Cidade corporativa criada pela SpaceX na costa do Texas, Starbase tornou-se em poucos anos um dos símbolos mais visíveis da transformação acelerada do sul dos Estados Unidos com os projetos grandiosos de Elon Musk - o homem mais rico do mundo, que pretende levar os foguetes da empresa aeroespacial para colonizar Marte.
Desde 2021, quando Musk postou um chamado no então Twitter incentivando seus apoiadores a se mudarem para Starbase, a localidade acelerou sua transformação de uma cidade corporativa para um tipo diferente de empresa, que prometia uma revolução na inteligência artificial e nas viagens interplanetárias.
Fundada oficialmente no ano passado, já com cerca de 500 moradores, quase todos funcionários da SpaceX, Starbase rapidamente se consolidou como polo tecnológico e um destino para jovens interessados em engenharia aeroespacial, com previsão de sua população ultrapassar os 1.000 moradores até dezembro.
A expansão coincide com o fortalecimento da agenda industrial e militarizada da era Trump, que transformou a localidade – situada a 1,5 quilômetro da fronteira com o México - em palco de grandes projetos energéticos e de infraestrutura.
À primeira vista, Starbase se assemelha a outras pequenas cidades do Texas. Tem escola, centro médico, centro recreativo e até restaurante de sushi. A diferença é que, na localidade, quase todos os espaços comuns são propriedade privada.
A SpaceX é proprietária de quase todos os imóveis dentro dos limites da cidade e está construindo centenas de casas geminadas e apartamentos – todas para aluguel, disponíveis apenas para funcionários da empresa aeroespacial. Funcionáros de empresas terceirizadas não são bem-vindos, precisando buscar moradia fora dos limites do município.
Dono de uma fortuna de US$ 1,1 trilhão, Musk começou a idealizar sua "Musklândia" em 2011, quando procurava um local à beira-mar para uma nova instalação de lançamento da SpaceX, criada em 2002. Boca Chica, praia do Golfo do México a 40 km de Brownsville - cidade de 200 mil habitantes de maioria hispânica - atendia aos requisitos.
Nos anos seguintes, Musk comprou as propriedades de moradores antigos e centenas de hectares de terra não urbanizada nos arredores de Boca Chica, que recebeu uma revitalização multimilionária. Suas ruas degradadas foram ajardinadas, as casas de fazenda dilapidadas foram remodeladas em um elegante preto e branco da SpaceX e carregadores para veículos elétricos foram instalados para as Tesla Cybertrucks que agora circulam pelas ruas de Starbase.
Ao mesmo tempo, Musk contribuiu com milhões de dólares para comitês de ação política (PACs) que apoiam candidatos conservadores para o Legislativo e o Judiciário do Texas. Ele enviou uma dúzia de lobistas ao Capitólio estadual e cultivou uma relação próxima com o governador do Texas, Greg Abbott.
Uma nova lei do Texas torna a interferência nas operações da Starbase passível de pena de prisão. Outra permite que a empresa feche a praia e a rodovia de acesso à cidade a critério do prefeito. Uma terceira protege a SpaceX, e por extensão a Starbase, de processos judiciais movidos por moradores vizinhos devido a incômodos causados por seus foguetes.
As leis são tão protetoras da Starbase que críticos temem que elas possam ser usadas para criminalizar quaisquer protestos nas proximidades.
Governo privado
Musk - que atua como presidente do conselho, diretor executivo, engenheiro-chefe e diretor de tecnologia da SpaceX - não ocupa nenhum cargo eletivo em Starbase. Nem precisa. Sua "Musklândia" é administrada por uma comissão municipal chefiada por um prefeito eleito para um mandato de um ano, em maio de 2025.
Em suas reuniões mensais, o prefeito e dois comissários eleitos, que fazem o papel de vereadores – todos funcionários da SpaceX - tratam de assuntos municipais comuns, como votar para aprovar leis e iniciar o processo de contratação de um chefe de polícia.
