Insiders

ARTIGO: Como será contada a nossa história recente?

Quem sabe a American Pie, em 2020, seja reescrita para entoar que estamos, pela primeira vez em muitos anos, no caminho certo

 

Festival de Woodstock, em 1969, foi um marco na revolução cultural

Enquanto meu marido explicava para meus filhos as várias mensagens de uma das canções mais marcantes da música pop, eu ouvia American Pie com a esperança de que, com os recentes acontecimentos, possamos aprender algo e fazer diferente.

Quando Don McLean escreveu American Pie, em 1971, construiu uma narrativa enigmática revelada, por ele mesmo, quase 45 anos depois. E confirmou o olhar crítico e saudosista diante da perda da inocência ao longo das décadas de 50, 60 e 70.

Em American Pie, McLean se refere aos assassinatos de John Kennedy e Martin Luther King, ao festival de Woodstock e a chegada do homem à Lua.

Eram tempos de revoluções e conquistas, mas também de angústia e de polarização, tanto quanto o atual, motivados por economias em frangalhos, pós Segunda Guerra, e um clima constante de tensão, com as ameaças nucleares durante as décadas da Guerra-Fria.

Naqueles anos, o medo era um sentimento compartilhado, como se não houvesse lugar seguro, algo que aprendemos ou relembramos amargamente, nos últimos meses. Se, em 1971, a vida parecia menos idílica, seguindo, como expressou o próprio McLean, na direção errada, o que dizer de 2020?

O ano de 2008 e a crise econômica mundial desencadeada pela bolha imobiliária americana ainda estão frescos na memória. E pouco tempo depois nos encontramos, novamente, às margens de um novo ciclo de ruptura, ainda mais desafiador. Porque estamos colhendo o que plantamos nos últimos 12 anos. Desigualdade! O que torna mais complexo o combate à Covid-19 e o desenho de um futuro digno para todos.

O historiador econômico, Adam Tooze, escreve em seu livro “Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World”, que as decisões para recuperar a economia, em 2008, aprofundaram a separação entre ricos e pobres pelo mundo e nos levaram a uma crise política e geopolítica, com a ascensão de extremistas e de partidos nacionalistas assumindo posições de poder na América e na Europa.

Sem ousar comparar o momento atual e as perdas de milhões de vidas, nos vemos, mais uma vez, sentados sobre uma bomba relógio econômica

Sem ousar comparar o momento atual e as perdas de milhões de vidas, nos vemos, mais uma vez, sentados sobre uma bomba relógio econômica, com endividamento público, desemprego, uma população sem qualificação profissional e acesso digital, profissionais essenciais mal remunerados, além de outros gaps que se aprofundaram. Tudo indica que é hora de parar e respirar.

O Fórum Econômico Mundial se adiantou no chamado para o Reset do Capitalismo, tema do seu tradicional encontro de começo de ano, em 2021. O esgotamento do modelo econômico que dá sentido à nossa forma de viver e de nos relacionarmos, nas diferentes esferas, emite holofotes de alerta há alguns anos. E está nas mudanças climáticas a força dos argumentos de investidores ao exigirem negócios que cuidem das externalidades, e atuem em colaboração para criar mercados em sintonia com um futuro mais inclusivo e justo.

Exemplo recente é o da BlackRock, maior gestora do mundo, ao punir 53 empresas por não demonstrarem progresso nas ações para reduzir o aquecimento global. Entre elas a Volvo e a ExxonMobil. Depois de acusada de omissão, a BlackRock se posicionou e cumpriu a advertência feita às investidas por não compliance com questões climáticas.

A gestora votou contra a reeleição dos diretores dessas empresas. E, para citar outro movimento de pressão positiva, vale lembrar o pedido de empresários e de investidores, nacionais e internacionais, para que o governo brasileiro se movimente pela preservação da Amazônia e pelo fim das queimadas – com número recorde este ano.

A sensação é que, independentemente da crise, adotamos, até agora, as mesmas velhas ferramentas para resolver nossos problemas. Talvez seja o momento de refletirmos sobre novas coalizões, nacionais e globais, que se debruçam sobre desafios atuais com um olhar fresco, diverso e comprometido com o futuro, o nosso futuro interconectado com o do planeta.

Felizmente, há uma movimentação intensa neste caminho, que mostra ser possível construir prosperidade inclusiva, de longo prazo, a partir do fomento de novos mercados, mais verdes, renováveis e com olhar para o que é viver com dignidade. A Covid-19 é o nosso grande teste e a chance de fazer melhor e incluir. Quem sabe a American Pie, em 2020, seja reescrita para entoar que estamos, pela primeira vez em muitos anos, no caminho certo.

*Luciana Antonini Ribeiro é sócia-fundadora da EB Capital

Siga o NeoFeed nas redes sociais. Estamos no Facebook, no LinkedIn, no Twitter e no Instagram. Assista aos nossos vídeos no canal do YouTube e assine a nossa newsletter para receber notícias diariamente.

Leia também

UM CONTEÚDO:

NEOFEED REPORT

Baixe o relatório “O mapa de ataque das grandes empresas”

VÍDEOS

Assista aos programas CAFÉ COM INVESTIDOR e CONEXÃO CEO