Durante boa parte dos últimos dois anos, a tecnologia era uma maneira simples de explicar o crescimento dos lucros das empresas listadas nas bolsas americanas. E, dentro dela, a inteligência artificial. Agora, os números do segundo trimestre de 2026 começam a contar uma história diferente, de acordo com levantamento do Deutsche Bank.

Há um ano, as megacaps - empresas com valor de mercado superior a US$ 200 bilhões - e as companhias de tecnologia respondiam por 90% da expansão dos lucros do S&P 500. Entre abril e junho deste ano, essa participação caiu para 55%. O restante do índice, que contribuía com apenas 10%, passou a responder por 45%.

Esse crescimento vem, justamente, das empresas da economia tradicional como bancos, indústria, energia, logística e consumo. O Deutsche Bank afirma que o boom ficou grande demais para ser chamado apenas de boom da IA.

Os estrategistas do banco alemão analisaram os números de empresas nas principais regiões do mundo e os comentários feitos nas teleconferências de resultados de mais de 300 companhias, de diferentes setores e países no segundo trimestre.

Os números mostram uma aceleração dos resultados. O crescimento global dos lucros passou de 26,1% no primeiro para 39,1% no segundo trimestre. Até este momento é o maior ritmo registrado pelo banco fora dos períodos de recuperação de recessões e do rebote da pandemia.

Nos Estados Unidos, 89% das empresas superaram as projeções de lucro dos analistas. No Japão, foram 78%. Na Europa, 65%, e nos mercados emergentes, 60% - a abrangência das surpresas positivas foi recorde nos Estados Unidos e no Japão.

A inteligência artificial permanece no centro dessa expansão. Andy Jassy, CEO da Amazon, chamou o momento do AWS de um boom. A divisão de computação em nuvem cresceu 36,7% na comparação anual, acelerando pelo quinto trimestre consecutivo e alcançando sua maior expansão em 18 trimestres.

Mark Zuckerberg disse que a Meta continua investindo agressivamente em infraestrutura para acompanhar o aumento do uso de IA em seus produtos.

E Stephen Schwarzman, CEO da Blackstone, afirmou que o principal responsável pelos fortes resultados da gestora continua sendo o grande volume de investimentos feitos em áreas relacionadas à inteligência artificial, entre elas data centers, energia e geração elétrica.

Nas demais calls de resultado, a expressão broad-based (algo como disseminado ou espalhado) se repetiu entre CEOs e CFOs. O Deutsche Bank chama o fenômeno de cyclical multiplier effect, ou seja, diferentes indústrias começam a impulsionar umas às outras e a recuperar áreas que ficaram para trás.

De acordo com o estudo, o crescimento dos lucros das empresas deixou de ficar concentrado. No S&P 500, todos os setores caminhavam para uma expansão positiva no segundo trimestre. E sete dos 11 apresentavam expansão de dois dígitos.

No recorte global, dez dos 11 setores registravam crescimento de lucro de dois dígitos, com o imobiliário sendo a única exceção.

Tecnologia continua crescendo em ritmo extraordinário, mas setores mais tradicionais também entraram no jogo. Nos Estados Unidos, o lucro das empresas financeiras avançou 19,8% e o das industriais, 16,3%. Nos mercados emergentes, as altas foram de 27% e 26,4%, respectivamente.

Consumidor: regra ou exceção

As empresas que vendem diretamente para o consumidor estão menos otimistas. General Mills e Nike, por exemplo, disseram em suas teleconferências que o consumidor está pressionado.

A General Mills observou maior busca por promoções e mudanças entre tamanhos de embalagem e canais. A Nike atribuiu parte da queda de dois dígitos nas vendas de sportswear à pressão sobre consumidores ao redor do mundo.

Em contrapartida, a Visa afirmou que o ambiente de consumo permanece forte e resiliente e disse não ter identificado enfraquecimento nem mesmo nas faixas inferiores de gastos.

A Mastercard foi pelo mesmo caminho e observou tendências positivas tanto no público de massa quanto entre consumidores de maior renda. O Bank of America continua registrando atividade forte nos gastos de seus clientes.

De acordo com o estudo do Deutsche, parte do que algumas empresas estão chamando de problema macroeconômico pode ser, na realidade, um problema micro, ou seja, de preço, categoria, produto, execução ou perda de participação de mercado.

Segundo o banco alemão, o lucro por ação do S&P 500 está hoje 14% acima da tendência observada ao longo de mais de 90 anos. A última vez que o índice esteve tão distante dessa tendência foi em 1955. E, pelas projeções, a distância ainda aumentará.