A caminhada que revela porque uma rua do Bom Retiro foi eleita uma das mais legais do mundo

A rua Três Rios, no popular bairro do Bom Retiro, em São Paulo, ficou em sétimo lugar na eleição da revista Time Out. Um passeio a pé desvenda esse mistério

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Joias da arquitetura paulista são reveladas no passeio, como o Edifício Ramos de Azevedo, a sede da antiga Poli (Foto: Cristiane Correa)

Em 2021, a revista inglesa Time Out publicou uma reportagem em que listava as 30 ruas mais legais do mundo, de acordo com uma pesquisa feita com 27 mil pessoas. Entre as selecionadas, a sétima colocada era brasileira: a Três Rios, no bairro paulistano do Bom Retiro.

Como é possível que essa via, próxima a uma área mais conhecida pelo comércio atacadista de roupas, estivesse à frente de outras ruas descoladas em cidades como Paris, Copenhagen e Hong Kong?

Para responder essa pergunta é preciso “voltar no tempo”. De preferência a pé, em um dos tours organizados pela agência Sob Olhares SP, fundada pela arquiteta e historiadora Stamatia Kouliomba. Filha de gregos, Stamatia realiza walking tours por São Paulo há cinco anos.

Entre os diversos programas, há passeios por Higienópolis, com seus antigos palacetes dos barões do café e edifícios icônicos projetados por Vilanova Artigas, Rino Levi e Artacho Jurado; pelos Campos Elíseos, com um panorama da São Paulo da Belle Époque e de seus ricos palacetes, e pelo bairro do Pacaembu, com casas modernistas assinadas por Gregori Warchavchik e residências que expressam o Brutalismo Paulista, projetadas por Paulo Mendes da Rocha. Mas é no passeio pelo Bom Retiro, bairro onde Stamatia nasceu e foi criada, que ela está literalmente em casa.

O programa começa em frente à estação Tiradentes do metrô, onde a guia conta sobre a expansão da cidade de São Paulo entre o final do século XIX e início do XX. A capital paulista tinha cerca de 80 mil habitantes em 1880. Uma década depois, já somava 240 mil. Em 1930, atingiu a marca de 1 milhão de pessoas.

O Bom Retiro surge na esteira dessa explosão demográfica, em uma área até então ocupada basicamente por três chácaras. Era o ponto de chegada de milhares de imigrantes que desembarcavam na vizinha Estação da Luz. A partir dali, percorriam a antiga Rua dos Imigrantes (atual José Paulino) até alcançar a primeira hospedaria da cidade – a construção daria origem ao Desinfectório Central, que visava controlar as doenças disseminadas com a urbanização acelerada (tombado desde 1985, o edifício hoje sedia o Museu de Saúde Pública Emilio Ribas).

A pluralidade étnica decorrente da forte imigração marcou o bairro para sempre. Se no início predominavam italianos e judeus do leste europeu, hoje a região reúne também coreanos, gregos, sírios, árabes, bolivianos, paraguaios e brasileiros vindos dos estados do Nordeste. Foi justamente essa diversidade de povos, que se reflete na cultura, arquitetura e gastronomia, que chamou a atenção da Time Out.

Oficina Cultural Oswald de Andrade: influência neoclássica para receber a Escola de Pharmacia e Odontologia de São Paulo.

Quem caminha pela Três Rios e ruas adjacentes vai se deparar tanto com jovens com cabelo pintado de azul quanto com senhoras coreanas carregadas de sacolas dos mercados de produtos típicos. Vitrines exibem tênis super modernos, que chegam a custar quase R$1,5 mil. Cafés com “pegada industrial”, que parecem saídos do Soho novaiorquino, ficam próximos a botequins que servem PF em mesas na calçada.

Aliás, nos inúmeros restaurantes do bairro é possível encontrar todo tipo de comida – de varenike (clássico da culinária judaica) a soboro (tradicional pão coreano), de pho (sopa tailandesa) a bureka (salgado búlgaro). Ao longo do trajeto, Stamatia faz várias indicações de locais onde é possível comprar as iguarias – difícil é resistir à vontade de experimentar tudo.

A diversidade é algo tão entranhado no bairro que alguns edifícios, como o centro Cultural Casa do Povo, têm sinalização em cinco idiomas: português, inglês, espanhol, coreano e hebraico.

Fundada na década de 1970, a Casa do Povo já abrigou o Teatro de Arte Israelita Brasileiro – TAIB (um sucesso nos anos 60 e 70, mas fechado há alguns anos) e o Ginásio Israelita Scholem Aleichem, que funcionou entre o fim da década de 40 e o início dos anos 80 e durante muito tempo teve aulas em iídiche. Hoje, o espaço oferece atrações culturais e esportivas. No último andar, que conta com um terraço de onde se avista a Serra da Cantareira, é possível fazer aulas de boxe.

Durante as quase três horas do passeio são reveladas algumas joias da arquitetura paulista pouco conhecidas, como o Edifício Ramos de Azevedo, um dos projetos do arquiteto de mesmo nome, que também concebeu o Teatro Municipal e o Mercado Municipal de São Paulo. Foi nessa imponente construção, onde se encontra mármore de Carraca, madeiras nobres, vitrais deslumbrantes e uma cobertura que lembra as estações de trem francesas, que surgiu a Escola Politécnica de São Paulo.

A poucos metros da antiga Poli, no início da Três Rios, está a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, inaugurada no início do século passado pelos salesianos. Sua arquitetura é resultado de diferentes escolas: torres que remetem a construções toscanas, mosaico bizantino na fachada e, no interior, arcos ogivais característicos do estilo gótico. Após uma curta caminhada, chega-se à atual Oficina Cultural Oswald de Andrade, construção com forte influência neoclássica, inaugurada em 1905 para receber a Escola de Pharmacia e Odontologia de São Paulo.

Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora: torres toscanas, mosaico bizantino e, no interior, arcos ogivais do estilo gótico (Foto: Cristiane Correa)

Vizinhos à igreja e ao centro cultural, multiplicam-se predinhos de dois andares com comércio no térreo, edifícios modernistas com sete pavimentos e casas em vila operárias. Tudo junto e misturado. A cara do bairro.

Palmilhar as ruas do Bom Retiro é também ficar cara a cara com os problemas de São Paulo: lixo nas esquinas, um emaranhado de fios nos postes que enfeia a paisagem urbana e representa risco de choques elétricos, construções históricas mal preservadas e tantos outros.

Acima de tudo, entristece ver a quantidade de desabrigados – muitas vezes famílias inteiras – que ocupam as calçadas. Claro que nenhuma destas mazelas é exclusividade do bairro, mas quando abandonamos o carro, percorremos as vias a pé e observamos a cidade com atenção, tudo isso fica escancarado a nossa frente.

No livro “Caminhar – Uma filosofia”, o professor francês Frédéric Gros, afirma que “caminhar nas vias públicas supõe uma perambulação que permite realizar microdescobertas sobre a diversidade do gênero humano e o comportamento de nossos semelhantes”. Para sorte do Bom Retiro e de quem por ali caminha, a maior parte dessas microdescobertas é encantadora.

* Cristiane Correa é autora de “Sonho Grande”, membro do Comitê ESG do Grupo Fleury e já caminhou mais de 1.500 quilômetros pelas ruas da capital paulista desde o início da pandemia

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