Conhecidas pelo tamanho menor e pela baixa liquidez, as ações small caps raramente estão no radar dos grandes fundos internacionais, que geralmente buscam exposição ao mercado brasileiro via ETFs atrelados ao Ibovespa ou ao MSCI Brazil.
Apesar da dinâmica desfavorável para a classe, um levantamento feito pela Comdinheiro, sistema de informações financeiras do grupo Nelogica, a pedido do NeoFeed, revela uma resiliência surpreendente, mesmo com saídas constantes de fundos locais nos últimos anos.
De acordo com os dados, o volume médio diário das ações do índice Small Cap cresceu 19,3% entre dezembro de 2022 e junho de 2026, enquanto o do Ibovespa recuou 10,3% no mesmo período. Como resultado, a diferença de liquidez entre os dois índices, que chegou a 5,1 vezes em dezembro de 2022, caiu para 3,8 vezes.
O levantamento considerou o volume diário de todas as ações componentes do Ibovespa e do índice Small Cap em cada data, respeitando os rebalanceamentos quadrimestrais de cada indicador. Ou seja, uma ação que entrou ou saiu de qualquer um dos índices ao longo do período foi contabilizada apenas nos meses em que efetivamente fazia parte da carteira.
Em dezembro de 2022, as ações do Ibovespa negociavam, em média, R$ 20,5 bilhões por dia. Em junho de 2026, esse volume caiu para R$ 18,4 bilhões. No Small Cap, o movimento foi inverso: de R$ 4,0 bilhões para R$ 4,8 bilhões.
O crescimento ocorreu no mesmo período em que os fundos de ações sofreram resgate acumulado de R$ 95,4 bilhões e a fatia do patrimônio de toda a indústria alocada em bolsa caiu de 9,8% para 7,7%, com o dinheiro novo migrando para a renda fixa. Por outro lado, a participação do estrangeiro em volume de negócios na B3 saltou de 54,9% para 60,5% — o maior patamar para um ano já registrado pela B3.
O mesmo movimento aparece nos ETFs que replicam os dois índices. O SMAL11, fundo que segue o Small Cap, teve o volume médio diário negociado crescer 262% entre fevereiro de 2023 e maio de 2026 — saltando de R$ 79 milhões para R$ 286 milhões por dia, segundo dados da B3.
No período, o BOVA11, maior ETF do país e que replica o Ibovespa, encolheu 24%. Hoje, o SMAL11 é o segundo ETF mais negociado da bolsa brasileira, atrás apenas do BOVA11 — em 2023, ele ocupava apenas a quarta posição.
Para Gustavo Gukovas, diretor de negócios do Comdinheiro, uma possível explicação está no perfil do investidor que domina cada índice. As small caps estão disponíveis apenas no mercado interno, enquanto as maiores ações do Ibovespa — como Petrobras, Vale e Itaú — também são negociadas por meio de ADRs nos Estados Unidos.
Em junho, somente as ADRs dessas três empresas movimentaram US$ 876 milhões por dia, segundo dados do J.P. Morgan, banco depositário das ADRs. Ao todo, as ADRs brasileiras tiveram um volume médio diário de US$ 2,54 bilhões em junho, segundo a Comdinheiro. O volume, em reais, representa cerca de 71% do volume negociado no mesmo mês pelas ações que compõem o Ibovespa e 44% de todas negociações à vista de ações na bolsa brasileira.
“É muito mais fácil para o investidor estrangeiro acessar o mercado via Estados Unidos do que vir alocar diretamente aqui na B3”, diz Gukovas.
Para Luciano Boudjoukian França, sócio-fundador e gestor da Paramis Capital, o encurtamento do volume negociado entre as ações dos dois índices tem forte relação com a perda de volume da bolsa.
Em junho, a média do volume negociado por dia no mercado de ações à vista foi de R$ 29,5 bilhões, 8,6% abaixo do registrado no fim de 2022. Nos dados parciais do mês de julho, o volume médio está em R$ 19,35 bilhões por dia, próximo aos menores níveis desde 2019.
“Vale e Petro perderam mais ou menos 30% de volume de negociação na B3 [desde 2023]. E hoje, as empresas brasileiras que negociam nos Estados Unidos têm quase 60% de todo o volume da nossa bolsa [considerando ADRs e empresas listadas diretamente, como Nubank e Mercado Livre]. Em 2021, eram 30%”, diz França.
Segundo ele, essa migração ajuda a explicar por que companhias brasileiras têm buscado cada vez mais o mercado americano para se listar, vide os casos recentes da JBS, que migrou da B3 para a NYSE, e do PicPay e do Agibank, que abriram o capital diretamente nos Estados Unidos.
“Há uma dificuldade de se gerar volume de negócio aqui dentro que incentiva a companhia local a fazer a emissão de ativos lá fora, por uma visibilidade, por uma melhor precificação, por uma melhor liquidez, e acaba sendo um círculo vicioso.”
