As muitas independências do Brasil além de 1822

Livro “O sequestro da Independência – Uma história da construção do mito do Sete de Setembro” defende que a emancipação brasileira de Portugal passou por conflituoso processo em outras regiões do país e que teve diversos atores, com destacada presença feminina

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A elaboração lenta do imaginário do 7 de Setembro tendeu a dar quase que exclusividade à tela de Pedro Américo como o “fiel retrato” da Independência

7 de Setembro deste ano – daqui a pouco mais de um mês – promete ser uma comemoração, capaz de tocar fundo na alma patriótica dos brasileiros de todas as correntes ideológicas. Mesmo com o clima eleitoral hostil contra a democracia.

Nesse dia, completam 200 anos do dia em que Dom Pedro deu o famoso grito com a espada em punho “Independência ou morte” e libertou o Brasil de Portugal. O ponto alto da celebração será a reabertura do Museu do Ipiranga, em São Paulo, fechado para reforma há mais de uma década. Mas foi assim mesmo que tudo aconteceu?

Ora, vá dizer aos baianos que o 7 de Setembro é a data da independência do país e ouvirá de volta um sonoro “oxe, que papo é esse?”. Pois é, para os baianos, a Independência do Brasil aconteceu de verdade na Bahia, em 2 de julho de 1823, quando as tropas vitoriosas adentraram Salvador. Para os maranhenses, a história é outra.

Se é assim, por que desde sempre se aprende na escola que a primeira data é a correta? Mas, um novo livro, às vésperas da data comemorativa, promete jogar água na feijoada dos celebrantes. E de um modo bastante convincente, diga-se.

Ilustrado com dezenas de telas, cartuns, charges e tiras em quadrinhos em cores sobre a data oficial, O sequestro da Independência – Uma história da construção do mito do Sete de Setembro, de Carlos Lima Junior, Lilia M. Schwarz e Lúcia Klück Setup (Companhia das Letras, 512 páginas) é um daqueles estudos que conseguem fundamentar questionamentos históricos sem cair na apelação, na suposição, na invencionice ou mesmo na mentira.

Além disso, tem uma narrativa instigante e reveladora sobre uma espécie de lado B de nossa história. “Foram muitos os ‘gritos’ proferidos por negros e indígenas que compuseram os batalhões, por mulheres que também pegaram em armas, em diferentes localidades do vasto território nacional, em prol da independência política do Brasil”, escrevem.

“Foram muitos os ‘gritos’ proferidos por negros e indígenas que compuseram os batalhões, por mulheres que também pegaram em armas, em diferentes localidades do vasto território nacional, em prol da independência política do Brasil”

A obra busca colocar os pontos nos “is” dessa história. Ou bagunçar o que é oficial. Ainda bem. Os autores propõem uma revisão a “contrapelo” desses mitos fundadores da nacionalidade, “que vêm sendo vagarosamente elaborados e num crescente desde o século XIX até o momento atual”.

Recomendam que é preciso, pois, “ouvir os disparos” dos canhões ressoando no Maranhão, ainda em 1825; dar importância à insurgência ocorrida na Bahia até 1823; lamentar as mortes em campo de batalha no Piauí e na Cisplatina, estranhar a demora em vingar a versão de que a Independência ocorrera de fato no Ipiranga “e assim narrar outra história, que não apaga conflitos e traumas, mas os ilumina”.

Para trocar em miúdos, houve sim resistência portuguesa nesses estados e sangue escorreu das baionetas e cobriram o solo de um Brasil sem dúvida heroico. “E que anota e dá valor à emergência de outras identidades e subalternidades que se apresentam e insurgem nesse momento. Identidades que se formam na e a partir da diferença que reivindicam”.

O que aconteceu em São Paulo foi, dizem eles, antes ponto de partida ou de meada, mas não de chegada, “desse longo caminho que culmina na separação política entre Brasil e Portugal e na construção de uma autonomia de direito e de fato”.

Para discutir esse ponto de vista, eles se apoiam, em especial, nas imagens ícones que passaram a ocupar o imaginário popular sobre a Independência. O mais famoso, claro, é o quadro de Pedro Américo – aquele em que Dom Pedro está sobre o cavalo, levanta a espada e grita “Independência ou morte” às margens do riacho Ipiranga –, que ocultaria tantas outras interpretações visuais possíveis, inclusive de protagonistas que não foram alçados, em retratos e bustos, ao panteão de heróis. Os “vultos da pátria” são sempre homens brancos e provenientes das elites brasileiras.

Uma das passagens de destaque é o que narra a história desse quadro, finalizado em 1888. A pintura em óleo sobre tela, tem um tamanho que impressiona: 4,15 metros de altura por 7,60 metros de cumprimento e pertence ao Museu Paulista da USP. Portanto, foi feito mais de seis décadas depois do 7 de Setembro. E fez parte do projeto grandioso de se fazer um museu sobre o episódio que levou décadas para ser realizado.

O que aconteceu em São Paulo foi antes ponto de partida, mas não de chegada, “desse longo caminho que culmina na separação política entre Brasil e Portugal e na construção de uma autonomia de direito e de fato”

Os autores explicam ainda nos demais capítulos a quem pertence o “brado retumbante”, dedicam-se a explicar São Paulo e Rio de Janeiro na disputa pelo Centenário da Independência em 1922 e analisam os 150 anos da Independência durante a ditadura militar, comemorados em 1972.

Até chegarem ao 7 de setembro de 2021, talvez o momento mais tenso da história do país nos últimos 40 anos, quando um movimento foi articulado para transformar as celebrações em um ato para fechar o Supremo Tribunal Federal. “No governo de Jair Bolsonaro, destaca-se um movimento ainda mais radical e ideológico diante da narrativa pátria”, escrevem os autores.

Nessa construção, a tela de Pedro Américo “aparece como a tradução perfeita do protagonismo para os heróis europeus, sendo que o povo — representado pelos africanos e indígenas — ganha sempre um lugar passivo”.

O sequestro da Independência dá atenção especial aos símbolos pátrios, em lugar de tomá-los como meros adereços. Inquire não apenas sobre “a eficácia simbólica do poder político”, retomando a máxima do filósofo e sociólogo Émile Durkheim, como também acerca da “eficácia política do poder simbólico”.

Para os historiadores, a manipulação e a posterior cristalização desse tipo de memória nacional deveram muito a documentos de época que pretendiam engrandecer o momento e relegar os incidentes a segundo plano, a uma série de narrativas lineares e evolutivas que faziam do incerto, o certo, mas, igualmente, a várias imagens oficiais apresentadas sob a forma de pinturas, gravuras, litografas ou esculturas, e produzidas ao longo dos séculos XIX e XX.

A elaboração lenta do imaginário do 7 de Setembro, afirmam, tendeu a selecionar e dar quase que exclusividade à tela de Pedro Américo como o “fiel retrato” da Independência — com o tempo transformada em cartazes, selos, moedas, pôsteres, bronzes, de maneira a “naturalizar” uma certa narrativa”. O seu bicentenário é um momento propício para fazer uma revisão desse fato tão importante. Mesmo que isso não agrade aqueles que se identificam como patriotas.

SERVIÇO:
O sequestro da independência – Uma história da construção do mito do Sete de Setembro
Autores: Carlos Lima Junior, Lilia M. Schwarz e Lúcia Klück Setup
512 páginas
Companhia das Letras
R$ 99.90

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