Ele faz CEO chorar? O homem por trás da “rehab” de founders do Vale do Silício

Conversamos com Jerry Colonna, fundador da Reboot, empresa de coach que leva chairmen e CEOs às lágrimas e que é conhecida como a “rehab” do Vale do Silício. Entenda por que ele é considerado o “sucessor” do lendário Bill Campbell, o trillion dollar coach

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Jerry Colonna, o fundador da Reboot

Embora Jerry Colonna esteja a 1,6 mil km do Vale do Silício, ele é uma figura presente (e influente) no berço da tecnologia moderna – pelo menos nos bastidores. Fundador da Reboot, uma agência de coaching, Colonna é o homem que guia e aconselha grandes executivos como Chad Dickerson, ex-CEO da Etsy; Alexander Ljung, chairman da Soundcloud; e muitos outros que ele não diz o nome de jeito nenhum.

O portfólio e o trabalho de Colonna, que prefere a tranquilidade da pequena Hygiene, no Colorado, à badalada área nos arredores de São Francisco, rendem comparações ao mítico Bill Campbell, o trillion dollar coach. Falecido em 2016, Campbell foi mentor de Steve Jobs, Larry Page e Marc Andreessen, e foi descrito por adotar um modelo “cheio de testosterona”, enquanto Colonna opta por um modelo de coach mais zen.

As credenciais que levaram Jerry Colonna a aconselhar executivos de alto calibre são mais antigas. Colonna começou sua carreira vendendo anúncios na internet, no início dos anos 1990. Seis anos depois, ele se uniu a Fred Wilson para fundar a Flatiron Partners, uma empresa de venture capital que transformou US$ 150 milhões em US$ 750 milhões em três anos, investindo em startups de internet no começo da era ponto com.

Wilson, inclusive, segue multiplicando dólares com a sua Union Square Ventures, que apostou, logo no início, em empresas como Twitter e Coinbase. Colonna, contudo, deixou os dias de investidor para trás. Quer dizer, pelo menos os investimentos financeiros. Aos 58 anos, o coach americano prefere investir seu tempo em quem está disposto a mudar a si e, consequentemente, o mundo.

Graças às suas conexões e experiência, Colonna e a sua equipe Reboot têm acesso a empreendedores e empresários em diferentes estágios de vida e de carreira. Numa época de alta liquidez, em que startups com poucos funcionários se veem com cheques milionários e a necessidade de escalar, contratar dezenas ou centenas de pessoas da noite para o dia, a busca de jovens empreendedores tem sido cada vez mais comum.

“Agora, no mundo das startups impulsionadas por venture capital, isso virou uma espécie de selo de qualidade: ‘hey, eu tenho um coach. Consegui um investimento e agora tenho um mentor!’”, diz Colonna ao NeoFeed. E prossegue. “Quase noventa por cento de todas as startups que conseguem investimentos de venture capital falham nos primeiros dois anos. Cada um dos seus leitores conhece alguém que falhou, se eles não falharam”, diz ele.

Na sua visão, a falência de uma empresa, por exemplo, não significa uma má liderança, necessariamente. “Quer dizer, podemos, de uma vez por todas, quebrar essa associação? Há um monte de líderes realmente bons que constroem empresas fracassadas. Assim como há um monte de líderes de merda que constroem seis empresas financeiramente bem-sucedidas. Não há a menor correlação entre essas coisas”, afirma.

Sem medo de soar anticapitalista, Colonna critica ainda a ideia de que alguém só precisa de um coach quando chega ao topo. “Todo mundo precisa de apoio e eu faço questão de honrar a coragem de cada um que aceita a vulnerabilidade de pedir ajuda, mesmo que não ganhe dinheiro com isso.”

Essa abordagem humanitária e profunda costuma levar muitos “CEOs” às lágrimas, como descreveu uma reportagem da revista americana Wired. “Chegamos a cogitar seriamente em colocar uma caixa de lenços junto ao livro ‘Reboot’, que lancei em 2019, porque sei que os temas que abordamos fazem quase todo mundo chorar”, diz.

Verter lágrimas é parte do processo. E a Reboot é vista também como uma espécie de “clínica de reabilitação” para empreendedores que choram suas mágoas, suas perdas, suas dúvidas e suas culpas antes de enxergar a luz no fim do túnel. Papo de guru? Exagero? Acompanhe a seguir a conversa com o fundador da Reboot, a rehab do Vale do Silício:

O que, de fato, a Reboot faz?
De uma forma bem ampla, a Reboot é uma companhia de coaching. Isso significa que temos 15 ou 16 coaches trabalhando individualmente com líderes dentro de um sistema particular de crenças.

Que crenças seriam essas?
A melhor maneira de entender esse sistema de crenças é invocando uma frase que eu imortalizei no meu livro: “boas pessoas são bons líderes”. Se quiser pensar nisso de uma outra forma, eu te dou uma equação: habilidades práticas + auto-indagação radical + suporte de pares = excelente liderança ou liderança aprimorada e maior resiliência.

