Havana - O que deveria aliviar a rotina dos cubanos em meio à escassez de combustível acabou se transformando em mais um símbolo da crise econômica do país. Desenvolvido pela empresa cubana de tecnologia Xetid e adotado pelo governo para organizar filas e serviços, o aplicativo Ticket passou a regular desde atendimentos bancários até o abastecimento de gasolina na ilha.

Na prática, porém, a plataforma digital adicionou novas camadas de espera e burocracia ao cotidiano da população. Para conseguir abastecer, motoristas passaram a depender de notificações enviadas pelo sistema, que define datas e horários para a compra de combustível, limitada a apenas 20 litros por pessoa por mês. Em muitos casos, segundo relatos de cubanos ouvidos pelo NeoFeed, o tempo de espera pode durar semanas ou até meses.

Criado inicialmente como uma plataforma de reservas para serviços diversos, o Ticket passou a ser utilizado pelo governo cubano como mecanismo para controlar a distribuição de combustíveis em meio à crise energética que atinge a ilha nos últimos anos.

Pelo aplicativo, os usuários escolhem postos, horários e entram em uma espécie de fila virtual para tentar abastecer. O sistema também é utilizado para agendamentos em bancos, teatros, cinemas e outros serviços públicos e privados.

A promessa era reduzir filas físicas e organizar a demanda. Mas, diante da baixa oferta de combustível, o aplicativo acabou se tornando apenas uma ferramenta digital de racionamento.

“O sistema te designa um dia, na semana ou no mês, para poder comprar uma quantidade limitada”, relata Héctor González*, empreendedor cubano do setor de turismo.

Proprietário de apartamentos alugados para turistas e responsável por serviços de transfer para aeroportos, Jorge Martínez* afirma que a escassez afeta diretamente a rotina de trabalho de motoristas e pequenos empreendedores privados, um dos poucos setores que cresceram na economia cubana nos últimos anos.

“Os choferes que precisam seguir trabalhando acabam comprando gasolina pelo preço que estiver naquele momento”, conta.

Sem conseguir abastecer regularmente pelos canais oficiais, muitos cubanos passaram a recorrer ao mercado informal de combustíveis, que se expandiu paralelamente ao sistema estatal.

De acordo com Martínez, o mercado paralelo funciona de forma descentralizada, baseado em redes de conhecidos que armazenam combustíveis, desviam gasolina de veículos ou revendem estoques adquiridos anteriormente.

“Não é uma máfia organizada. É um conhecendo o outro, e este a outro”, relata.

Nesse mercado informal, os preços dispararam. Motoristas chegaram a pagar entre 4 mil e 6 mil pesos cubanos por litro de gasolina, o equivalente a aproximadamente US$ 8 a US$ 12, segundo os relatos. O diesel, um pouco mais barato, vinha sendo negociado entre 2 mil e 3 mil pesos cubanos.

“É caro até para um país rico. Imagina para nós, que não temos salários decentes”, afirma.

Na prática, o app Ticket adicionou novas camadas de espera e burocracia ao cotidiano dos cubanos (Foto: Reprodução Ticket)

A crise de abastecimento ocorre em meio à dificuldade crescente de Cuba para importar combustíveis. O governo atribui parte do problema ao endurecimento das sanções econômicas dos Estados Unidos, às restrições financeiras e ao aumento dos custos internacionais de transporte e importação.

Nos últimos anos, a escassez de gasolina passou a afetar diretamente setores considerados estratégicos para a economia cubana, como turismo, transporte privado e pequenos negócios. Nas ruas de Havana, motoristas de carros clássicos americanos, que se tornaram símbolo da ilha e importante atração turística, também passaram a enfrentar dificuldades para manter os veículos circulando.

Jorge Martínez afirma que o cenário se agravou nos últimos meses. “Antes, pelo menos existia alguma esperança de conseguir pelo Ticket. Agora, muitas pessoas já nem contam mais com isso”, diz.

Abertura parcial

Em comunicado de 12 de maio, o Ministerio de Finanzas y Precios de Cuba afirmou que a pressão econômica e energética sobre a ilha provocou uma “drástica diminuição” dos suprimentos de combustível e anunciou mudanças profundas no modelo de comercialização do setor.

Três dias depois, o governo passou a permitir preços variáveis para combustíveis vendidos em dólar e abriu espaço para que múltiplos atores econômicos possam importar e comercializar gasolina no país. Na prática, Cuba abandonou o antigo modelo de preço único subsidiado e iniciou uma flexibilização parcial do monopólio estatal sobre o setor.

O novo sistema permite que empresas privadas ou semiprivadas importem combustível diretamente, com preços definidos de acordo com custos de frete, seguros, fornecedores e oscilações do mercado internacional.

A medida representa mais um movimento do governo cubano em direção a uma economia híbrida, em que estruturas estatais convivem com leves aberturas ao setor privado. Nos últimos anos, Havana passou a permitir a expansão de micro, pequenas e médias empresas, além da importação privada de alguns produtos e serviços.

Segundo o empreendedor, parte dessas empresas possui relações indiretas com integrantes do próprio governo cubano. “Seria como uma máscara”, afirma.

A mudança também sinaliza o enfraquecimento do próprio Ticket como ferramenta central de distribuição. Ou, como ele resume: “Se murió el Ticket”.

Mesmo com a flexibilização, o custo segue distante da realidade financeira da maior parte da população cubana. “A verdade é que também não temos economia para pagar quatro, cinco ou seis dólares. Mas ainda é melhor do que pagar dez ou doze”, diz.

Entre filas digitais, escassez crônica e preços dolarizados, abastecer um carro em Cuba deixou de ser apenas uma tarefa cotidiana. Tornou-se um retrato da transformação silenciosa da economia da ilha, cada vez mais marcada pela convivência entre controle estatal, mercado informal e abertura parcial ao setor privado.

*Os nomes dos entrevistados foram alterados a pedido deles, para evitar possíveis represálias do governo cubano.