A Riachuelo pretende adotar uma medida radical caso o governo não volte atrás e recrie novamente a “taxa das blusinhas”, alíquota de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, que havia sido instituída em agosto de 2024.
“Se a gente chegar à conclusão que esta decisão de acabar com a taxa das blusinhas será mantida, vamos ter que começar a demitir pessoas. Não tem milagre”, diz André Farber, CEO da Riachuelo, em entrevista exclusiva ao NeoFeed.
A companhia tem hoje 450 lojas no Brasil e emprega cerca de 33 mil trabalhadores, o que a coloca entre as principais empregadoras do varejo no país. No primeiro trimestre, a receita líquida foi de R$ 2,3 bilhões, alta de 6,7% sobre o mesmo período do ano anterior.
As varejistas vinham alertando sobre os riscos à economia a partir do fim da cobrança, que começou a ganhar corpo nas últimas semanas em Brasília. Mas o setor foi pego de surpresa com a assinatura da medida provisória pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na noite de terça-feira, 12 de maio, que revogou a medida.
Cerca de 50 entidades chegaram a um divulgar recentemente um manifesto em que diziam que a possível revogação em risco um volume de investimentos de cerca de R$ 100 bilhões no Brasil.
Outra saída, segundo o executivo da Riachuelo, é usar a mesma “arma” dos concorrentes asiáticos, como Shein, Shopee, Temu e AliExpress e passar a usar o formato cross-border, comércio eletrônico fronteiriço, trazendo os produtos para o país diretamente do exterior, a um custo menor.
“Nada nos impede de fazer cross-border. Eu instalo uma empresa lá (na Ásia), começo a trazer e mandar no formato de pequenos pacotes, que pagam muito menos impostos. Nada está descartado”, afirma o CEO.
Para Farber, o argumento usado pelo governo federal para justificar a revogação da taxa, que seria de democratizar o acesso aos produtos e ampliar as opções de compras a preços menores, não se sustenta. Na avaliação dele, para esta tese funcionar, seria importante que houvesse equilíbrio tributário.
“Se o governo tem essa bandeira, eu topo. Mas então ele deveria baixar os nossos impostos. Se quer dar mais acesso, tem que reduzir a carga tributária. Eu acho importante e topo essa conversa, mas desde que o governo faça isso com justiça”, afirma o executivo.
No dia seguinte à revogação da taxa das blusinhas, Riachuelo, Renner e C&A operaram em queda na B3. Segundo relatório do BTG Pactual, o fim da cobrança vai resultar no aumento da diferença de preços entre as principais varejistas nacionais e os sites estrangeiros.
No acumulado de 2026, as ações da Riachuelo na B3 registram queda de 11%. A companhia tem valor de mercado de R$ 4,2 bilhões.
Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista com o CEO da Riachuelo:
Qual sua avaliação sobre a decisão do governo em acabar com a taxa das blusinhas por meio de uma medida provisória?
Foi muito ruim. Uma medida tomada totalmente sem diálogo. Nós não fomos ouvidos. Uma decisão arbitrária do governo. Com a Remessa Conforme [taxa das blusinhas], que eu chamo de incentivo chinês, as empresas já operavam no Brasil pagando mais impostos do que as plataformas que trazem via cross-border. Um casaco da Riachuelo, por exemplo, que custa R$ 100, no fim tem um impacto de 80% a 90% de imposto, incluindo 35% de taxa de importação, mais Pis/Cofins, que já leva para R$ 150, e mais o ICMS do estado, uma média de 20%. A gente paga isso porque traz via contêiner. Por isso que é desigual.
E as plataformas pagam quanto?
Antes, eles não pagavam nada. Com a taxa das blusinhas, tiveram que pagar 20% de taxa de importação, e o ICMS, que é o mesmo para todo mundo. Quando cai esta taxa, os 20% viram zero. E nós continuamos pagando o total de 80% a 90%. Estamos vivendo uma situação maluca. Existia uma assimetria tributária, que era de 40%, e agora chegou a 60%. Já era muito assimétrico. E criaram uma narrativa que era a proteção da indústria nacional, o que não é verdadeira. Há sérias questões éticas por traz desta narrativa.
