Consolidada no mercado de maquininhas de pagamento no mercado brasileiro, com 22% de market share no segmento de adquirência, a Stone decidiu avançar em outras avenidas de crescimento. E o caminho escolhido passa por se tornar um banco.

O que a Stone quer, na prática, é evitar que o cliente faça a transação com a sua maquininha e depois transfira os recursos para outro banco. O objetivo é cuidar destes recursos, oferecendo contas de pagamento, cartões e linhas de crédito para as empresas.

“A oportunidade de crescimento está muito relacionada ao setor bancário e aos serviços financeiros. Com a onda de bancos digitais, a vida ficou melhor para o consumidor. Mas, para o empreendedor, não houve o mesmo progresso. É aí que enxergamos esta oportunidade”, diz Mateus Scherer, CEO da Stone, em entrevista ao NeoFeed.

As plataformas de serviços financeiros vêm sendo desenvolvidas pela companhia nos últimos três anos, com funcionalidades como folha de pagamento e investimentos. “Operar uma empresa de maquininha é diferente de um banco. Agora temos uma proposta de valor pronta”, afirma Scherer.

O plano da companhia fundada por André Street é conseguir se consolidar como uma espécie de meio-termo entre os principais bancos do país, que estão na primeira prateleira de serviços financeiros, e as plataformas bancárias digitais, que, segundo o CEO da Stone, ainda falham no atendimento às pequenas empresas.

Na prática, a Stone já opera hoje como um banco convencional, com todos os produtos disponíveis para pessoas jurídicas. Dos pouco mais de quatro milhões de clientes, a maioria já tem parte dos serviços bancários, além das máquinas de pagamento.

A companhia aguarda, agora, a aprovação final da licença bancária, para que possa se tornar, formalmente, um banco. O pedido formal foi feito ao Banco Central (BC) em novembro de 2025. A empresa solicitou a conversão do registro de financeira para o de instituição bancária. A companhia também pediu autorização para operar uma distribuidora de títulos e valores mobiliários (DTVM).

“Hoje, temos uma estrutura em que a entidade líder é uma instituição de pagamento, com uma sociedade de crédito, financiamento e investimento logo abaixo. Isso nos permite fazer empréstimos, emitir CDBs e ter contas de pagamento”, diz o CFO Diego Salgado.

Ainda que não haja prazo definido para a aprovação pelo BC, há uma perspectiva para que a autorização saia nos próximos meses. O registro para financeira da Stone saiu em 13 meses. Se o tempo for mesmo, a licença bancária sairia até dezembro deste ano.

A solicitação foi feita poucas semanas antes de mudança da regra estabelecida pelo Banco Central e pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que, em dezembro do ano passado, publicaram resolução que proíbe que instituições sem licenças bancárias possam usar as expressões “banco” ou “bank”. A Stone não entra nesta nova norma.

Com esta movimentação, a Stone segue o mesmo caminho do PagBank, que antes se chamava PagSeguro, que obteve a licença bancária em 2019, a partir da aquisição do Banco Brasileiro de Negócios (BBN). A empresa também tem como origem o mercado de maquininhas de pagamento.

Mesmo concorrendo com as principais instituições financeiras do país pelo cliente PJ, a Stone fará um caminho semelhante aos bancos digitais e não terá agências físicas. A estratégia é aproveitar os quatro mil representantes comerciais da empresa no Brasil para serem uma espécie de “gerentes” destes clientes.

Esta transformação da Stone foi motivada pela avaliação dos próprios clientes sobre os serviços de seus bancos. Pesquisa feita pela empresa com mil empreendedores mostrou que somente 28% se sentem reconhecidos pela sua instituição financeira.

“A maioria do microempreendedor não se sente representado pelo seu banco e não entende que tem um bom atendimento. A Stone é reconhecida pela maquininha e não pelo serviço bancário. O cliente não precisa usar a gente como uma passagem e sim no dia a dia de seu negócio”, afirma Sandro Bassili, COO da Stone.

Diego Salgado, CFO (à esquerda), e Sandro Bassili, COO da Stone

Um ponto chave para a consolidação foi o próprio avanço do processo de desinvestimento da companhia, a partir da venda de empresas que tinham menor relação com o core business da Stone.

Em julho do ano passado, a companhia vendeu a Linx para a Totvs por R$ 3,05 bilhões, o que representou um deságio de 54% sobre o preço de aquisição, em 2020, de R$ 6,7 bilhões.

“Começamos a sentir mais conforto com esta mudança a partir do ano passado e este ano. Também culmina com a própria venda da Linx. A gente simplifica bastante a empresa para focar 100% na estratégia de se posicionar como banco”, diz Scherer.

A mudança de foco traz para a Stone oportunidades de entrada em um mercado empreendedor muito além do pequeno varejista. Com esse movimento, a instituição pode avançar entre prestadores de serviços, como escritórios de advocacia.

“Se a gente pensar em uma pequena incorporadora do interior, um escritório e segmentos que são pequenos e médios empreendedores, mas não são varejistas e não precisam de maquininha de pagamento, a gente pode atender agora, com todos os serviços para essa empresa operar”, diz Scherer.

Este novo horizonte aberto com micro e pequenas empresas, além do varejo, dá uma pista do potencial que a unidade bancária da Stone pode ter. Hoje a empresa conta com uma base de R$ 11 bilhões em depósitos, vinda basicamente das contas.

Este montante rendeu para a Stone uma receita perto de R$ 1 bilhão. Para ter uma ideia deste volume, no ano passado a empresa alcançou lucro líquido ajustado de R$ 2,4 bilhões em 2025.

“O segmento banking já é uma realidade sem que a gente tenha se posicionado como um banco até aqui. Agora, teremos oportunidade de um crescimento mais expressivo. Temos crescido o dobro do ritmo do TPV [volume total de pagamentos] de cartões”, afirma o CEO.

Scherer assumiu o posto de CEO da Stone em janeiro deste ano, substituindo Pedro Zinner que, após três anos, migrou para a presidência do conselho de administração. Antes, ele era o CFO da companhia. No mesmo movimento, Salgado virou o CFO, e Bassili, que liderava a Linx, assumiu como COO.

Momento de pressão

Fato é que o novo momento desenhado pela Stone ocorre justamente em uma fase de pressão financeira da companhia. Em maio, o Citi rebaixou a recomendação de compra para neutra, e rebaixou preço-alvo de US$ 18 para US$ 11. O banco enxerga incertezas nos motores de receita e na qualidade dos ativos.

No primeiro trimestre de 2026, a Stone reportou receita de R$ 3,57 bilhões, alta de 6,5% sobre a mesma base do ano anterior. O lucro líquido cresceu 3,5% no período, com R$ 549,1 milhões. O TPV alcançou R$ 137,2 bilhões, com alta de 2,7%. A companhia divulga em 13 de agosto o balanço do segundo trimestre.

Em relatório divulgado na segunda-feira, 21 de julho, o BTG Pactual estima que a companhia reporte um lucro líquido de R$ 580 milhões, que representaria uma alta de 6% sobre o trimestre anterior, mas queda de 3% na comparação anual.

“Esse resultado ficaria cerca de 5% abaixo tanto da nossa estimativa quanto do consenso de mercado, refletindo principalmente take rates [comissões sobre transações] mais fracas e receitas abaixo das nossas expectativas”, diz o documento.

No acumulado de 2026, as ações da Stone na Nasdaq registram queda de 24,8%. Em 12 meses, a desvalorização é de 17,4%. O valor de mercado da Stone é de US$ 2,7 bilhões.