Art in Brackets (“Arte entre Parênteses”) é o nome da empresa de duas brasileiras que, há quatro anos, se empenham em levar artistas brasileiros e latino-americanos para o universo dos colecionadores nova-iorquinos. Fernanda Mazzuco, de 65 anos, nasceu em Santos, no litoral paulista, e mora há 21 anos em Nova York. Luciana Solano, de 54 anos, é carioca e se mudou para a cidade em 2012.

Pela primeira vez neste ano, elas estão com um espaço aberto ao público na Walker Street, no bairro de Tribeca, a meca atual das galerias. A exposição, que fica até o fim de maio, traz um coletivo de artistas e tem como tema a diáspora africana e as conexões transatlânticas.

Fernanda e Luciana se conheceram em Nova York e daí surgiu uma afinidade que levou à abertura da empresa em 2022. A Art in Brackets não agencia artistas. É uma consultoria e art advisor, especialidade conhecida como a dos “curadores de parede”. Elas trabalham em parceria com várias galerias e têm como função primordial conectar colecionadores com o mercado e auxiliar na compra de obras, seja por deleite ou investimento.

Esta exposição funciona como um gabinete de arte organizado de forma a contar uma história e criar interrelações entre as obras expostas. Neste caso é uma mostra intimista que reúne formas de expressão variadas.

“Juntamos telas, esculturas, design, fotografia e tecidos antigos da costa da África Ocidental, que teve essa grande migração e esse movimento transatlântico para o Brasil e os Estados Unidos”, diz Fernanda, em conversa com o NeoFeed.

Entre as obras expostas é possível comprar, por US$ 3,8 mil, uma monotipia de Santídio Pereira, gravador e pintor contemporâneo do Piauí. O trabalho mais caro custa US$ 140 mil e é uma tapeçaria de Madalena dos Santos Reinbolt (1919-1977), artista baiana autodidata que, no Rio de Janeiro, trabalhou anos como cozinheira na casa da arquiteta e urbanista carioca Lota de Macedo Soares e da poeta americana Elizabeth Bishop.

“Essa obra da Madalena é difícil achar no mercado, porque quem tem não vende. Ela chegou a nós através da Galeria Estação e não quisemos abrir mão da oportunidade de trazê-la, pois seu nome já é conhecido por aqui, especialmente depois da exposição que aconteceu no ano passado no American Folk Art Museum”, conta Fernanda.

Aproveitar essa visibilidade é importante, já que o mercado para arte brasileira e latino-americana nos Estados Unidos tem crescido, segundo elas. “Desde o início da nossa empresa a gente percebe esse interesse, embora a presença do Brasil nesse mercado ainda seja minúscula”, diz Luciana.

“Mas a gente está percebendo muito mais interesse seja de museus ou de curadores indo para o Brasil com mais frequência, tentando conhecer artistas e galerias. Nova York é um pouco diferente de Miami, onde tem mais latinos e existem mais coleções de latino-americanos importantes”, complementa.

A tapeçaria de Madalena dos Santos Reinbolt é a obra mais cara: US$ 140 mil (Foto: João Liberato)

Cada vez mais valorizado no circuito internacional, o artista carioca Maxwell Alexandre está presente na mostra com um quadro da série "Novo Poder: passabilidade" (Foto: Divulgação)

Para a luminária de cinco metros, que mistura garrafas pet e fibras naturais, o designer espanhol Alvaro Catálan de Ocón se inspirou nas habitações de Gana (Foto: Divulgação)

A exposição da Art in Brackets apresenta uma estrutura curatorial que explora o intercâmbio artístico transatlântico entre a África e o Brasil (Foto: Vicente de Paulo)

Em sintonia com esse crescimento acontecem com mais frequência exposições em museus de artistas latino-americanos. O MoMA teve Lygia Clark, o Jewish Museum apresentou Burle Marx, Brazilian modernist, com pinturas, esculturas, maquetes, vitrais e joias assinados pelo paisagista. E até uma instituição menos conhecida no circuito turístico, o Museo del Barrio exibiu Mestre Didi: Spiritual Form, com obras fundamentais do escultor baiano, líder espiritual da cultura afro-brasileira.

Aliás, essa conversa afro-brasileira permeia a exposição da Art in Brackets. “Temos aqui artistas da Nigéria, do Burkina Faso, de Camarões, tecidos do Togo e de Gana. “Creio que isso contribui para que a arte seja vista de forma mais integrada e não como um pocket”, afirma Luciana. Também estão à venda livros da editora Familia Editions, criada por Maria Lago, que faz obras únicas com artistas brasileiros.

Logo na entrada do espaço, chama atenção uma luminária de cinco metros presa ao teto que mistura garrafas pet e fibras naturais, um projeto do designer espanhol Álvaro Catalán de Ocón, que se inspirou nas habitações de Gana (US$ 40 mil).

Outra peça importante é do artista carioca Maxwell Alexandre, que nasceu e cresceu na favela da Rocinha e cuja presença é cada vez mais significativa no circuito internacional. O quadro, que se vê ao fundo em destaque, pertence à série Novo Poder: passabilidade, custa US$ 70 mil e é feito em papel, marca do artista.

Quando a Art in Brackets começou, já fazia exposições desse tipo em Park Slope Historic District, no Brooklyn, mas elas eram restritas a convidados porque aconteciam na casa de Fernanda.

“Esse tipo de encontro fechado, no qual a gente convida um grupo de artistas para mostrar seu trabalho entre duas e três vezes por ano, é fundamental para atrair os colecionadores americanos, nossa maior clientela, mas a experiência aberta muda tudo”, dizem elas.

“Agora estamos em frente à Mendes Wood, ao lado da James Cohan e da David Zwirner, que são galerias importantes.”