A cidade vive um ritmo frenético de obras. Caminhões e Cybertrucks circulam pela estrada ampliada para quatro faixas entre Brownsville e Starbase, enquanto operários levantam o Gigabay, futura linha de montagem de foguetes. As torres de lançamento de 120 metros reforçam a sensação de que a fronteira texana se tornou laboratório de ambições interplanetárias.
Outras empresas estão de olho no crescimento da região. Próximo a Starbase, é possível avistar no horizonte um emaranhado de cerca de 20 guindastes construindo o projeto Rio Grande LNG da NextDecade.
A usina produzirá 30 milhões de toneladas de gás natural liquefeito (GNL) por ano, contribuindo para cumprir mais uma missão da era Trump: exportar as "moléculas da liberdade" de energia. Fabricantes de armas e outras empresas de tecnologia estão de olho na região.
A Saronic Technologies, empreiteira de defesa sediada em Austin, espera construir um estaleiro de US$ 3,2 bilhões. Incorporadoras propuseram diversos projetos de data centers.
A imprensa americana cita semelhanças de Starbase com as autocráticas cidades empresariais dos séculos XIX e início do XX. Assim como Musk, os magnatas industriais daquela época construíram seus próprios feudos privados, não apenas para consolidar o controle sobre os trabalhadores, mas também para concretizar sua visão de uma sociedade ideal.
Talvez a mais grandiosa cidade-empresa de todas tenha sido Fordlândia, a extensa cidade que Henry Ford construiu na floresta amazônica brasileira para o cultivo de seringueiras. Fordlândia era a utopia pessoal de Ford, uma expressão de suas visões sociais, suas predileções pessoais e até mesmo seu vegetarianismo.
Inaugurada em 1928, a Fordlândia terminou como um dos maiores fracassos empresariais da história dos Estados Unidos na América Latina. O projeto foi oficialmente abandonado em 1934, após anos de conflitos, doenças, revoltas trabalhistas e resultados econômicos desastrosos, com prejuízos estimado em US$ 500 milhões, em valores atuais. A Ford vendeu a área ao governo brasileiro em 1945 por uma fração mínima do que havia investido.
Hoje, as realidades mais sombrias da Starbase são sussurradas. Os índices de acidentes no local superam em muito a média da indústria espacial, segundo uma reportagem da Reuters de 2024. Na localidade, jornadas de trabalho de 12 horas são comuns.
Um corretor de imóveis citado pelo jornal The New York Times contou que uma das principais motivações dos funcionários da SpaceX para se mudarem para a Starbase era passar o pouco tempo livre que tinham com suas famílias, em vez de se deslocarem para o trabalho. Mas um de seus clientes precisou ser hospitalizado por consumir energéticos em excesso, o que o impedia de se manter alerta após 38 dias seguidos de trabalho.
Musk não só pretende consolidar Starbase como criar outras cidades-porto espacial, graças à enorme injeção de capital com a abertura de capital recente da SpaceX. Em 12 de maio, ele anunciou nas redes sociais que “a SpaceX está considerando diversas localizações, tanto nacionais quanto internacionais, para construir os espaçoportos mais avançados do mundo!”.
Seu anúncio veio logo após relatos de que uma grande área de terra no litoral da Louisiana pode ter sido adquirida por uma empresa aeroespacial anônima, amplamente especulada como sendo a SpaceX. De pronto, legisladores da Louisiana acabaram de aprovar um pacote semelhante de incentivos e isenções fiscais para o setor aeroespacial, numa tentativa de conquistar Musk.
Entre entusiasmo e inquietação, a Starbase se tornou uma nova Fordlândia — agora movida a foguetes, trilhões de dólares e ambições interplanetárias — e um laboratório de como poder econômico, influência política e colonização tecnológica podem redefinir o futuro da fronteira sul do Texas no século 21.