Fosse uma partida de várzea ou uma decisão de Copa do Mundo, o futebol sempre foi muito mais do que apenas um jogo para Nelson Rodrigues (1912-1980). O que ocorria entre as quatro linhas representava para o jornalista, escritor e dramaturgo vidas em desespero, glórias monumentais, tragédias silenciosas e patriotismo acima do bem e do mal.

Quando o assunto era o mundial, então, a dramaticidade dobrava de tamanho no momento em que ele sentava para escrever uma crônica. Não por acaso, seu livro mais famoso sobre o tema tem o título de A pátria de chuteiras. Assim, Nelson se tornou o maior cronista esportivo brasileiro de todos os tempos.

Mas a vida foi generosa com ele. Sua maior produção se deu exatamente no período em que a seleção brasileira mais brilhou, entre 1950 e 1970 — quando o país perdeu três campeonatos, mas ganhou outros três, em 1958, 1962 e 1970. E Nelson teve como matéria-prima as maiores estrelas do nosso futebol, como Pelé, Garrincha, Didi, Djalma Santos, Jairzinho e Gerson e outros.

Por causa do estilo literário, seus textos nunca perderam o brilho e a atualidade, como se vê no box As Copas de Nelson Rodrigues. Lançada pela Nova Fronteira, com três livros, a antologia é um presente dos deuses para quem gosta de futebol, de Nelson e de crônicas bem escritas.

A coleção recupera mais de 150 textos inéditos em livro, publicados nos jornais Última Hora e O Globo. A organização é de Caco Coelho, com ilustrações de Marcelo Monteiro. O projeto gráfico leva assinatura de Crica Rodrigues, neta de Nelson. A caixa tem ainda prefácios dos tricampeões Gerson, o “Canhotinha de Ouro”, e Tostão.

O exagero era a forma mais comum do jornalista expressar seu entusiasmo: “Mas nós temos um Didi. Eu digo que ele parece um príncipe etíope de rancho. E, de fato, Didi está jogando de manto”, escreveu, após o jogo do Brasil contra a França, em 1958.

Quatro anos depois, nas quartas de final contra a Inglaterra, ele destacou Garrincha: “Imaginem vocês que, no jogo anterior contra a Espanha, um confrade meu deu nota seis ao Mané. Meia dúzia. Ora, insinuar qualquer objeção contra Garrincha, naquele jogo, é um crime. Se a nota máxima era dez, Garrincha merecia 150, no mínimo”.

Após a conquista no Chile, Nelson destacou: “Ao longo dessas últimas quarenta e oito horas, não houve um mau caráter no Brasil. Sumiram os canalhas. Ou, por outra: até os canalhas atarrachavam rútilas e franciscanas sandálias”.

Na eliminação de 1966, o escritor culpou a comissão técnica: “Tudo isso nas barbas atônitas de um povo. E 80 milhões de sujeitos [população do país, na época] estão aí, pagando pela burrice alheia”. Ele classificou a final entre Inglaterra e Alemanha como "antifutebol" — um estilo de jogo baseado na força física, na retranca tática, na burocracia e na frieza da matemática.

Quatro anos depois, porém, a alegria voltou triplicada: “Com a campanha do Brasil, chorou-se, floriu-se a velocidade no mais patusco dos velórios”. E arrematou: “Eu queria finalizar dizendo: há quarenta mil anos, não surgiu um futebol como o brasileiro de 70”.

Com três volumes e 632 Páginas, a antologia custa R$ 199,90 (Foto: Editora Nova Fronteira)

"Se a nota máxima era dez, Garrincha merecia 150, no mínimo”, escreveu Nelson, sobre o jogador em 1962

“Mas nós temos um Didi. Eu digo que ele parece um príncipe etíope de rancho. E, de fato, Didi está jogando de manto”, elogiou o escritor, após o jogo do Brasil contra a França, na semifinal de 1958

Nelson transformou as partidas em epopeias, jogadores em personagens dramáticos e a bola em termômetro emocional de um país inteiro. “Nos textos escalados aqui, ele avança em tabela curta com a história, dribla o destino, finta o complexo de vira-latas e parte para a finalização com frases que entram no ângulo, verdadeiros gols de placa ecoando a memória pátria”, escreve o organizador.

Graças ao estilo épico, suas crônicas fazem do futebol o fio condutor de uma narrativa mais ampla, como defende Coelho — a história de um Brasil vencedor, protagonizada pela seleção de craques, mas também por torcedores, clubes e grandes atletas de outros esportes, coadjuvantes necessários, nunca reservas, no grande campeonato da vida nacional.

Enquanto cronista esportivo, Nelson direcionou o que escrevia à construção de uma seleção vigorosa. Ele se lançou nessa missão em 1954, ano em que a seleção brasileira foi, novamente, derrotada numa Copa do Mundo, depois de perder a final de 1950, no Maracanã, uma das maiores humilhações que a pátria já havia sofrido, segundo ele. “Era necessário inflar o ego dos patrícios. Mostrar que aqui se jogava o melhor futebol do mundo”, afirma Coelho.

Os escritos de Nelson apareceram em colunas como À sombra das chuteiras imortais, Nelson Rodrigues dá bom dia, Futebol é paixão e A batalha. Uma delas, no entanto, transformou-se na mais longeva dentre todas: Meu personagem da semana, escrita ao longo de 12 anos, em que perfilou jogadores de futebol e destaques de outros esportes.

O material pesquisado para o lançamento de agora totalizou 700 textos. Foram selecionados dez por ano, entre 1959 e 1970, e dez sobre cada uma das quatro Copas do Mundo.  Eram crônicas de grande impacto pelas limitações tecnológicas da época.

Em 1958, por exemplo, só havia o rádio como transmissor das partidas. Os filmes feitos das partidas chegavam muito tempo depois. Em 1962, o videoteipe para TV vinha com alguns dias de atraso, assim como em 1966. Somente em 1970 houve transmissão direta, e o Brasil pôde acompanhar sua conquista maior, em cores.

Nem por isso as observações do cronista perderam a força ou o brilho. Grande parte da nação "assistiu" aos jogos por meio dos seus textos. “Nelson Rodrigues foi o maior poeta a cantar os nossos campos e o ‘Meu personagem da semana’, a sua maior poesia”, avalia o organizador.

No prefácio, Gerson afirma: “Escrever estas linhas para abrir o livro de Nelson Rodrigues é, para mim, mais difícil do que disputar uma final de Copa do Mundo”. E explica que, no campo, ele sempre soube onde colocar a bola. “Na palavra, sinto-me aprendiz diante de um mestre que fez da língua portuguesa uma arte tão precisa quanto um lançamento bem colocado”.

Para ele, Nelson nunca focou apenas sobre futebol: “Ele escreveu sobre o homem. Sobre o medo, a vaidade, a coragem, a covardia, o amor, o ódio, a esperança e a tragédia. Usou o futebol como espelho, porque sabia que, dentro de um estádio, o brasileiro se revela por inteiro. Lá não existe personagem: existe verdade. Existe lágrima. Existe riso. Existe drama. Existe exagero. Existe Nelson”.