"Estamos vivendo uma situação maluca. Existia uma assimetria tributária, que era de 40%, e agora chegou a 60%"
Como você enxergou o argumento do governo, de que o fim da taxa traria maior democratização do consumo e dar mais opções de compras para o consumidor?
Se o governo tem essa bandeira, eu topo. Mas então ele deveria baixar os nossos impostos. Se quer dar mais acesso, tem que reduzir a carga tributária. Diminuir os impostos sobre os empregos, que são altíssimos, sobre a folha. Eu acho importante e topo essa conversa, mas desde que o governo faça isso com justiça. O que não é que razoável é dar para uma parte e não para outra. Da forma como foi colocado, este argumento é inválido, de baixa profundidade. Ele não se sustenta. Não dá para ser desigual. O governo não tem de olhar para todos da mesma forma? E por que só um lado é beneficiado?
Então, este argumento usado pelo governo acaba prejudicando a economia nacional?
Prejudica muito. O que eles estão fazendo é justamente o contrário, que é incentivar as indústrias que estão instaladas fora do Brasil. O sistema tributário brasileiro é muito complexo. Mas para fazer com que a indústria nacional fosse um pouco competitiva, ao longo dos anos, o governo criou a tarifa de importação. Isto deu um certo equilíbrio. E fez com que o preço e custo no Brasil fossem um pouco similares do que os do exterior. No momento em que o país derruba este imposto, é criado um problema para quem importa via contêiner do exterior e para quem produz localmente. E isso afeta vários setores. Isso vai fazer com que ninguém mais produza aqui.
A decisão ter sido tomada em um contexto de pacote de bondades, envolvendo também o fim da escala 6x1 e o programa Desenrola, tem conexão com o período eleitoral?
Isso é tão claro como a água é H20.
"Nada nos impede de fazer cross-border. Eu instalo uma empresa lá (na Ásia), começo a trazer e mandar no formato de pequenos pacotes, que pagam muito menos impostos"
A Riachuelo, então, não foi consultada ou pelo menos comunicada sobre o fim da cobrança?
Não. Nem a Associação Brasileira de Varejo Têxtil (Abvtex), do qual fazemos parte do conselho consultivo, nem o Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV). Pelo que sei, nenhuma das outras grandes empresas também foi consultada.
E já dá para mensurar para a companhia o impacto da retirada da taxa das blusinhas?
A gente está indignado, porque isso é uma política pública muito ruim para o Brasil no curto, médio e longo prazos. Uma empresa como a Riachuelo está entre as que mais têm força para lutar contra isso. Somos grandes, temos uma distribuição física robusta, uma marca conhecida. Os principais prejudicados são as empresas pequenas. Temos uma estrutura bem montada. Mas isso não tira minha indignação.
Ainda assim, vai afetar a operação da Riachuelo?
Vai. Por ora, vamos tentar dialogar e reverter isso. Se a gente chegar à conclusão que esta decisão de acabar com a taxa das blusinhas será mantida, vamos ter que começar a demitir pessoas. Não tem milagre.
Há outras ações que estão sendo estudadas para minimizar este impacto?
Nada nos impede de fazer cross-border. Eu instalo uma empresa lá (na Ásia), começo a trazer e mandar no formato de pequenos pacotes, que pagam muito menos impostos. Mas no momento que eu fizer isso, eu desmobilizo as operações no Brasil. E isso vai gerar ainda mais demissões. Nada está descartado. Somos uma empresa brasileira, que faz 79 anos em 2026, e que tem um compromisso com o Brasil. Mas se ficar claro que a regra do jogo é essa, a gente vai precisar sobreviver.
A Riachuelo vai procurar o governo federal para apresentar os argumentos e tentar mudar esta decisão?
A gente está sempre aberto para conversas. O que me impressiona é que a gente não tenha sido chamado pelo governo, com o impacto econômico gigantesco que geramos. E também conversamos via associações. Da nossa parte, o caminho está aberto e estamos dispostos a conversar.