Nova York - Há um ano, a jornalista nova-iorquina Jodi Kantor foi convidada por estudantes da Universidade de Columbia, em Manhattan, sua alma máter, para ser a oradora da cerimônia de formatura.
Repórter investigativa do New York Times desde 2003, em 2018 ela foi premiada com o Pulitzer Prize, ao lado da colega Megan Twohey, por ter destrinchado os abusos sexuais do magnata de Hollywood Harvey Weinstein — o que culminou no movimento mundial #MeToo e no livro Ela disse, transformado em filme quatro anos depois.
No domingo, 19 de abril, em uma palestra no Brooklyn, onde mora, Jodi contou ter bons motivos para declinar o convite dos formandos da Columbia: 2025 havia sido um ano turbulento na universidade, marcado por protestos contra os conflitos entre Israel e Gaza, trocas escandalosas de liderança e cortes de investimentos em pesquisa pelo governo americano.
No entanto, ela aceitou. Mas antes, quis saber dos alunos quais eram as suas perguntas. As respostas foram surpreendentes: o ambiente caótico em que eles estavam inseridos era a última das duas preocupações.
“Eles me escolheram por causa da minha carreira. E todos, independentemente de suas opiniões políticas, estavam unidos por uma ansiedade: em um momento tão incerto, como encontrar trabalho e iniciar a vida profissional?”
Como contou, a dúvida a marcou profundamente. “Amo perguntas boas e difíceis. E percebi que essa era uma questão geracional”, disse ela.
Dessas conversas, surgiu o livro How to Start — Discovering Your Life’s Work ("Como Começar — Descobrindo o Trabalho da Sua Vida"), lançado na quarta-feira, 22 de abril, nos Estados Unidos, ainda sem tradução para o português, mas disponível no Kindle.
“Ainda não sabemos o que a inteligência artificial fará com as vagas de principiantes. Mas já sabemos que o processo de procurar trabalho ficou frio, digital e solitário”, disse Jodi, lembrando que até as entrevistas de trabalho já são feitas por IA. Além de serem rejeitados centenas de vezes, os estudantes não conhecem nenhum ser humano no processo seletivo.
“Depois de ouvir tudo isso, fiz o discurso. E continuei escrevendo. Acordava às seis da manhã e passava horas no computador. Eu nem sabia se estava escrevendo um livro. Sou jornalista investigativa, não conselheira de carreira, mas tinha muito a dizer. Talvez porque passei anos cobrindo o mundo do trabalho. Talvez porque tenha uma filha de 20 anos. Talvez porque vejo jovens precisando de apoio”, lembrou.
Com apenas 98 páginas, de leitura rápida, o livro serve como um mentor para estes jovens, trazendo histórias reais que mostram como trajetórias de carreira não são lineares, sublinhando ainda a relevância das relações profissionais nas tomadas de decisão e a importância de se tornar mestre em uma habilidade da qual o mercado precisa.
Casada com o também jornalista e autor Ron Lieber, com quem tem duas filhas, ela conta na obra que Ron se tornou colunista de finanças pessoais no Wall Street Journal e, em seguida, no New York Times, por ter crescido em uma família de pais divorciados, em que dinheiro era motivo de briga. O jornalismo o ensinou a desvendar as forças por trás do mundo das finanças, habilidade que ele usa hoje para “proteger a carteira” dos leitores. Um exemplo claro de habilidade e demanda.
Jodi largou a faculdade de Direito por não se ver na profissão. Ela, então, conta a história de Arjav Ezequiel, dono do restaurante Birdie’s em Austin, no Texas. Ele e a esposa, Tracy, proporcionam um ambiente festivo e, ao mesmo tempo, oferecem benefícios generosos ao time. Duas vezes por ano, o casal fecha a porta do Birdie’s para todos que recarreguem a vida pessoal.
O começo dessa jornada não foi óbvio. Na época da faculdade, Arjav queria ingressar em Direito ou em Política Mas, como filho de imigrantes indianos, ele não tinha a documentação legal para empregos formais. Havia chegado aos Estados Unidos aos 12 anos, com visto de turista.
Esta realidade o levou a tornar-se garçom de um restaurante em Washington, D.C., servindo advogados e autoridades. Uma classe de profissionais à qual ele um dia sonhou pertencer. Ao longo dos anos, aceitou que seu aprendizado em serviço, as cartas de vinho e a exigência de uma clientela seletiva consolidaram sua profissão. Hoje, o Birdie’s tem selos do James Beard Award (o Oscar da gastronomia nos Estados Unidos), do Michelin de 2025 e do Prêmio de Excelência do Wine Spectator.
No livro, Jodi também oferece dicas precisas aos novatos. Entre elas, “saia da biblioteca”, porque as carreiras são feitas de estímulos. “Não deixe seus pais decidirem a sua profissão”, uma tendência que consultores de carreiras em faculdade têm visto crescer. E “observe o óbvio”: na época da universidade, Jodi era aquela que corrigia a gramática e o texto dos colegas, algo que lhe dava satisfação.
Por outro lado, o que os contratantes podem esperar de recém-formados imersos nas mídias sociais e, agora, na inteligência artificial? “É uma geração que cresceu com mais angústia, ansiedade, menor capacidade social e dificuldade em lidar com as emoções”, diz ao NeoFeed Silvina Spiegel, no Rio de Janeiro, conselheira da Federação Internacional de Coaching (ICF). Seus clientes são líderes de grandes empresas de diversos países da América Latina.
“Carreiras não são mais lineares. E, para isso, é importante que estes jovens saibam que eles vão precisar de outras pessoas”, diz ela. “As habilidades cruciais continuam sendo a comunicação, o relacionamento, o pensamento estratégico e a inteligência emocional. Quem desenvolver estas capacidades poderá se reinventar ao longo da vida, independentemente da tecnologia”, ensina Silvina.
O mundo do trabalho exige convivência, capacidade de lidar com rejeição, tolerância à frustração e saber escutar um feedback, reforça ela.
“O uso constante de IA piora este aspecto, pois as plataformas concordam com todas as suas ideias, em vez de confrontá-las. Isso agrava a ideia da “Geração de Cristal”, termo que se refere às gerações Z e Alpha, por não aguentarem críticas”, nota.
Para eles, Silvina diria: "Aprender a usar as ferramentas de IA ainda traz destaque, mas invista nas habilidades humanas, pois esse será o diferencial duradouro." Você precisa saber dirigir o carro, mas não pode esquecer como andar a pé.”