Linköping - A parceria entre a Força Aérea Brasileira (FAB) e a Saab, indústria de defesa sueca, deve ir além do desenvolvimento conjunto dos caças Gripen.

Após a cerimônia de lançamento do Gripen F-39F biposto, em 2 de junho, num evento na cidade sueca de Linköping, o CEO da Saab, Micael Johansson, confirmou estar estudando com o ministro José Mucio, da Defesa, a assinatura de um memorando de entendimento visando  criar um centro de pesquisa próximo ao Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA), em São José dos Campos (SP).

"A parceria Saab-Brasil proporciona uma rara transferência de tecnologia de ponta a ponta, permitindo capacidades soberanas de projeto, desenvolvimento, produção, manutenção e testes de voo no Brasil", afirmou Johansson, em coletiva de imprensa após a cerimônia de apresentação do primeiro modelo biposto Gripen - o primeiro para dois pilotos desenvolvido pela parceria entre a Saab e a Embraer.

"Um modelo de produção com dois polos está sendo implementado, com expansão da capacidade tanto em Linköping quanto no Brasil para atender à crescente demanda global impulsionada por tensões geopolíticas", disse o CEO da Saab, respondendo a uma pergunta de um jornalista colombiano - o país vizinho encomendou 15 caças Gripen E.

A possibilidade de as duas empresas ampliarem a parceria já era conhecida, mas a expectativa de as duas empresas aumentarem a produção era voltada para a fábrica da Embraer em Gavião Peixoto (SP), onde o modelo Gripen E é produzido. Questionado por uma jornalista que havia conversado com Mucio sobre os planos de criar um centro de pesquisa em São José dos Campos, Johansson confirmou.

O NeoFeed apurou, no entanto, que os planos ainda não foram discutidos a fundo. Na coletiva, Johansson não confirmou se, com o fechamento do contrato de venda de 20 Gripen E/F para a Ucrânia, anunciado na semana passada, a Saab fará uma ampliação da fábrica de Gavião Peixoto.

Desenvolvido pela Saab em parceria com a Embraer, o novo modelo biposto foi produzido em Linköping e não traz avanços tecnológicos relevantes em relação ao Gripen E, cuja primeira unidade fabricada no Brasil foi entregue em março, em Gavião Peixoto (SP) - fruto do contrato da FAB com a Saab, que prevê 36 aeronaves (28 E e 8 F), com produção compartilhada entre Suécia e Brasil. Até agora, 11 caças foram entregues. O valor original foi de cerca de R$ 13 bilhões, sujeito a reajustes contratuais.

O roll out do Gripen F foi comandado por Johansson, num evento que contou com a participação, além do  ministro José Mucio,  do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Marcelo Damasceno. O modelo que fez uma demonstração aérea para convidados e autoridades no hangar da Saab no aeroporto local, porém, era um modelo D, também biposto - a versão F ainda precisa fazer testes antes de ser entregue. Depois, o novo modelo foi formalmente apresentado num show de luzes.

O Gripen F tem alcance de até 4.000 km com reabastecimento, pode carregar até 7 toneladas de armamentos e é considerado um dos caças mais modernos da atualidade. A grande mudança do Gripen F foi a adaptação para o modelo com dois assentos, que amplia o tipo de missão possível sem alterar a base tecnológica do modelo monoposto.

Além do segundo cockpit, que permite atuação em missões operacionais e na formação de pilotos, o Gripen F é cerca de 70 centímetros mais longo que o Gripen E. A fuselagem estendida acomoda o novo posto, enquanto a largura permanece a mesma, 8,6 metros, já que as asas não mudaram.

Embora compartilhem radar AESA, motor F414 e a mesma arquitetura de sensores, as duas versões diferem no modo de operação: o Gripen E foi projetado para um único piloto, enquanto o F distribui tarefas em cenários mais complexos.

O segundo tripulante não transforma o F em um avião de treinamento. Ele permite dividir funções como gerenciamento de sensores, coordenação de missão e controle de aeronaves não tripuladas, aumentando a eficiência em operações longas ou com grande volume de informações.

