A rede Giraffas decidiu sofisticar o seu tradicional “prato-feito”. A refeição, composta basicamente por arroz, feijão e carne, passa a ter um corte premium no cardápio, a picanha.
“Identificamos que havia essa demanda nos nossos restaurantes, principalmente para os consumidores que topavam pagar um pouco mais”, diz Carlos Guerra, fundador e CEO da rede Giraffas, em entrevista ao NeoFeed .
“Há uma questão aspiracional em torno da picanha, que não é imaginário do consumidor brasileiro. Se ele tiver condições, vai comprar”, complementou.
Para crescer o volume de vendas, a rede de fast food, que tem 400 unidades físicas no Brasil, ampliou a oferta de pratos com a carne. Antes, só existia uma opção. No fim do ano, a rede passou a oferecer um prato-feito mais barato, em forma de tiras, e uma linha premium, mais cara, a R$ 64. O prato que já existia ficou no meio. O volume de vendas quase triplicou.
Há um ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o brasileiro “voltaria a comer picanha”, como uma resposta à alta dos alimentos, principalmente da carne bovina. Mas o que se viu foi um aumento de 12% nos preços, entre 2024 e 2026, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Com o plano, a rede de Guerra tenta, de certa forma, "cumprir esta promessa".
O objetivo das Girafas é pular do volume de 20 toneladas de picanha para 30 toneladas por mês. E fazer com que somente este corte responda por 10% da receita da companhia. Há um ano e meio, esse percentual não chegava a 3%. Com isso, o plano é chegar ao faturamento de R$ 1,1 bilhão em 2026, o que vai significar um crescimento de 5% sobre 2025.
Além disso, a companhia está em fase de testes de um hambúrguer produzido totalmente com picanha, e que tem previsão de lançamento em outubro.
Para aumentar o volume e ampliar a receita, a companhia decidiu comprimir margens e ampliar a negociação com o fornecedor de carne bovina, um refrigerador de médio porte chamado Silva, que fica em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e que consegue atender à demanda da rede de pratos prontos.
"Com o preço mais alto da carne, preferimos ter como fornecedor um frigorífico menor, em vez das grandes companhias do setor, em que as Girafas passam a ser o maior cliente. Isso faz diferença na hora da negociação", afirma Guerra.
Ao todo, a rede de alimentação compra cerca de 120 toneladas por mês da carne da raça Angus, muito tradicional na região Sul. Isso significa que somente a picanha vai representar, neste ano, 25% do volume total de carne bovina da rede Giraffas.
Além da carne, a companhia também compra mensalmente 250 toneladas de frango, 40 toneladas de linguiça e 20 toneladas de bacon. Por ano, são seis mil toneladas de arroz e feijão. A rede vende 1,5 milhão de PFs por mês. Deste total, a empresa planeja que 150 mil pratos por mês recebam picanha.
O foco no tipo de corte muda uma característica da companhia, que sempre foi focado na diversidade de opções e nunca teve um prato “chamariz” até aqui. Agora, o empresário vê que, com o plano de crescer no volume de picanha, a tendência é que a rede ganhe um novo público, que ainda não era frequente nos restaurantes.
“A gente sentiu um aumento de quem tem uma renda menor e de quem ganha um pouco mais. Aquele com renda média ficou mais espremido. Nosso público hoje é de C+ até o A-. E os que têm uma renda maior passaram a enxergar o prato mais caro da picanha como uma boa opção de refeição”, afirma. Com isso, o bilhete médio das Girafas também cresceu. Hoje, ele ultrapassa R$ 50.
Guerra diz que, antes, chegou a pensar na possibilidade de trazer uma linha argentina de carne, com cortes como o chouriço e o ancho. Mas, na visão dele, o que levou em conta foi a percepção de que o corte propriamente dito era conhecido da população.
“Parte do nosso público teria dificuldade de entender o que é o ancho. O foco era ter algo que tinha conexão com o brasileiro, que gosta de arroz, feijão e carne. A picanha que todo mundo conhece e tem até uma relação emocional. Na verdade não é imaginário do consumidor”, explica o fundador das Giraffas.
Na avaliação de Guerra, outro fator que ajudou a ampliar o consumo da proteína foi justamente o aumento no volume de pessoas que passaram a usar algum tipo de caneta emagrecedora. Para este público, há recomendação médica para aumentar o consumo de carne.
“Há, de fato, uma mudança na indústria de alimentos. Mas as pessoas precisam seguir comendo carne, e de uma forma saudável, com salada. E isso a nossa rede pode oferecer. Claro que vai ter uma mudança de comportamento do consumidor, mas a gente está pronto para ter mais para este público, que procura menos carboidrato”, explica.
Neste sentido, além do avanço da picanha, a rede também terá, em outubro, uma linha fit, com pratos prontos redesenhados.
Além do plano de crescimento que envolve mais carne, a Rede Girafas também quer crescer no volume de vendas por canais digitais, que hoje representa apenas 10% da receita. Para isso, planeja um volume de investimentos de R$ 8,5 milhões em tecnologia.
Também não há pipeline de crescimento de mais de 30 restaurantes no Brasil, que representarão investimentos de R$ 50 milhões, por parte dos franqueados.
Hoje, uma loja de rua das Girafas precisa de um investimento de R$ 1,5 milhão. As unidades de compras custam cerca de R$ 1 milhão. O faturamento médio da rede é de cerca de R$ 250 mil. Os shoppings faturam perto de R$ 350 mil, e as unidades de rua, R$ 400 mil.
Das unidades no Brasil, 60% são em shoppings, 8% em rodoviárias e aeroportos, 7% em supermercados e 25% em lojas de rua.