A “ponte aérea” EUA e Brasil que já movimentou R$ 1 bilhão

Fundada no ano passado para facilitar a transferência de dinheiro recebido no exterior por startups, a Trace Finance quer dobrar o número de clientes neste ano e espera movimentar R$ 2,5 bilhões

0
0
Leia em 4 min

Ainda que o fluxo de dinheiro de investidores para startups não esteja tão intenso como no ano passado, o empreendedor que capta com gestoras internacionais encontra uma série de obstáculos para lidar com o capital. A maior dificuldade está em trazer os recursos para o Brasil.

Fundada no ano passado, a Trace Finance quer resolver esta dor. A fintech que captou R$ 22 milhões em fevereiro deste ano anunciou com exclusividade ao NeoFeed que já conseguiu transferir mais de R$ 1 bilhão para seus clientes no Brasil e na América Latina a partir do dinheiro que é recebido por essas empresas fora de seus países de origem. A meta é aumentar a cifra para R$ 2,5 bilhões até o fim do ano.

Este dinheiro vem de aportes e de pagamentos que são recebidos por empresas brasileiras nos EUA e vice-versa. Por exemplo, a startup brasileira Noh, que também opera no mercado financeiro, captou US$ 3 milhões junto a gestoras internacionais em outubro do ano passado. Para transferir este dinheiro para o Brasil, a companhia utilizou os serviços da Trace Finance.

Para entender melhor: há um processo burocrático e caro para que o dinheiro recebido em uma conta internacional seja transferido até uma conta bancária brasileira. O método mais utilizado pelos empreendedores consiste em movimentar o valor através de estruturas financeiras internacionais até o Brasil. Mas o processo é lento e pode ser custoso, mesmo que evite a maior parte das taxas.

“Reduzimos o spread de 4% para 0,2%, em média”, diz Bernardo Brites, CEO e cofundador da Trace Finance ao lado dos sócios Rafael Luz e Leone Parise em entrevista para o NeoFeed. O empresário conta que também consegue reduzir custos para os empreendedores ao não cobrar valores que geralmente são pagos para advogados produzirem os documentos necessários para viabilizar as transações.

Com taxas baixas, o plano da Trace Finance neste momento consiste em aumentar sua base de clientes. Para isso, a empresa reduziu suas margens de receita para ganhar dinheiro apenas no spread cambial. “O câmbio é uma porta de entrada para a aquisição de usuários”, diz Brites. “Estamos focados em aumentar a base para monetizar lá na frente. Este vai ser só o primeiro serviço que a gente tem.”

A companhia não revela quais serão os próximos serviços que a empresa vai atuar, mas Brites diz que pretende “lançar um banco global para as startups no futuro” e terá um cartão de crédito. “Vamos conseguir bancarizar toda a estrutura dos clientes no exterior”, afirma, sem dar mais detalhes sobre a operação.

A Trace Finance não é a única empresa que trabalha neste sentido. Em fevereiro, o empresário Brian Requarth, cofundador do VivaReal e CEO da operação até a venda da empresa para a OLX, também mostrou apetite neste mercado quando lançou o serviço Latitud Go. Entre outros fins, a solução é voltada para facilitar e baratear a captação de investimentos por empresas brasileiras.

Leone Parisi, Bernardo Brites e Rafael Luz, cofundadores da Trace Finance

Outra concorrente é a Kamino, que tem entre seus fundadores Benjamin Gleason, ex-Guiabolso. Nesta, no entanto, o foco vai além de criar uma estrutura legal fora do Brasil para facilitar os investimentos. Para se diferenciar, o plano é disponibilizar crédito para os empreendedores até que o dinheiro dos aportes seja, enfim, liberado após o processo cambial.

Para enfrentar a competição, em fevereiro deste ano, a Trace Finance captou R$ 22,3 milhões numa rodada seed liderada pela HOF Capital, gestora que já investiu em empresas como Stripe, SpaceX e Uber. A rodada teve a participação de outros investidores, como Circle Ventures, Mantis Ventures, além da 2TM (holding do Mercado Bitcoin).

Com 80 clientes, a fintech tem meta de aumentar este número para 150 neste ano. A carteira atual conta com empresas como The Coffee, Conta Simples, Flash Benefícios, Gringo, Big Bets e Noh.

A startup não abre muitos números de sua operação, mas, segundo seu fundador, o negócio “é praticamente breakeven”. Em termos de receita, o empreendedor diz que a startup cresceu cinco vezes desde fevereiro.

Para que o negócio deslanche, a companhia depende das condições do mercado de investimentos em startups. Quanto mais dinheiro estiver saindo de investidores em direção a empresas de tecnologia, um número maior de potenciais clientes entram no radar da startup.

O cenário atual, no entanto, traz mais perguntas do que respostas para empresas que dependem da movimentação financeira intensa de fundos para empresas. Além da queda no valor aportado em startups neste ano, os termos para o recebimento de capital também ficaram mais duros.

Para Brites, este é um movimento natural e esperado no mercado. “Há uma correção de valuation, porque o que estava acontecendo no ano passado beirava a loucura”, diz. “O que estamos vendo é que os fundos maiores de venture capital estão mais rigorosos e seletivos, mas os fundos estão captando e grande parte do dinheiro ainda não foi alocado.”

Leia também

Brand Stories