Durante décadas, vinicultores de diferentes regiões arrancaram de suas terras variedades de uvas consideradas "inconvenientes". Eram castas que amadureciam tarde demais, geravam rendimentos baixos ou carregavam uma acidez excessiva para os padrões de mercado da época.
Hoje, as mudanças climáticas e a busca do consumidor de alto padrão por exclusividade inverteram essa dinâmica. Em vez de descartar o passado, produtores e vinícolas estão descobrindo relíquias que podem ser a chave para preservar a identidade e a qualidade dos grandes vinhos frente às transformações impostas pelo aquecimento global.
Em 2024, uma revisão publicada na revista Nature Reviews Earth & Environment, realizada por pesquisadores da Universidade de Bordeaux, com base em mais de 200 estudos científicos, estimou que cerca de 90% das regiões vinícolas tradicionais de planície e costeiras da Espanha, Itália, da Grécia e do sul da Califórnia podem se tornar inviáveis para a vitivinicultura até o fim do século.
Embora estejam fora da zona de risco extremo, zonas emblemáticas como Bordeaux, Champagne e Borgonha, na França, convivem com impactos semelhantes.
O calor excessivo durante o ciclo de maturação das videiras eleva os níveis de açúcar nos frutos, resultando em vinhos com teor alcoólico alto e pouca acidez. Para preservar o equilíbrio de seus rótulos, muitos vinicultores assumiram o papel de caçadores de castas esquecidas.
"A arqueologia do vinho é um trabalho excepcional. Preservar castas de boa qualidade tem função histórica e é fundamental neste momento em que todo mundo está pensando no futuro do setor frente às alterações climáticas”, afirma Arthur Azevedo, professor da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo (ABS-SP). “E quanto mais uvas diferentes ressurgirem, melhor para quem ama vinhos."
Na região de Champagne, no nordeste francês, por exemplo, as três principais castas, Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier, sempre dependeram do clima úmido e frio do nordeste do país para uma maturação lenta e a preservação da acidez essencial para o estilo da região.
Com o aquecimento, esse equilíbrio se rompeu: de acordo com o Comité Champagne, a acidez total dos vinhos locais caiu em média 1,3 grama por litro nos últimos 30 anos. A mudança compromete o frescor e a própria identidade da bebida, além de seu potencial de guarda — ou seja, sua capacidade de envelhecer na garrafa sem perder qualidade.
A resposta a esse problema vem de duas variedades também permitidas pela legislação, mas quase extintas, a Arbane e a Petit Meslier. Durante séculos, as variedades não foram cultivadas porque eram consideradas de baixa qualidade e de manejo difícil.
Ambas amadurecem lentamente e retêm um alto teor ácido. O que era “inconveniente” em uma época em que, no nordeste da França, os verões eram frios, hoje, virou vantagem.
A "finesse" da Arbane
Há cerca de 20 anos, a Maison Drappier iniciou o replantio experimental dessas castas para preservar a diversidade genética regional. Assim nasceu o Champagne Drappier Quattuor, uma cuvée que reúne em partes iguais Chardonnay, Blanc Vrai (nome local da Pinot Blanc), Arbane e Petit Meslier.
O Quattuor é considerado pelo próprio site da Drappier o primeiro e único Champagne branco feito com quatro castas brancas diferentes. Michel Drappier definiu o uso das duas variedades esquecidas como "uma forma de construção nova a partir de elementos antigos".
Esse movimento estimulou outras propriedades locais. É o caso da Maison Moutard, com sua Cuvée Cépage Arbane Vieilles Vignes, e do viticultor artesanal Olivier Horiot — ambos produzindo tiragens limitadas de Champagne 100% Arbane.
Os rótulos atraíram a atenção da crítica especializada, incluindo a Master of Wine Essi Avellan, que em artigo sobre as castas ancestrais de Champagne, destacou a alta acidez e a finesse da Arbane como as qualidades que a tornam de potencial interesse para os produtores da região.
Em outras regiões europeias, variedades resgatadas por motivos culturais ou de preservação histórica também estão se revelando resistentes no atual contexto climático. Na Catalunha, Espanha, a tradicional Familia Torres lidera há mais de quatro décadas um projeto destinado a localizar cepas sobreviventes à praga da filoxera do século XIX.
A própria vinícola declara que essas variedades recuperadas "se destacam por sua resistência à seca e às altas temperaturas, tornando-as particularmente interessantes diante do novo cenário climático."
Desse esforço, a Forcada, uma uva branca de amadurecimento lento, voltou. Enquanto variedades comerciais como a Chardonnay são colhidas em agosto, ela só completa seu ciclo em outubro, permitindo que a planta desenvolva aromas complexos e preserve uma acidez vibrante com pH baixo, mesmo sob forte estresse térmico.
A iniciativa resultou no prestigiado Familia Torres Forcada, um varietal puro de edição limitada, com produção de apenas 4,8 mil garrafas por ano.
Histórias reais e equilíbrio
Na Itália, o cenário se repete. A Schioppettino, uva tinta do Friuli, documentada desde o século XIII, chegou à extinção técnica nos anos 1970 não apenas pelo abandono comercial, mas por um decreto de 1976 em que o governo da comuna de Prepotto proibiu seu plantio e vinificação — a casta não estava na lista das variedades permitidas no extremo nordeste do país.
Em 1977, as autoridades de Udine, capital da região, realizaram uma reunião de emergência, conhecida como Salve o Schioppettino! Com o apoio da família Nonino, produtora de grappa, e dos pioneiros Paolo e Dina Rapuzzi, da vinícola Ronchi di Cialla, no ano seguinte, o veto foi derrubado.
Mesmo contra a lei, no período da proibição, os Rapuzzi cultivaram os últimos exemplares da uva. Hoje seu Schioppettino di Cialla tornou-se um tinto de produção restrita e de alta longevidade.
O grande trunfo da Schioppettino é que, mesmo em safras quentes, a planta amadurece mantendo sua acidez vibrante e o álcool na casa dos 12,5%.
No Piemonte, a Timorasso ocupava apenas meio hectare em 1985, até que o produtor Walter Massa liderou sua recuperação para defender a tipicidade da região de Tortona contra a padronização do mercado. Hoje o Derthona Costa del Vento é valorizado pela textura mineral e extraordinária capacidade de guarda.
A casta é reconhecida pelo pH naturalmente baixo e pela alta acidez, características que a tornam particularmente valiosa para produzir brancos frescos e de longa guarda. Nos últimos 40 anos, os plantios da Timorasso cresceram de meio hectare para 500 hectares — e a Decanter o aponta como candidato à próxima estrela dos brancos italianos.
Para Rodrigo Mainardi, da importadora Mistral, o mercado de alto padrão tem se mostrado aberto a provar novidades.
“O consumidor busca autenticidade, histórias reais, quer saber das safras por trás dos rótulos e, acima de tudo, deseja equilíbrio", afirma o executivo. E isso é exatamente o que as uvas resgatadas do abandono oferecem.