A redescoberta de Itata, a primeira região vinícola do Chile

Videiras antigas estão sendo recuperadas em área afetada por terremoto na década de 1930 e gerando vinhos surpreendentes. Gonzalo Guzman, Pedro Parra e François Massoc são alguns dos visionários que estão resgatando o passado da região de Itata

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Guarilihue, área da precursora De Martino, é uma zona de encosta granítica mais próxima do Pacífico

A história não é inédita, mas o terroir sim. Assim como o Priorato (Espanha), o Bierzo (Espanha) ou Swartland (África do Sul), o Vale do Itata, a 500 quilômetros ao sul da capital Santiago, no Chile, está sendo redescoberto.

Todas estas áreas têm em comum vinhedos antigos com grande potencial qualitativo, que estavam em estado de semiabandono, e que estão sendo recuperados por enólogos renomados e empreendedores.

No caso de Itata, foi um terremoto em 1939 que abalou a região e provocou uma migração para Santiago e arredores. As videiras resistiram e sobreviveram com manutenção precárias dos moradores remanescentes.

Gonzalo Guzman, Pedro Parra e François Massoc são alguns dos profissionais que hoje colocam seus brancos e tintos de Itata em pé de igualdade com os tradicionais cortes bordaleses produzidos no Maipo, principal referência quando se pensa em vinho chileno.

A primeira vinícola de porte a chegar a Itata e colocar uma roupagem “moderna” nos, até então, rústicos tintos feitos com as variedades País e Cinsault, foi a De Martino. A primeira safra do De Martino Viejas Tinajas Cinsault foi 2011 (importado pela Winebrands, safra 2020).

Foi um paradoxo, uma vez que em sua sede no Maipo, a vinícola adotava variedades e o modelo francês de enologia. A partir de Itata, ela rompeu com essa cartilha e passou a criar vinhos leves, frescos e com menor uso de barricas de carvalho.

O enólogo de então era Marcelo Retamal, até hoje um dos mais respeitados no Chile. Na época, a De Martino conseguiu comprar em Itata um vinhedo de 19 hectares em Guarilihue, zona de encosta granítica mais próxima do Pacífico, a 20 km da costa.

“Isto é algo impensável hoje”, diz o enólogo Gonzalo Guzman ao NeoFeed.
“A cultura da viticultura camponesa é muito forte e antiga na região. Não encontramos um vinhedo de grande extensão hoje em Itata para se comprar.”

Guzman deixou a vinícola El Principal, no Maipo, onde também seguia a escola francesa com a consultoria de Patrick Leon (Mouton Rothschild) para empreender em Itata em 2020.

Para ele, três fatores foram determinantes para colocar suas economias na vinícola chamada G2. O clima da região é mais fresco e com mais chuvas que no Maipo, o que permite vinhos mais frescos e elegantes, conforme o mercado tem se direcionado.

“Em 2020, no Maipo, tivemos cerca de 100 milímetros de chuva no ano todo, o equivalente a apenas dois temporais do verão brasileiro, enquanto em Itata tivemos cerca de 500 milímetros; abaixo da média histórica, mas suficiente para produzir uvas com qualidade.”

Na região é possível encontrar videiras de quase 100 anos

O segundo ponto é o solo granítico, que retém água suficiente para as videiras e ainda consegue aportar estrutura e taninos interessantes aos vinhos.

O terceiro fator, e considerado o mais importante para Guzman, é a cultura do vinho em Itata. “Foi a primeira região a cultivar vinhedos e produzir vinhos no Chile, desde o século XVI.”

Por isso, as pessoas sabem manejar um vinhedo e é possível encontrar videiras com mais de 50 anos de idade (chegando a mais de 100 anos) com alguma facilidade. “Faltava para os moradores locais a técnica para vinificar e conhecimentos comerciais.”

As primeiras garrafas de sua produção, que não deve ultrapassar 900 unidades por rótulo, estão previstas para chegar ao mercado brasileiro em março, pela Decanter.

Com esta visão de aportar a técnica de vinificação, o enólogo franco-chileno François Massoc arrematou em um leilão a estrutura de uma vinícola desativada em Itata, com capacidade para produzir um milhão de litros.

Massoc trabalhou em diversos países e de forma mais notável foi enólogo na recente e cultuada fase do Domaine du Comte Liger-Belair, em Vosne-Romanée (Borgonha). Ao retornar ao Chile, foi responsável por alguns dos mais premiados vinhos chilenos, entre eles o Aristos Duquesa D’A Chardonnay 2008 (R$ 1.255, safra 2011, na Mistral), vinho que recebeu a nota perfeita (100 pontos) da publicação inglesa Decanter.

Massoc: projeto para uma incubadora de vinhos

Em Itata, sua proposta é funcionar como uma incubadora de novas vinícolas. Ali ele tem espaço para prestar sua consultoria em enologia, alugar tanques com linha completa de engarrafamento e em muitos casos, os viticultores acabam pagando com uma parte da produção.

Uma vez que a cultura local tem resistência à ideia de vender a terra, o caminho é arrendá-la ou simplesmente comprar a produção. Os vinhos de Massoc Frères têm como foco as tintas Cinsault e País, além da branca Moscatel, e ainda não estão disponíveis no Brasil.

Massoc é ainda consultor de outra vinícola de sucesso na região, a Pandolfi & Price. Seu Larkün Chardonnay (R$ 267, safra 2018, na Winebrands) já foi associado a uma expressão de Chablis do hemisfério sul pela crítica britânica e Master of Wine Jancis Robinson.

O trabalho mais profundo e já uma realidade tem sido feito por Pedro Parra. O já consagrado especialista em geologia associado à vitivinicultura é consultor de projetos de primeira linha por todo o mundo, o que inclui Roulot (Meursault, Borgonha), Biondi-Santi (Montalcino, Itália), Comando G (Espanha), M. Marengo (Piemonte, Itália) e Garzón (Uruguai), entre muitos outros.

Em sua nativa cidade de Concepción (em Itata) fundou a vinícola Pedro Parra y Familia em 2013. Grande apreciador de jazz, batizou boa parte de sua linha de vinhos com grandes músicos do segmento, como Newk, Monk e Trane (importados pela World Wine).

Após tantas consultorias prestadas pelo mundo, Parra concluiu que até 2016 se equivocou na interpretação das uvas de Itata. “Tinha uma visão da enologia da Borgonha para fazer meus vinhos em Itata e não era esse o caminho.”

Parra batizou parte de linha de vinhos com nomes de músicos do jazz como Newk, Monk e Trane

A inspiração que julga acertada veio de sua consultoria com o projeto Comando G, que produz alguns tintos com Garnacha em solos parecidos com o de Itata (granito).

“Passei a fazer extrações mais delicadas, sem pigeage ou remontagem”, técnicas para se misturar as cascas com os líquidos para maior extração das uvas.

Apesar da inspiração espanhola com a Garnacha o resultado é bastante elegante, como um borgonha. Seu Parra Hub 2019 (R$ 369, World Wine) é um grande exemplo, 100% Cinsault, de coloração clara, nariz etéreo e frescor exemplar. “Busco sempre a drinkability em meus vinhos”, disse Parra.

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