of wallet dos clientes aumentar. Ou seja, fazer com que um cliente use cada vez mais os seus mais variados serviços. Base para isso, o PicPay tem de sobra.
A companhia conta com 65,6 milhões de contas abertas e 42 milhões de clientes ativos trimestrais até setembro de 2025, altas de 11,7% e 12,2% ante o mesmo período do ano passado, respectivamente. Os depósitos somam R$ 26,7 bilhões, crescimento de 61% em 12 meses. E o TPV (Volume Total de Pagamentos) atingiu R$ 392 bilhões nos nove primeiros meses de 2025, avanço de 32%.
O que antes era uma carteira digital, hoje é um ecossistema robusto que conta com licença bancária e os mais variados serviços financeiros. Nos últimos anos, a companhia foi entrando em segmentos em que atuava por meio de terceiros com o seu marketplace, mas enxergou que precisava, ela mesma, atuar neles diretamente. Cartão de crédito, crédito consignado, empréstimo pessoal e seguros entraram no cardápio dos clientes pessoa física.
Paralelo a isso, a companhia passou a dar mais atenção ao cliente PJ, focando nos pequenos e médios com maquininhas de pagamento e crédito para capital de giro. O PicPay Shop, o marketplace da companhia com 300 lojas, também entra nessa vertical. Afinal, muitos dos clientes PJs podem se conectar à plataforma. De janeiro a setembro de 2025, o segmento de empresas gerou uma receita de R$ 272,5 milhões – o que revela que ainda há um espaço enorme para crescer.
Plano de negócio
O dinheiro do IPO será usado para dar esse fôlego para a companhia. O NeoFeed ouviu investidores que acompanharam os roadshows dos executivos do PicPay. Nas últimas três semanas, eles estiveram com mais de 200 fundos apresentando o plano de negócio para o dinheiro do IPO, 100% primário. E o que ouviram é que a empresa vai focar em alguns pilares como crédito, seguros e M&As nas áreas em que ainda atua apenas com parceiros.
No crédito, por exemplo, a meta é fazer o share of wallet dos clientes, que hoje é de 6%, subir para 12% em um período de três a cinco anos. Hoje, 40% do crédito oferecido pelo PicPay é colateral, ou seja, com garantia. O restante é cartão de crédito e crédito pessoal. Uma das apostas do PicPay será no consignado privado. Nos últimos três meses, por exemplo, a empresa originou cerca de R$ 500 milhões por mês.
Além dessa vertical, a parte de seguros é estratégica para o crescimento. Atualmente, o PicPay conta com cerca de oito milhões de apólices ativas. E, até hoje, atuava apenas da distribuição de parceiros conectados, como a seguradora Kovr, que era controlada pelo Banco Master.
A fintech anunciou a compra da companhia de seguros por R$ 600 milhões e agora aguarda o sinal verde do Cade e da Susep. Parte do dinheiro da aquisição, inclusive, virá do IPO. O restante será pago com ações do PicPay.
Aí é que entra outra vantagem de ter aberto o capital. Agora, para futuros M&As, a empresa tem o preço de tela, o que torna mais fácil o uso de equity em transações. E isso está no pipeline do banco digital – principalmente nas áreas onde o PicPay não atua diretamente.
Em 2021, quando o PicPay tentou abrir o capital pela primeira vez, na época em que os valuations estavam inflados pela abundância de dinheiro, a empresa almejava alcançar US$ 20 bilhões em valor de mercado. “Agora foi mais pé no chão”, diz um gestor que conhece a companhia. “E isso é melhor, larga com um potencial enorme de valorização”, diz ele.
Outro gestor com o qual NeoFeed conversou diz que o IPO já significa uma conquista para o mercado brasileiro no atual momento da indústria, sobretudo por conta dos escândalos envolvendo o banco Master. “Mostra que não houve contaminação de imagem de outros players do setor.”
A Nasdaq foi escolhida pelo PicPay, principalmente, pelo banco ser digital e porque a tese de growth é mais compreendida pelos investidores americanos. Um player do mercado disse ao NeoFeed que existem muitos fundos de growth nos EUA que dificilmente fariam investimento na companhia se ela estivesse na B3. Não à toa, Inter e Nubank têm suas ações negociadas lá.
Por estar na bolsa eletrônica americana, a empresa entra na mira de fundos dedicados a América Latina e Emerging Markets, os grandes fundos brasileiros que fazem investimentos diretos no mercado americano e os fundos focados em tech e growth. Na mira. Agora, começa o desafio de dar liquidez para o papel e se preparar para as cobranças do mercado a cada três meses.