Mais de 100 dias após o início da guerra entre os Estados Unidos e o Irã, e em meio às expectativas frustradas diariamente por um acordo definitivo para pôr fim ao conflito, a aparente calma no mercado internacional de petróleo esconde uma realidade cada vez mais frágil.
A estabilidade dos preços, abaixo da cotação de US$ 100 por barril — que surpreendeu analistas e evitou um choque energético imediato, contrariando as previsões de US$ 200 por barril feitas em março, quando a guerra começou —, não se deve à normalidade da oferta, mas a uma combinação de medidas emergenciais que já começam a perder fôlego.
E é justamente esse esgotamento acelerado das reservas globais de barris de petróleo que cria o fator oculto por trás da pressa do presidente Donald Trump em fechar um acordo com o Irã.
A narrativa dominante nos Estados Unidos atribui a urgência de Trump à pressão eleitoral interna - combustíveis caros são tóxicos para qualquer governo em ano de disputa presidencial. Mas os números mostram que há algo mais profundo em jogo.
O mundo está consumindo suas reservas estratégicas em um ritmo sem precedentes, e a capacidade de continuar compensando a perda de 15 milhões de barris por dia — resultado direto do fechamento do Estreito de Ormuz — está chegando ao limite. O consumo global de petróleo gira em torno de 100 milhões de barris por dia.
“Com o bloqueio no Estreito de Ormuz e a redução das reservas, o mundo está ficando sem amortecedores”, diz Antoine Halff, ex-analista-chefe da AIE.
Por enquanto, os mercados só evitaram um salto explosivo no preço do barril porque encontraram maneiras de contornar a interrupção na região do Golfo Pérsico. A China, por exemplo, reduziu suas importações em cerca de 5 milhões de barris por dia em relação ao período pré-guerra, aliviando a demanda global.
Outros países, pressionados, também diminuíram o consumo, em especial na Ásia - com 15 países buscando empréstimos emergenciais para conter os efeitos da escassez de petróleo e gás natural e adotando medidas como o incentivo ao trabalho remoto e a redução da jornada de trabalho.
Mas o elemento decisivo foi o uso maciço das reservas estratégicas. Em março, os 32 países da Agência Internacional de Energia (AIE) anunciaram a maior liberação coordenada de estoques da história: 400 milhões de barris. Quase metade desse volume já foi entregue, a um ritmo recorde de 2,5 a 3 milhões de barris por dia.
Esse fluxo extraordinário funcionou como um amortecedor global. Só que ele está prestes a diminuir drasticamente. O banco Morgan Stanley estima que as liberações podem cair de 2,5 milhões de barris/dia em junho para apenas 0,7 milhão em julho. Se isso ocorrer, o mercado enfrentará um choque imediato — a menos que o Estreito de Ormuz seja reaberto.
Japão e EUA no limite
O Japão, que recebia 90% de seu petróleo do Oriente Médio antes da guerra, foi o país que mais pressionou pela liberação coordenada da AIE. O governo japonês anunciou que colocaria no mercado o equivalente a 50 dias de consumo, ou 90 milhões de barris. O ritmo inicial ultrapassou 1 milhão de barris por dia, antes de cair para 600 mil.
Mesmo assim, o Japão ainda mantém estoques públicos para mais de 120 dias, acima do mínimo exigido pela AIE. O país conseguiu substituir parte das importações via Ormuz por petróleo transportado por oleodutos e por compras de produtores fora do Golfo, sobretudo dos Estados Unidos.
Mas é justamente nos EUA que o quadro se torna mais crítico. A Reserva Estratégica de Petróleo americana (SPR) já entrou na guerra enfraquecida, após grandes retiradas em 2022 e 2023.
Agora, está prestes a atingir seu nível mais baixo desde 1983, segundo o jornal The New York Times, em meio a uma retirada de 172 milhões de barris, uma das maiores de sua história.
Isso deixará a reserva, um conjunto de cavernas de sal no Texas e na Louisiana, mais vazia do que esteve em quase meio século, logo após a crise do petróleo da década de 1970, quando estava sendo preenchida pela primeira vez.
O governo, preocupado com a velocidade do esvaziamento, passou a emprestar petróleo em vez de vender — exigindo devolução com um prêmio de 17% a 26% até 2029. Mesmo assim, 45 milhões de barris autorizados para liberação continuam sem interessados.
A situação é tão delicada que três das quatro rodadas de leilões ficaram parcialmente vazias. E, mesmo antes de entregar todo o volume prometido à AIE, os estoques americanos já recuaram ao patamar mais baixo desde a década de 1980.
Os estoques de gasolina e óleo combustível também estão perigosamente baixos para esta época do ano no Hemisfério Norte. Países altamente dependentes de importações — como Japão e Coreia do Sul — já registram quedas aceleradas. Nos EUA, regiões como a Costa Leste e a Califórnia são particularmente vulneráveis a aumentos bruscos de preços.
Ainda não há escassez generalizada, mas analistas concordam que o risco cresce a cada semana. E, sem uma solução diplomática, o mercado pode enfrentar um ponto de ruptura imprevisível.
“Existem vários pontos de estrangulamento, e é realmente difícil prever qual deles pode surgir primeiro”, diz Daniel Sternoff, pesquisador sênior do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia.
Para entender o porquê, basta observar o combustível de aviação. No início da guerra, muitos analistas e executivos temiam que alguns aeroportos na Europa, que compram muito combustível de aviação do Golfo Pérsico, pudessem não ter o suficiente para as decolagens. As refinarias, que transformam petróleo em combustíveis, responderam aos altos preços aumentando a produção de combustível de aviação e reduzindo a produção de gasolina.
Se o barril não disparou para além dos picos iniciais da guerra, isso se deve em grande parte à China. A redução de 5 milhões de barris por dia nas importações chinesas funcionou como uma espécie de “válvula de escape” global. Ao consumir menos, a China evitou que a demanda pressionasse ainda mais os preços.
Mas essa estratégia tem limites. A China pode reduzir compras, mas não pode substituir indefinidamente o petróleo que deixou de circular por Ormuz. E se decidir voltar a importar em níveis normais, o mercado global enfrentará um choque imediato.
Trump sob pressão
A pressão eleitoral existe, mas não é o fator determinante. O que realmente coloca Trump contra o relógio é a matemática simples das reservas globais.
Se o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz não for retomado rapidamente, as reservas estratégicas dos países ricos se esgotarão em ritmo acelerado; os EUA perderão sua última linha de defesa energética; o mercado global ficará sem capacidade de absorver novos choques e os preços subirão antes mesmo de qualquer escassez física.
Isso explica o fato de o presidente americano ter repetido mais de 30 vezes nas últimas semanas que um acordo de paz estava próximo, embora sempre desmentido em seguida pelas autoridades iranianas.
Na sexta-feira, 12 de junho, a imprensa americana voltou a especular sobre negociações em fase avançada pelo fim do conflito.
De acordo com o portal Axios, citando um diplomata americano, os termos do acordo já estariam definidos: o Estreito de Ormuz deverá ser reaberto imediatamente sem cobrança de pedágio e o Irã receberá alívio das sanções mediante o cumprimento das normas. O cessar-fogo será esticado por mais 60 dias, período em que os dois países vão negociar o programa nuclear iraniano.
A queda recente do barril para abaixo de US$ 90 — após Trump afirmar mais uma vez que um acordo com o Irã seria “iminente” — mostra o tamanho da expectativa do mercado. Mas também revela o risco: se a negociação fracassar, a reação pode ser violenta.
Ou seja, o mundo ainda não está sem petróleo. Mas está ficando sem tempo.