O uso de IA no Gripen F atua como um copiloto digital que reduz a carga de trabalho dos dois tripulantes e amplia a eficiência em missões complexas. Ela analisa sensores, radar e comunicações em tempo real, priorizando ameaças e sugerindo ações ao piloto e ao operador do sistema de armas. O modelo também facilita a adaptação de novos pilotos e a experimentação de formas de operação que envolvem a colaboração entre aeronaves tripuladas e drones.

A versão biposto mantém dez pontos externos para armamentos e a mesma capacidade de carga do Gripen E. Sua arquitetura facilita a integração de diferentes armas já usadas por outras forças aéreas e permite atualizações rápidas de software, algoritmos e hardware.

O Gripen F preserva ainda a capacidade de operar em pistas curtas, realizar missões de ataque, reconhecimento e defesa em uma única saída e atingir até 2,4 mil km/h, com autonomia de cerca de duas horas e meia.

O Gripen F apresentado em Linkoping

Mais relevante que o lançamento é a confirmação do avanço proporcionado pelo contrato firmado em 2013 entre o governo brasileiro e a Saab, que inclui transferência de tecnologia, treinamento de 350 engenheiros e participação de cerca de 60 empresas brasileiras.

O País é coprodutor do Gripen E/F e abriga a única linha de montagem final da Saab fora da Suécia. A Embraer participou ativamente do desenvolvimento do Gripen F, incluindo na fuselagem alongada, redistribuição de sistemas, cockpit duplo, certificação e testes, além da montagem final em Gavião Peixoto.

A AEL Sistemas fornece o Wide Area Display (WAD). Presente nos dois modelos, forma uma das tecnologias centrais do cockpit - uma tela panorâmica de alta resolução de 19 polegadas, sensível ao toque, que substitui painéis tradicionais e concentra praticamente toda a informação de missão em um único display.

A Akaer atuou na engenharia estrutural e tornou-se fornecedora global da Saab. A Atech desenvolveu sistemas de planejamento de missão, enquanto empresas como WEG e Eleb produzem componentes elétricos e hidráulicos.

O programa Gripen enfrentou atrasos. O contrato original previa a entrega de 36 caças Gripen E/F por US$ 4,5 bilhões - 28 Gripen E (monoposto) e 8 Gripen F (biposto). As entregas começariam em 2019 e terminariam em 2025. Só que, ao longo dos anos, o governo brasileiro não garantiu repasses estáveis e contínuos.

Com isso, o contrato já teve 12 aditivos, o custo subiu 13% - suficiente para a aquisição de seis caças extras, considerando o valor original do contrato firmado em 2013 - e o cronograma foi empurrado para 2032. Por trás do atraso de verbas está o cobertor curto do orçamento do Ministério de Defesa.

Do total de R$ 142,5 bilhões aprovados para a pasta em 2026, cerca de 85% do valor total é destinado ao pagamento de pessoal da ativa, inativos e pensionistas. Sobram cerca de R$ 15 bilhões para manutenção de tropas, operações e modernização de equipamentos

Em janeiro, os comandantes militares entregaram ao governo federal propostas de planejamento de longo prazo — variando de R$ 450 bilhões a R$ 800 bilhões — que projetaram as necessidades de defesa em camadas (incluindo defesa cibernética, espacial e antiaérea) para as próximas décadas.

O montante de R$ 800 bilhões ao longo de 15 anos visa equiparar o investimento brasileiro de defesa aos padrões internacionais, saltando do patamar atual de 1,1% para cerca de 2% do PIB. A crise na Venezuela e as ações militares envolvendo países vizinhos foram mencionadas como fatores que reforçam a necessidade de maior preparo e capacidade de resposta.

O Brasil registrou um aumento de 13% nos gastos militares em 2025 em relação ao ano anterior, alcançando US$ 23,9 bilhões (R$ 119,6 bilhões), segundo relatório do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz, de Estocolmo.

