Alanis Morissette, refém de sua própria obra?

Documentário da HBO Max resgata quem era a cantora canadense em 1995, ano de lançamento do álbum “Jagged Little Pill”, que vendeu 35 milhões de cópias e marcou a carreira dela e de outras grandes cantoras. Até hoje, ela não conseguiu repetir o sucesso

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Alanis Morissette quando lançou Jagged Little Pill, em 1995

Com o álbum “Jagged Little Pill” (1995), o rock alternativo de Alanis Morissette alcançou o cenário “mainstream” da música. O disco conseguiu conquistar o grande público, vendendo cerca de 35 milhões de cópias ao redor do globo, tornando-se um dos campeões de vendas da história.

Aquela “raiva feminina”, como a própria cantora define, expressada em letras sinceras e um tanto agressivas, foi o que mais impactou. E fez da canadense de Ottawa uma das mulheres mais influentes da música – em época em que os homens dominavam o rock alternativo.

Capturar o momento em que Alanis, então com 21 anos, ganhou o mundo, com relatos pessoais e emocionais sobre relacionamentos e inseguranças, é o que o documentário “Jagged” se propõe a fazer.

Um dos destaques do último Festival Internacional de Cinema de Toronto, o TIFF, o longa-metragem tem exibição na próxima semana no DOC NYC. No Brasil, sua estreia ainda não foi definida, mas já tem distribuição garantida, pela plataforma HBO Max.

O filme coincide com a turnê comemorativa de Alanis para celebrar os 25 anos de “Jagged Little Pill”, lançado em 13 de junho de 1995 e impulsionado por sucessos como “You Oughta Know”, “Hand in My Pocket”, “Ironic”, “You Learn’’ e “Head Over Feet’’, entre outros. A turnê deveria ter sido realizada no ano passado, mas precisou ser remarcada em função da pandemia.

“Com o documentário temos a chance de apreciar melhor o que o disco representou na época do lançamento”, contou a cineasta Alison Klayman, durante evento online do TIFF, do qual o NeoFeed participou. Ela tinha apenas 12 anos quando “Jagged Little Pill” chegou às lojas. “Foi o primeiro disco que eu comprei”, disse a cineasta, segurando o CD, que ainda guarda.

O documentário é estruturado em longa entrevista realizada por Alison com a cantora, no ano passado, na Califórnia. A participação de Alanis, no entanto, não significa que a artista, hoje com 47 anos, ela tenha aprovado o resultado.

Alanis se decepcionou com o destaque que uma de suas confissões ganhou na produção. Ela revelou, durante a entrevista, ter sido vítima de estupros aos 15 anos. “Na terapia, levei anos para admitir que houve qualquer tipo de vitimização da minha parte. Eu sempre dizia que estava consentindo”, contou ela no filme, lembrando que seus terapeutas sempre assinalavam que “quando você tem 15 anos, você não está consentindo”.

“Esta não foi a história que concordei em contar. Topei participar de uma obra comemorativa do 25º aniversário de ‘Jagged Little Pill’”, escreveu Morissette, no comunicado. Ela acrescentou que foi entrevistada em “período muito vulnerável”, durante a sua terceira depressão pós-parto, em plena pandemia.

“Fui enganada por uma falsa sensação de segurança. A agenda lasciva ficou evidente assim que vi o primeiro corte do filme. Foi quando percebi que nossas visões eram dolorosamente divergentes”, completou a artista.

Em sua defesa, a diretora do filme comentou que “Jagged Little Pill” sequer foi abordado no primeiro dia de entrevista com a cantora. O disco só entrou na conversa no segundo e último dia de filmagem. “A ideia sempre foi olhar mais profundamente para o que o disco significou para Alanis, o que inclui quem ela era naquele momento de sua vida”, afirmou Alison.

Mais conhecida pelo documentário “Ai Weiwei: Never Sorry” (2012), sobre o artista e ativista chinês, a cineasta reforça que Alanis tinha apenas 19 quando escreveu as canções emocionais, algumas em tom de raiva, do álbum. “Também era importante recapitular o que ela já tinha vivido até aquele momento”, contou Alison.

O desentendimento entre a diretora e a cantora não diminui a relevância de “Jagged Little Pill”, que até inspirou um musical na Broadway, em 2019, com roteiro original assinado por Diablo Cody. A obra figura na 69ª posição na lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos da revista “Rolling Stone”, revisada em 2020.

Relançado duas vezes, em 2015 e 2020, “Jagged Little Pill” foi indicado a nove prêmios Grammy em 1996, ganhando cinco. Entre os troféus, estava o de melhor álbum do ano, o que tornou Alanis, então com 21 anos, a cantora mais jovem a conquistar a estatueta principal. Taylor Swift, que admite ter sido influenciada pela canadense, superou Alanis em 2010, ao levar o prêmio por “Fearless”, aos 20 anos.

O mérito de Alanis foi ter provado que existia mercado na música para confissões amargas de mulheres complicadas e com relacionamentos malsucedidos. O que também ajudou o disco a emplacar comercialmente foi o polimento feito por Glen Ballard, produtor e compositor que já tinha colaborado com Michael Jackson nos álbuns “Thriller” (1982) e “Bad” (1987). Ballard trouxe a sensibilidade pop à ferocidade de Alanis, mais associado ao rock alternativo.

Tanto o documentário quanto a turnê de “Jagged Little Pill” colocam Alanis novamente sob os holofotes, o que seus últimos álbuns não conseguiram fazer. Isso vale para “Havoc and Bright Lights” (2012), seu oitavo disco, e “Such Pretty Forks in the Road”, seu nono e último trabalho, lançado no ano passado.

Com críticas mistas, nenhum deles conseguiu ser a grande volta de Alanis, sobretudo para uma artista tão relevante para a indústria da música como ela já foi. Considerado até hoje um hino feminista, “Jagged Little Pill” continua impactando as mulheres, uma geração após a outra, ajudando a empoderá-las com a música.

O disco ainda abriu caminho para cantoras das gerações seguintes. Katy Perry, em seu documentário “Part of Me” (2021), contou que o disco da canadense “mudou sua vida”. “Após ouvir as letras pessoais e cruas de Alanis, comecei a colocar na música tudo o que eu vivia na minha adolescência”, disse Katy, de 37 anos, dez anos a menos que Alanis.

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