A Compass Gás e Energia, controlada pela Cosan, avançou na terça-feira, 28 de abril, em uma reestruturação societária que pavimenta o caminho para aquele que pode ser o primeiro IPO (oferta pública inicial de ações ) da B3 desde dezembro de 2021, com a abertura de capital do Nubank, que fez dupla listagem na B3 e na Bolsa de Nova York.
Em fato relevante, a companhia informou ter concluído a cisão parcial e desproporcional da Cosan Dez Participações, operação que transferiu para a própria Compass um bloco de 142,8 milhões de ações antes detidas pela holding. Com isso, a Cosan passa a deter diretamente cerca de 20% do capital da subsidiária, participação que antes era indireta.
A reorganização ocorre simultaneamente ao lançamento da oferta pública secundária de ações da Compass, confirmada pela empresa. A operação envolve inicialmente 89,3 milhões de ações ordinárias, pertencentes a Cosan, Atmos, Bradesco Vida e Previdência, Brasil Capital, Manaslu, Manzat Inversiones e Ricardo Ernesto Correa da Silva.
O volume pode aumentar com a inclusão de até 42,9 milhões de papéis adicionais e um lote suplementar de 13,3 milhões de ações, este último destinado a estabilização de preços sob coordenação do Bank of America.
Segundo o prospecto preliminar, a faixa indicativa de preço vai de R$ 28 a R$ 35, o que avalia a Compass entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões. Considerando o teto da faixa e a inclusão dos lotes extra e suplementar, a oferta pode chegar a R$ 5,097 bilhões.
Como a operação é integralmente secundária, nenhum recurso irá para o caixa da empresa — todo o montante será destinado aos acionistas vendedores. A Cosan, que poderá alienar até 15% do capital da Compass, pretende usar os recursos para reduzir seu endividamento.
A companhia também informou ter solicitado à B3 a migração para o segmento do Novo Mercado, padrão de maior governança corporativa da bolsa, em substituição ao segmento básico onde está listada. O encerramento do bookbuilding e a definição do preço por ação estão previstos para 7 de maio, com início das negociações marcado para o dia 11.
A oferta ocorre em um ambiente global volátil, marcado pela escalada do conflito no Oriente Médio, mas conta com ancoragem de fundos locais e estrangeiros, segundo o jornal Valor Econômico.
O Bradesco, sócio da Compass, teria fechado acordo para viabilizar a transação. A operação é coordenada por um consórcio de bancos, incluindo BTG Pactual (líder), Bank of America, Bradesco BBI, Citi, Itaú BBA, Santander, JPMorgan, XP, BNP Paribas e UBS BB.
A Compass nasceu como o braço de gás e energia da Cosan, conglomerado fundado por Rubens Ometto e tradicionalmente associado ao setor sucroenergético. A empresa consolidou ativos de distribuição de gás canalizado, infraestrutura e comercialização, tornando-se uma das principais apostas do grupo para diversificação além do etanol e da logística.
A expansão ganhou força com a aquisição da Comgás, que se tornou o principal ativo da Compass e ampliou sua presença no mercado paulista. Ao longo dos anos, a Cosan estruturou uma rede de subsidiárias e holdings para acomodar novos negócios, o que tornou sua estrutura societária complexa e frequentemente alvo de reorganizações internas.
A criação da Cosan Dez Participações foi parte desse processo, reunindo participações estratégicas, incluindo ações da própria Compass. Nos últimos anos, porém, o grupo enfrentou pressão financeira crescente. A combinação de juros altos, investimentos pesados em infraestrutura e volatilidade no mercado de commodities elevou o endividamento consolidado.
Primeiro aviso
O anúncio do IPO da Compass foi feito dois meses após a Cosan ter divulgado que estava avaliando a “realização de uma oferta pública inicial de distribuição de ações” de emissão da Compass. Na época, a empresa condicinou a efetiva realização do IPO de condições de mercado no Brasil e no exterior e de aprovações societárias.
O anúncio de fevereiro foi a segunda da tentativa do IPO da Compass, depois de ter chegado muito perto em 2020, quando a Cosan avançou com o processo de abertura de capital da Compass - na ocaisão, havia protocolado a oferta junto à Comissão de Valores Mobiliários e trabalhava com uma estreia no Novo Mercado.
A operação estava prevista para ser precificada em 28 de setembro de 2020 e ter início de negociação dois dias depois, em 30 de setembro, mas a companhia cancelou a oferta citando a deterioração das condições de mercado.
O possível IPO acontece em meio ao ajuste de capital e governança que a Cosan foi obrigada a fazer para reequilibrar a holding. Em setembro de 2025, a companhia anunciou um aumento de capital de R$ 10 bilhões, liderado por BTG e Perfin, com participação também da Aguassanta (family office ligado ao fundador) e um acordo de acionistas de longo prazo.
A capitalização teve como objetivo reduzir alavancagem e dar fôlego ao portfólio, num momento em que o mercado cobrava respostas sobre dívida e estrutura de capital.
Dessa forma, o IPO vira uma ferramenta potencial de reorganização financeira e pode abrir espaço para reciclagem de capital em uma holding que vem de uma capitalização pesada e ainda enfrenta um investidor mais exigente, com a entrada de novos sócios no bloco.