Ecossistema

Para Vinicius de Carvalho, do Departamento de Estudos de Guerra do King’s College, de Londres, e especialista nas áreas de defesa e segurança, para sustentar o crescimento, a indústria de defesa precisa superar a dependência de contratos esporádicos e investir em um ecossistema de inovação, ciência e tecnologia, seguindo o modelo do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).

“O primeiro passo para uma política de defesa é definir de forma realista quais são as ameaças e vulnerabilidades potenciais do País, evitando especulações; sem essa clareza, é impossível planejar adequadamente”, afirma.

Segundo ele, há um desalinhamento crônico entre os planejamentos ambiciosos das Forças Armadas e a realidade orçamentária, o que leva a cortes de escopo e compromete a eficácia dos investimentos.

Carvalho adverte que o Brasil confunde os conceitos de defesa – que são ameaças à soberania – e de segurança, que se refere à criminalidade. “Com isso, as Forças Armadas são frequentemente acionadas para tarefas de segurança, o que é um erro que compromete ambas as áreas, leva ao mau uso de recursos e ao preparo inadequado da tropa.”

A despeito dessa falha de planejamento, o especialista afirma que o programa Gripen preencheu uma lacuna crítica na defesa aérea do País, que possuía uma frota de caças obsoleta. No entanto, ele considera a parceria entre FAB e Saab como parte de um processo contínuo de amadurecimento e não o único catalisador da indústria de defesa nacional.

Ele cita outros contratos estratégicos, como o dos submarinos, com a Naval Group, e das fragatas, com a alemã Rheinmetall, que também foram fundamentais para modernizar a legislação de transferência de tecnologia e inserir o Brasil em cadeias globais.

Para Carvalho, o verdadeiro valor estratégico do acordo reside nos sistemas embarcados (software, comando e controle), e não apenas nas grandes plataformas, como porta-aviões.

“Esses contratos permitem ao Brasil evoluir de fornecedor de material para desenvolvedor de sistemas, um salto qualitativo significativo”, diz, citando o exemplo de sucesso nesse modelo com o Super Tucano (A-29/EMB 314) – avião turboélice de ataque leve e treinamento avançado, desenvolvido no Brasil pela Embraer e considerado um dos maiores sucessos da aviação militar brasileira, usado tanto pela FAB quanto por mais de 15 países.

“O Super Tucano é um produto eficiente, relativamente barato e tecnologicamente adequado para suas missões, sendo um sucesso de vendas global”, elogia Carvalho.

Outro produto citado por especialistas é o KC-390 Millennium, cargueiro militar multimissão também produzido pela Embraer, que ganhou destaque pela capacidade de reabastecer o Gripen E/F em voo. O preço unitário não é fixo, oscilando entre US$ 85 milhões e US$ 160 milhões. Esse valor depende da quantidade encomendada e do pacote de suporte, treinamento e peças de reposição.

A FAB possui 8 unidades entregues de um contrato total de 19 aeronaves. A Força Aérea Portuguesa (FAP) conta com 4 unidades recebidas, de uma encomenda de 6. As entregas estão em andamento para Hungria e República Tcheca. Países como Holanda, Áustria, Coreia do Sul e Suécia também já encomendaram o modelo.

O especialista militar Joakim Paasikivi, consultor das Forças Armadas da Suécia, vê possibilidade do KC-390 obter ainda mais mercado entre os países da OTAN.

“O Millennium é bastante adequado às condições e distâncias europeias, e acredito que há boas chances de novas encomendas no continente”, diz, lembrando que a Suécia decidiu adquirir o KC-390 Millennium para substituir seus antigos C-130 Hercules, juntando-se assim a diversas outras nações da aliança militar que o utilizam como principal aeronave para transporte tático e reabastecimento aéreo.

Paasikivi, porém, é mais pessimista sobre o papel do A-29 Super Tucano. “A Europa está se rearmando diante da Rússia como a principal ameaça, e o foco está tanto em drones quanto em sistemas de alta tecnologia, o que torna uma aeronave especializada em contrainsurgência inadequada”, assinala.

O jornalista viajou a convite da Saab