Insiders

Como Hollywood pode de fato ajudar no combate à crise climática?

Como os filmes-catástrofes e os documentários fazem pouco pela conscientização, roteiristas e produtores apostam em dar dimensão mais humana às consequências, mostrando como as mudanças climáticas afetarão o amor e a família

 

Cena do filme Tempestade: Planeta em Fúria. Hollywood quer fugir dessas catástrofes

Chega de fantasia apocalíptica hollywoodiana. Destruir o mundo nas telas, nos chamados filmes-catástrofe ou nas séries de TV, pouco ou nada ajuda na crise climática. Documentários carregados de projeções científicas alarmantes também provaram eficácia limitada no esforço pela conscientização sobre a emergência ambiental.

Se a indústria do entretenimento quiser provar que leva mesmo a sério a ameaça global, precisará contar histórias íntimas que dão dimensão pessoal e humana aos efeitos das mudanças sofridas pelo planeta. “Extrapolations”, série que o roteirista e produtor Scott Z. Burns desenvolve atualmente para a Apple TV, segue nessa direção.

Desta vez, o autor da trama de “Contágio” (2011), thriller de Steven Soderbergh que virou hit em tempos de pandemia da Covid-19, vai deixar a ciência um pouco de lado. “Ninguém sabe o que vai acontecer de agora até o final do século. Mas não adianta mais especular sobre altas temperaturas ou subida do nível do mar”, disse Burns.

Ele tem a autoridade de quem assinou a produção do documentário “Uma Verdade Inconveniente” (2006), em que Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA, alertou para os perigos do aquecimento global. A mesma função Burns desempenhou na continuação, “Uma Verdade Mais Inconveniente”, lançada em 2017, mostrando como algumas previsões do filme anterior estavam corretas.

Em “Extrapolations”, ainda sem previsão de estreia, Burns se propõe a imaginar como as mudanças climáticas afetarão os relacionamentos, o amor, a família e o trabalho. Aqui as pessoas precisarão tomar decisões até sobre como alimentar a família baseadas nos efeitos da crise ambiental.

Um dos episódios mostrará uma família do futuro em busca de orientação com grupo indígena, pelo respeito que eles sempre tiverem ao lidar com os recursos naturais. Isso porque faltam muitas vezes nas narrativas de ficção atuais os efeitos negativos na vida prática, como mostrar famílias que sofrem com o devastamento e os incêndios florestais. Ou mostrar os setores da sociedade que se beneficiam com o atual modelo de produção e consumo.

“Mesmo em luta existencial pelos próximos 80 anos, a humanidade vai querer rir, querer se apaixonar, buscar um sentido para a vida e ter filhos, entre outras coisas. E tudo será ditado pela crise ecológica”, afirmou Burns, durante um evento digital realizado ontem.

Da sala de sua casa, em Los Angeles, para respeitar o isolamento social, o produtor participou do The Hollywood Digital Climate Summit. A conferência que discutiu o papel de Hollywood na crise climática, com transmissão ao vivo, foi organizada pela Universidade de Nova York e pelo grupo Young Entertainment Activists (YEA!).

Burns foi um dos convidados do painel “Rewrite the Future: How Hollywood Can Help Solve the Climate Crisis” (Reescreva o futuro: Como Hollywood Pode Ajudar a Resolver a Crise Climática). Dorothy Fortenberry, roteirista e produtora da série “The Handmaid’s Tale – O Conto da Aia”, também integrou o painel, que teve cobertura do NeoFeed.

“Daqui uns 500 anos, os antropólogos provavelmente dirão que nós assistíamos à série ‘The Walking Dead’, de 2010 a 2020, por ser uma história sobre a crise climática”, contou Dorothy. Isso acontecerá, na visão da roteirista, do mesmo modo como hoje lemos as histórias de vampiros do século 19 e interpretamos que elas ajudavam a população daquele período a lidar com a tuberculose, por exemplo.

“Tratar das mudanças climáticas em narrativas pós-apocalípticas é um jeito de tirarmos das nossas costas a responsabilidade”, disse Dorothy. Assim, pulamos a parte mais difícil e já mostramos “como a nossa vida foi arruinada”. “Não lidamos com o esforço e a luta para que nada disso tivesse acontecido. Partimos do ponto em que não havia mais nada que pudéssemos fazer para impedir. A não ser pegar uma arma e defender a nossa família”, completou a roteirista, rindo.

É por isso que ela prefere a abordagem de sua série, “The Handmaid’s Tale”, atração do Fox Premium e do Globoplay no Brasil. “As histórias mais desafiadoras são as que não apresentam soluções fáceis”, contou Dorothy, indicada como produtora ao Primetime Emmy em 2018. Foi o ano em que “The Handmaid’s Tale” concorreu como melhor série dramática.

“É mais importante mostrar o trabalho da sociedade se organizando contra aquilo que nos deixa com a sensação de impotência”, afirmou. E é justamente o que “Handmaid’s Tale” faz. Baseada na obra da escritora canadense Margaret Atwood, “O Conto da Aia”, a série traz o ponto de vista de Offred. Ela é uma mulher que foi separada de seu marido e de sua filha em um mundo distópico perturbador, principalmente para o sexo feminino.

Vivida pela atriz Elisabeth Moss, a personagem representa a resistência em uma sociedade governada por regime totalitário, em que as mulheres passaram a ser propriedades do Estado. A mulher é cotada aqui pela sua capacidade de engravidar (sobretudo de homens de famílias ricas), já que o mundo enfrenta uma epidemia de infertilidade.

O Estado totalitário por si só teria ligação com o caos ambiental. Uma guerra nuclear teria deixado o planeta com uma radiação incontrolável e com uma poluição tóxica, causando o colapso do ecossistema. Até a carne humana estaria prejudicada, interferindo na capacidade de reprodução.

“Mostramos aqui quem sabia das consequências das mudanças climáticas e tirou vantagem disso no plano político”, afirmou Dorothy. Ela lamenta que Hollywood, de um modo geral, esteja “relutante em nomear, categorizar ou esclarecer” quem são os vilões na cruzada de combate à crise ambiental. Provavelmente porque isso a obrigaria a culpar o capitalismo – pelo menos em parte.

“Neste momento, Hollywood parece tomar muito cuidado para não atacar o sistema financeiro”, disse, lembrando que as histórias de “justiça social” são as preferidas por não representarem um problema nesse sentido. “Quando vemos uma família que deixou de ser homofóbica, por mais que o tema seja importante nos dias de hoje, vale lembrar que isso não abala o mundo em termos estruturais e econômicos”, concluiu Dorothy.

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