Do samurai ao arquiteto: os fios que unem dez gerações de uma família nos negócios e na arte

O Kumihimo, técnica oriental de tecer fios de seda, ganha mostra na Japan House e destaca a importância da continuidade para uma empresa e para a preservação da cultura de um país

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Na Japan House, os visitantes vão conferir representações esculturais do trançado com fio de seda que, no passado, era usado para fechar o traje dos guerreiros

Há 10 gerações ou, para ser mais exato, 370 anos, a empresa japonesa Domyo se dedica ao mesmo ofício: o kumihimo, uma técnica de artesanato que significa “cordas trançadas” em japonês. “Faz parte da cultura japonesa manter a continuidade do que veio do passado”, explicou o diretor da empresa, Kiichiro Domyo, ao NeoFeed. “É muito mais difícil largar toda essa história de 370 anos do que continuar. Eu tenho a missão de seguir nesse negócio.” 

O empresário, de 43 anos, escolheu abandonar o ofício de arquiteto para dar continuidade à empresa tricentenária, com 100 funcionários, que há séculos produz acessórios manualmente usando a técnica de kumihimo para tecer fios de seda. Domyo adicionou à sua missão mais um objetivo: mostrar ao mundo o artesanato milenar e patrimônio imaterial japonês na exposição “Kumihimo”, que abre terça-feira, 24, na Japan House. Kiichiro Domyo está em São Paulo para a inauguração.

A exposição já passou pela Japan House de Los Angeles e, depois de encerrar a temporada em São Paulo ( 24 de maio a 28 de agosto), partirá para Londres. Domyo já tinha apresentado a história do kumihimo em pequenas exposições no Japão e resolveu escrever o projeto no edital de mostras itinerantes da Japan House, instituição de dedicada à difusão da cultura japonesa. 

A exposição é dividida em três partes: presente, passado e futuro. Domyo já tinha pronta a parte referente ao passado. As outras duas foram pensadas com a equipe da Japan House. “Eu nunca tinha trabalhado com profissionais de formações tão distintas que me mostraram possibilidades de utilização de kumihimo que eu nunca imaginei. Foi um momento muito rico de troca de conhecimentos”, conta. 

Entre esses profissionais está o matemático Tomohiro Tachi. Em parceria com a Universidade de Tóquio, ele criou uma instalação que lembra as obras do artista brasileiro Ernesto Neto, que também se apropria de uma técnica artesanal para criar o seu trabalho – o crochê. O trabalho apresenta um uso mais lúdico e abstrato da técnica, que forma uma escultura colorida no espaço.

Em primeiro plano, o trançado desenvolvido em parceria com o matemático Tomohiro Tachi, na exibição de Los Angeles

Outro profissional que criou um trabalho para a exposição foi o estilista japonês Akira Hasegawa. Ele remodelou algumas roupas usando acessórios feitos de kumihimo. O trabalho de Hasegawa resgata o uso utilitário que o artesanato já teve um dia.

Passado longínquo

A origem do kumihimo é incerta, especula-se que ele tenha sido criado entre os séculos V e IV antes de Cristo na Ásia Central, onde hoje ficam países como a China. A técnica deve ter chegado ao Japão por volta do século VI depois de Cristo. A Domyo foi fundada em 1672, durante o período Edo (1603-1868), quando havia muitos samurais – soldados do império japonês. 

Aliás, reza a lenda da família Domyo que a empresa teria sido fundada por um parente samurai que largou sua espada para abrir o negócio. Em seus primeiros séculos de existência, a Domyo utilizava o kumihimo principalmente para produzir acessórios para a indumentária dos samurais, como empunhaduras, bainhas e cintos para espadas. 

Na Era Meiji (1868-1912), os samurais perderam suas espadas e seu poder econômico no país. A Domyo precisou repensar quais produtos poderia fazer com kumihimos. Passou a fabricar mais peças para serem usadas, entre as quais cintos e acessórios para ornamentar e fechar as camisas, calças e casacos. 

“Estamos falando de uma época em que não existia nem zíper nem botões. Era preciso prender as roupas de alguma forma. O kumihimo era muito usado para isso”, explica Domyo. Atualmente, a principal produção da Domyo são acessórios como gravatas, cintos, tiaras, brincos, pulseiras e broches. No entanto, a técnica kumihimo é usada também em setores de tecnologia para encapar fios de carbono, por exemplo. “No futuro, planejamos nos envolver com tecnologia de ponta”, diz o diretor. 

Futuro do presente

Além da fabricação das peças para venda na loja, a Domyo também se preocupa em manter a tradição da produção milenar. Há 50 anos, a empresa mantém uma escola que ensina técnicas de kumihimo. “Se queremos perpetuar essa tradição para o futuro, não podemos deixar o conhecimento apenas nas mãos dos profissionais”, afirma Domyo. 

“É importante que pessoas comuns conheçam as técnicas também. Porque cada um que tiver contato com kumihimo pode passar o conhecimento para as futuras gerações.” Atualmente, a escola tem 400 alunos com idades que variam de 30 a 90 anos. 

Domyo: “O kumihimo nos ensina a ver o belo em pequenos detalhes”

Durante a Era Meiji, em que o Japão viveu um período de modernização, a Domyo começou a produzir pesquisas para recuperar o passado do artesanato no país, a fim de preservar a história do kumihimo e valorizar a técnica. Com base nessas pesquisas que vêm sendo feitas pela família há seis gerações, os profissionais da empresa refizeram peças históricas de diferentes períodos utilizando os mesmos métodos e ferramentas das respectivas épocas. Trinta desses fac-símiles fazem parte da exposição da Japan House. 

“Todas as reproduções presentes na mostra têm a original em algum santuário ou templo no Japão”, explica o empresário. “Fizemos uma reprodução fiel, desde a coloração, tingindo o fio de seda com o mesmo pigmento usado na época. É uma réplica perfeita da original.” 

Com a exposição, Domyo pretende que os brasileiros se encantem não apenas pela técnica, mas também pela beleza da arte produzida pelo kumihimo. “É um trabalho minucioso, que guarda dentro do seu trançado um universo inteiro”, diz. “Espero que as pessoas olhem tanto as peças grandes quanto para as menores e mais delicadas e vejam toda a beleza colocada ali. O kumihimo nos ensina a ver o belo em pequenos detalhes.”

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