A falha técnica na B3 que impediu a abertura do mercado de ações em 31 de julho ainda levanta preocupações entre os analistas, que seguem sem uma explicação detalhada sobre o ocorrido. Na manhã de terça-feira, 12 de agosto, o ocorrido foi o primeiro tema a ser abordado por analistas na sessão de perguntas da teleconferência do resultado da companhia no segundo trimestre deste ano.

Sem o CEO recém-empossado, Christian Egan, a resposta coube a André Milanez, CFO da companhia: “foi uma falha técnica em uma das nossas plataformas. Já identificamos o problema. Não vou entrar em muito detalhe aqui, mas é uma questão bem técnica”, disse ele.

Devido ao período de silêncio, que restringe a comunicação de diretores de companhias abertas antes da divulgação de resultado, esta foi a primeira oportunidade de a B3 explicar o ocorrido.

“Embora o impacto financeiro direto deva ser limitado, o incidente é uma manchete negativa do ponto de vista da marca/franquia”, afirmaram analistas do BTG em relatório publicado após o ocorrido.

Segundo Milanez, as ações de mitigação já foram tomadas para evitar que isso se repita. “Isso faz parte do nosso trabalho diário, garantir que nossas plataformas estejam funcionando corretamente. Sabemos da responsabilidade que temos, como empresa, no papel que exercemos como infraestrutura de mercado.”

O tom de seriedade também foi adotado pelo CEO, que, embora não tenha se encontrado com investidores, gravou um vídeo para a apresentação do balanço em que afirma que já foram implementadas melhorias em redundância, contingência e monitoramento, assim como nos procedimentos operacionais.

“Ficamos abaixo do padrão que o mercado espera da B3. E, mais importante, abaixo do padrão que exigimos de nós mesmos”, disse Egan, no vídeo. “Mas deixem-me ser claro: não estamos tratando este episódio como algo que ficou para trás. Estamos tratando como um chamado à ação.”

Milanez afirmou, no entanto, que não será feito qualquer incremento no orçamento reservado para manutenção e desenvolvimento de produtos, que tem girado em torno de 10% da receita líquida da companhia.

“Talvez seja mais uma questão de acelerar algumas medidas técnicas e também reordenar prioridades. Então, não espero que isso tenha um impacto relevante — pelo menos não este ano — em termos dos nossos níveis de despesa e investimento”, afirmou o CFO.

Lucro recorde

O lucro líquido recorrente da B3 foi de R$ 1,4 bilhão, 8% mais alto na comparação anual, mas 8,2% abaixo do registrado no trimestre anterior.

Considerando os efeitos não recorrentes, como a venda da fatia de 37,5% na Dimensa e um benefício fiscal extraordinário, a companhia teve lucro recorde de R$ 1,7 bilhão, alta de 28,2% frente ao mesmo trimestre de 2025 e de 15% em relação ao trimestre anterior.

A receita total da B3 somou R$ 3,1 bilhões no trimestre, alta de 12,2% em relação ao mesmo período do ano passado, mas recuo de 3,8% frente ao primeiro trimestre deste ano. A queda na comparação trimestral veio principalmente da linha de Mercados, que reúne derivativos e ações à vista.

A receita do segmento somou R$ 2,03 bilhões, recuo de 5,5% ante o primeiro trimestre — puxado por um volume médio diário de derivativos 15,8% menor, reflexo da base de comparação elevada: em março, o volume de contratos de juros em reais bateu recorde histórico, em meio à volatilidade provocada pelo início do conflito no Oriente Médio, efeito que não se repetiu no segundo trimestre.

Já as áreas mais estáveis do negócio — Soluções para o Mercado de Capitais, Data Analytics (Trilha) e Tecnologia e Plataformas —, que juntas respondem por cerca de metade da receita da B3, mantiveram ritmo forte de expansão, com crescimento combinado de 17% na comparação anual.

Para Milanez, esse desempenho reforça a estratégia de diversificação da companhia. Ele pondera, no entanto, que nem todas as linhas recorrentes estão blindadas do cenário macroeconômico.

“Pode haver linhas específicas que desacelerem um pouco, e outras em que vemos potencial de acelerar mais — mas, em termos gerais, essa é a tendência que vemos para a parte recorrente do negócio.”

Com valor de mercado de R$ 71,75 bilhões, a ação B3SA3 acumula alta de 5,3% neste ano.