Zurique, quinta-feira, 27 de agosto. Alisson dos Santos, o Piu, dançou para as câmeras antes da largada, voou sobre os obstáculos do Estádio Letzigrund e bateu o recorde mundial dos 400 metros com barreiras com o tempo de 45,80 segundos — 14 centésimos abaixo do tempo que o seu maior rival, o norueguês Karsten Warholm, havia estabelecido nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021.
Ter um brasileiro recordista mundial no atletismo é algo raro. O último antes de Piu foi Ronaldo da Costa, em 1998, quando percorreu os 42,165 quilômetros em 2 horas, 6 minutos e 5 segundos. Antes dele, só a turma do salto triplo: Adhemar Ferreira da Silva, Nelson Prudêncio e João do Pulo. No caso de Piu, não foi só uma vitória esportiva: foi um evento de reposicionamento do valor de sua marca pessoal em tempo real.
A quebra do recorde mundial alcançada pelo corredor paulista é o catalisador que aciona gatilhos financeiros decisivos na carreira do atleta. Atleta do Esporte Clube Pinheiros, de São Paulo, Piu conta com uma carteira de patrocínios que inclui nomes de peso global, como a gigante de artigos esportivos Adidas e o grupo de serviços financeiros e seguros Allianz.
Procuradas para detalhar a premiação por meta do brasileiro, as duas marcas não comentaram quanto Piu irá ganhar de bônus por questões de confidencialidade do contrato.
Já a World Athletics (Federação Internacional de Atletismo) prevê uma premiação direta de US$ 100 mil (cerca de R$ 550 mil) pela quebra do recorde mundial. No circuito da Diamond League, a principal liga de atletismo do mundo, o cachê fica entre US$ 50 mil e US$ 80 mil por etapa.
Para entender o potencial comercial de Piu, é preciso olhar para o topo do mercado de marketing de pista e campo. Karsten Warholm, rival direto nos 400m com barreiras, construiu um portfólio sólido com marcas esportivas e financeiras, faturando mais de US$ 3 milhões por ano.
O sueco Armand Duplantis, recordista mundial do salto com vara, tem contratos globais de grande porte e marcas de luxo que superam US$ 4 milhões a US$ 5 milhões anuais impulsionado pela quebra sistemática de recordes mundiais. O velocista norte-americano Noah Lyles, detém contratos com gigantes de material esportivo estimados em mais de US$ 2 milhões por ano.
Com o recorde mundial, Piu entra definitivamente nessa prateleira de "atleta global", tornando-se a principal referência esportiva e comercial no atletismo na América Latina. Com suas sapatilhas “voadoras” da Adidas, Piu deve ganhar ainda mais projeção da marca famosa pelas três listras.
Em novembro do ano passado, a Adidas firmou uma parceria de fornecimento de material esportivo ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028.
Além de Piu, a marca patrocina também nomes como a ginasta Rebeca Andrade e a judoca Beatriz Souza, medalhistas de ouro nas Olimpíadas de Paris, em 2024.
Marcas que impulsionam as passadas
A história de Piu é marcada por um acidente doméstico que sofreu ainda bebê na casa da avó. Um momento de descuido durante o preparo de uma fritura fez com que o menino de dez meses puxasse para si uma frigideira com óleo fervendo. Foram dois meses de internação no Hospital do Câncer de Barretos, noo interior paulista.
As cicatrizes na cabeça, no braço e no peito marcaram a infância. Quando um projeto social de atletismo de São Joaquim da Barra, sua cidade natal, o convidou, Piu encontrou o ambiente de amizade que o ajudou a superar as marcas do bullying que sofria na escola.
Aos 14 anos, já praticante de judô, foi descoberto pelo atletismo; mudou-se para São Paulo para treinar no clube Pinheiros sob o comando de Felipe de Siqueira, técnico que o acompanha até hoje.
Da timidez ao recorde mundial, a trajetória de Piu virou também um enredo de marca: superação, autenticidade e presença física marcante funcionam como capital narrativo valioso para qualquer patrocinador.
Piu ainda tem um engajamento tímido nas redes sociais: apenas 360 mil seguidores no Instagram, muito pouco comparado a Bia Souza (3,4 milhões) e Rebeca Andrade (9,1 milhões), só para citar suas colegas de patrocinador. Como na prova em que se especializou, Piu sabe que tem muitas barreiras ainda para superar. O recorde mundial foi apenas uma delas.
A força dos 400m com barreiras
Os 400 metros com barreiras são considerados por fisiologistas a prova individual mais exigente das pistas. Trata-se de uma combinação brutal de capacidade aeróbica, potência anaeróbica lática, ritmo e precisão biomecânica.
A engrenagem do movimento de Piu exige que o atleta de dois metros de altura e pernas extremamente longas cubra a distância de 35 metros entre as 10 barreiras com apenas 12 a 13 passadas, enquanto a média dos adversários varia entre 13 e 14.
Na hora de atacar cada barreira de 91,4 cm de altura, Piu precisa "passar por cima dela" mantendo o centro de gravidade o mais estável possível. Ele minimiza a oscilação vertical. Sua perna de ataque avança em ângulo reto rápido, enquanto a perna de elevação recolhe-se horizontalmente ao corpo em rotação rápida de quadril.
Ao aterrissar após a barreira, a taxa de perda de velocidade horizontal de Piu é quase nula. Ele converte a energia da queda imediatamente na próxima passada.
Além disso, Piu resiste bem à fadiga. Nos últimos 100 metros, quando a acidose muscular atinge o pico, a manutenção de sua frequência de passadas sem perda substancial da técnica biomecânica é o fator que sustenta o tempo de recorde mundial.
Foi o que se viu em Zurique: enquanto Warholm desacelerava, Piu ampliava a vantagem, numa prova de gerenciamento de energia tanto quanto de velocidade pura.
Agora como o homem a ser batido, Piu terá o desafio de manter suas passadas largas em pleno vigor por mais dois anos, até as Olimpíadas de Los Angeles, nos Estados Unidos, país conhecido como a “Disney” do marketing esportivo.