Na direção exatamente oposta do que se tornou habitual nos últimos anos, a Natura viu suas ações dispararem na B3 na manhã desta terça-feira, 17 de março, horas depois de divulgar seus resultados do quarto trimestre e do ano consolidado de 2025.

Os papéis abriram o pregão de hoje subindo quase 10%, liderando os ganhos do Ibovespa. E, por volta das 13h20, registravam alta de 8,56%, cotados a R$ 9,37, avaliando a empresa em R$ 12,8 bilhões. No ano, as ações acumulam uma valorização de 25,7%.

Entretanto, mais do que o balanço, que trouxe números mistos, o que parece ter agradado o mercado foi a percepção de que a Natura está finalmente deixando para trás um ciclo bastante turbulento. Isso não significa, porém, que os esforços para recuperar a confiança dos investidores estão concluídos.

“Falta consistência. Falta nós mostrarmos consistentemente expansão de receita, rentabilidade e caixa, o que, ao longo dos últimos anos, ficava comprometido por uma série de eventos não recorrentes”, disse João Paulo Ferreira, CEO da Natura, em conversa com jornalistas.

Os eventos não recorrentes citados por Ferreira têm origem em uma ampla reestruturação iniciada em meados de 2022, quando a Natura decidiu colocar um ponto final em sua aspiração de se tornar uma plataforma global de cosméticos.

A empresa passou a vender os ativos adquiridos para viabilizar essa ambição, o que teve início em 2023, com a Aesop e a The Body Shop. Em 2024, o grupo passou a avaliar opções para as operações da Avon, comprada em 2019, por US$ 2 bilhões e maior símbolo dessa estratégia, fora da América Latina.

Esse pacote envolveu, primeiro, a venda das operações na América Central, em setembro de 2025. O acordo mais aguardado, no entanto, com os ativos da marca na Europa, Ásia e África, concluída em janeiro desse ano. E com o último capítulo dessa trama, a venda da Avon Rússia, em fevereiro.

Em paralelo, a Natura também concluiu, no fim de 2025, o longo, caro e complexo processo de integração das operações da Natura e da Avon na América Latina, ao finalizar esses esforços no México e na Argentina, os dois últimos países que faltavam nesse mapa.

“Agora, estamos com a operação e o balanço completamente limpos”, prosseguiu o executivo. “Então, tenho bastante confiança que, daqui para frente, teremos muita consistência e o mercado vai nos considerar.”

Capítulo mais recente nesse roteiro, o balanço divulgado na noite da segunda-feira, 16 de março, trouxe ainda parte dos impactos desse contexto. E, ao mesmo tempo, alguns indicativos do que esperar pela frente.

Levando-se em conta os negócios resultantes dessa estratégia de simplificação – as marcas Natura e Avon na América Latina, a empresa encerrou o quarto trimestre de 2025 com um lucro líquido de R$ 186 milhões e reverteu o prejuízo de R$ 277 milhões registrado no mesmo intervalo de 2024.

A companhia destacou que a última linha do balanço foi impactada por uma provisão integral não recorrente sem efeito caixa de R$ 434 milhões, relacionada aos recebíveis na venda da The Body Shop. Excluindo esse fator, o lucro líquido das operações continuadas teria sido de R$ 620 milhões.

No que diz respeito às operações continuadas no consolidado do ano, o lucro líquido foi de R$ 463 milhões, contra um prejuízo líquido de R$ 644 milhões reportado em 2024. O Ebitda ajustado trimestral cresceu 57,2%, para R$ 978 milhões. E, o anual, 9,5%, para R$ 3,1 bilhões.

O grupo fechou o ano com uma dívida líquida de R$ 3,47 bilhões, uma redução de R$ 567 milhões em relação ao terceiro trimestre. A alavancagem ficou em 1,57 vez, uma melhora de 0,96 vez na mesma base de comparação. Excluindo a provisão da venda da The Body Shop, o índice seria de 1,31 vez.

“A operação na América Latina teve consistência de expansão de rentabilidade. Não no seu potencial máximo, mas teve consistência”, disse Silvia Vilas Boas, CFO da Natura, repetindo o termo que foi uma das tônicas da conversa. “E, a partir de agora, sem esses pesos adicionais, vamos destravar ainda mais valor.”

Queda na receita e outros desafios

Em outra ponta, menos positiva, a receita líquida trimestral do grupo recuou 12,1%, para R$ 6,1 bilhões, o que a empresa atribuiu a fatores como a desaceleração do consumo no Brasil e as instabilidades relacionadas à integração na Argentina. No ano, o indicador teve queda de 5%, para R$ 22,2 bilhões.

No detalhe, houve quedas também em cada mercado que compõe agora a operação. No Brasil, a receita trimestral recuou 4,8%, para R$ 3,7 bilhões. Já na divisão Hispana, que compreende os demais países da região, a retração nesse indicador foi de 21,5%, para R$ 2,4 bilhões.

“No Brasil, tivemos alguma dificuldade de receita em função de uma rede de consultoras menos ativa e um pouco menor, além do impacto do consumo no Nordeste, nosso mercado regional mais importante”, disse Ferreira.

Ele ressaltou, porém, que a empresa já implementou algumas medidas para retomar o crescimento dessas operações. Entre elas, a criação de um novo conjunto de incentivos para a força de vendas e o fortalecimento da grade de lançamento para 2026, a partir desse segundo trimestre.

Essa reação passa também pelo relançamento da marca Avon, que acontece nesse mês de março, no Brasil e no México. O plano é posicionar a marca junto a clientes mais jovens, com uma pegada bastante associada a redes sociais e à tecnologia.

“Isso implica em muito mais agilidade em produtos e na forma de se comunicar”, disse Ferreira. “E, mesmo um pouco mais premium do que é hoje, a marca tem um preço mais acessível que as linhas da Natura e terá um papel estratégico de manter alta atividade em um cenário de restrição de renda.”

Nessa direção, a dupla destacou outros desafios, em um contexto que inclui tanto questões macroeconômicas em cada país – no caso do Brasil, um ano de Copa do Mundo, eleições e de juros ainda elevados - quanto componentes globais, o principal deles, a guerra entre Estados Unidos e Irã.

“A guerra pode trazer impactos, pois o custo dos nossos insumos que usam petróleo como base tendem a crescer”, disse Vilas Boas. “Em relação à América Latina, somos daquele grupo dos fortes que sabem operar na região. Então, vamos entrar de cabeça erguida e reagir com a maior velocidade possível.”

No que diz respeito à velocidade, os executivos destacaram o fato de a Natura estar implementando um novo modelo operacional, com menos camadas, eliminação de duplicidades de funções, alinhamento de incentivos e a tese de agilizar as tomadas de decisão.

“Até então, tínhamos que lidar com muita fragmentação de empresas, processos e sistemas. Havia, por exemplo, mais de 800 sistemas na região. Hoje, são menos de 300”, disse Ferreira. “O novo modelo é totalmente integrado e olha para fora. Todas as funções foram reagrupadas para atender aos clientes.”