A migração dessa liquidez para os Estados Unidos também se reflete no EWZ, maior ETF de ações brasileiras nos Estados Unidos e um dos principais veículos usados no exterior para se expor ao Brasil, que segue o MSCI — outra cesta dominada por large caps, com peso relevante de Petrobras, Vale e Itaú.
Como qualquer outro ETF, o EWZ destrói ou cria novas cotas, dependendo da demanda, e, entre dezembro de 2022 e os primeiros dias de julho deste ano, esse número cresceu 53,3%, segundo dados da gestora BlackRock. O patrimônio do fundo quase dobrou no período, passando de US$ 4,7 bilhões para US$ 8,9 bilhões.
Metodologia a favor
Outro fator apontado pelos gestores que ajuda a explicar como as ações do índice Small Cap ganharam mais liquidez em relação ao Ibovespa, mesmo nesse cenário adverso, está nas metodologias de composição das carteiras.
Pela regra da B3, entram no Ibovespa os ativos que, somados em ordem decrescente de negociabilidade, representam 85% do total negociado no mercado à vista nas três carteiras anteriores.
Já o índice Small Cap reúne as ações que ficam fora da lista das que somam 85% do valor de mercado de todas as empresas listadas na B3 — ou seja, companhias menores em tamanho, não necessariamente em liquidez. Como os critérios são diferentes, uma mesma ação pode compor simultaneamente os dois índices.
O efeito prático é uma renovação constante da carteira do Small Cap. Das 134 ações que compunham o índice no fim de 2022, 58 saíram. Entraram 34 novas, 13 delas vindas diretamente do Ibovespa. Entre elas, Lojas Renner, Totvs, Multiplan, Hapvida, Hypera, Cosan e Magazine Luiza.
Outras sete ações já estavam no índice e também integravam o Ibovespa naquele ano, mas deixaram o principal índice da B3 — casos de CVC, Dexco, Ecorodovias, EzTec, Locaweb, Qualicorp e Méliuz.
Para Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, essa dinâmica de composição é a chave para entender o dado — e coloca em xeque a leitura de que as small caps propriamente ditas ganharam liquidez.
“A Renner entrou no índice Small Cap há cerca de um ano. Hoje, ela é uma das maiores posições do índice, com 4,5% de participação. Mas ninguém no mercado classificaria a Renner como uma small cap — ela é vista como uma empresa grande, relevante da bolsa”, diz Utsch.
Ele ressalta que parte dessa migração entre os índices também é explicada pela concentração da alta da bolsa em poucos papéis — com destaque para a Petrobras. Desde o fim de 2022, a PETR4 acumula valorização de cerca de 75%. Hoje, sozinha, a estatal corresponde a mais de 11% de todo o valor de mercado da bolsa, ajudando a puxar outras empresas para baixo do corte dos 85% que define a entrada no Ibovespa.
Eduardo Carlier, codiretor da Azimut Brasil Wealth Management, endossa o argumento. “A composição e a regra de como você calcula o índice respondem muito pelo encurtamento dessa diferença."
Segundo ele, o efeito é visível em empresas como Totvs e Multiplan — companhias que já foram tratadas como mid ou large caps e hoje entram no cálculo do Small Cap com peso e volume relevantes desde o primeiro dia.
Por outro lado, ações que se desvalorizaram a ponto de virar penny stocks ou entraram em recuperação judicial também deixaram o índice Small Cap nos últimos anos — casos de Azul, Gol e Light, todas excluídas por deixarem de atender aos critérios mínimos de inclusão nos índices da B3.
“Muitas empresas sumiram também do Índice Small Cap. Aquelas da última safra de IPOs foram praticamente eliminadas para baixo”, diz Carlier.
Nem todo movimento na composição dos índices segue essa direção. A Copasa, hoje o maior peso do Small Cap, com 6,9% de participação, fez o caminho oposto ao da Renner e da Totvs. A companhia foi privatizada em 2024, o que elevou sua liquidez a ponto de a ação entrar também no Ibovespa — mesmo sem deixar o Small Cap.
Entrar para o Ibovespa continua sendo desejo de toda empresa listada, disse o gerente de RI de uma empresa de capital aberto presente em diversos índices da B3, que pediu para não ser identificado devido às políticas internas de não comentar sobre preço e volume das ações.
“Muitos investidores estrangeiros preferem ter essa exposição via ETFs, o que ajuda a aumentar a liquidez do papel. Nenhum fundo grande quer ficar em ação com pouca liquidez, porque a saída é pequena. Então a liquidez ajuda também a atrair investidor e a valorizar a companhia”, afirma.
Apesar da redução na diferença de liquidez, as ações do Ibovespa ainda somam, juntas, um volume 3,8 vezes maior do que as do Small Cap. O desequilíbrio segue evidente no patrimônio sob gestão dos ETFs que replicam os dois índices da B3. O BOVA11, maior fundo de índice do país, tinha R$ 13,2 bilhões sob gestão em 8 de julho, segundo dados da BlackRock, enquanto o SMAL11 tinha R$ 1,6 bilhão — uma diferença de 8 vezes.