Maior resiliência?
Sim, porque a experiência de ser um líder é muito difícil. Muito, muito difícil. A maioria das pessoas não sabe como contratar uma pessoa, como demitir uma pessoa, como levantar dinheiro, como construir uma empresa – e tudo isso é importante. Agora, se você buscar por soluções e respostas externas, você vai falhar. A solução real está dentro de você. Eu sei que isso tá soando como uma baboseira extraída de um livro mediano de auto-ajuda, mas não é isso. Preciso entender o que me bloqueia de procurar ajuda; preciso aprender como conseguir o conselho certo e como desenrolar os nós – e isso é o sistema de crenças que eu explico.

“A maioria das pessoas não sabe como contratar uma pessoa, como demitir uma pessoa, como levantar dinheiro, como construir uma empresa – e tudo isso é importante”

Como as pessoas chegam até você? Geralmente é “eu estou quebrado, e preciso de alguém pra me consertar”?
Certo, vamos colocar isso no contexto mais amplo do coaching em geral. Há um fenômeno muito importante que está acontecendo nos Estados Unidos. Eu sou coach há 17, 18 anos. E, quando eu comecei, business executive coaching ainda não era uma prática comum. Agora, no mundo das startups impulsionadas por venture capital, isso virou uma espécie de selo de qualidade: ‘hey, eu tenho um coach. Consegui um investimento e agora tenho um mentor!’. Isso é ótimo, porque começamos a lutar contra o estigma que você falou, que coaching é para quem está quebrado.

Para quem é o seu trabalho?
Para todo mundo. O fundamento do coaching é que você não está quebrado, você está bloqueado e precisamos descobrir como te desbloquear para que não precise mais de um coach. Esse fenômeno, pelo menos nos EUA e em alguns países, tem se afastado da ideia de procurar um coach porque as coisas estão dando errado, é mais “vou procurar um coach para ser o melhor CEO que eu posso, então quero ajuda”.

E por que a Reboot é tão conhecida entre os empreendedores e executivos? O que vocês fazem de diferente?
Somos conhecidos por algumas coisas, como os nossos bootcamps, que são iniciativas pontuais, onde auxiliamos esses líderes a pensar e agir de uma maneira mais holística. Mas isso é só 10% das nossas atividades. Normalmente, o que acontece é que as pessoas nos ouvem em um podcast, leem uma entrevista como essa ou consomem o meu livro e dizem: “quer saber, isso é interessante, eu gosto”, e então eles entram em contato e entrevistamos os candidatos para saber se eles precisam de um coach ou de um terapeuta.

Em quais situações você não aprova um candidato?
Às vezes por conta da nossa estrutura de preços ou porque as expectativas são outras. Em alguns casos, as pessoas só querem respostas e chegam tipo ‘me diga como ser um vendedor melhor’ e isso é um caso para um coach de performance, e não fazemos isso. Nós focamos no indivíduo, em entender que, como gosto de dizer, a consciência cognitiva do desafio por si só não cria transformação. Você realmente tem de trabalhar em si. Uma maneira simples de entender isso é que sabemos que fumar cigarros é ruim para nós, e as pessoas ainda fazem isso. Sabemos que não devemos namorar pessoas emocionalmente abusivas, ainda fazemos isso. Só porque sabemos que algo não é bom, não significa que vamos mudar.

“Sabemos que fumar cigarros é ruim para nós, e as pessoas ainda fazem isso. Sabemos que não devemos namorar pessoas emocionalmente abusivas, ainda fazemos isso. Só porque sabemos que algo não é bom, não significa que vamos mudar”

Quanto tempo leva esse processo de coaching?
É uma jornada individual, mas tenho clientes que ficam comigo por alguns meses e outros que estão comigo há anos. Acho que isso é coaching em geral, mas vou dividir algumas experiências pessoais. Tive clientes que comecei a atender em maio e fechamos nosso ciclo em setembro.

Mas qual é a sua metodologia, exatamente?
Eles falam, eu escuto, simples assim. Respondo isso toda vez que me deparo com essa pergunta, porque detesto quando dizem que coaching é um programa, com passo a passo. É uma experiência humana e, como tal, é única. Por isso também é difícil falar da nossa estrutura de preço, porque ela varia muito de acordo com a necessidade, expectativa e entrega de cada um.

E como é que você seleciona os coaches que trabalham contigo na Reboot? O que você procura quando contrata alguém?
Acho importante que cada coach tenha a sua própria voz. Temos um coach que por 40 anos foi um instrutor de meditação, outro que foi CEO de uma empresa de música e é apaixonado pelo setor. Temos um coach que foi CEO de quatro startups impulsionadas por empresas de venture capital. A co-fundadora da Reboot, a Ali, prefere estar cercada de cavalos, e ela traz essa sensibilidade e essa particularidade para o seu trabalho. Para mim, qualquer coach realmente bom tem uma sensibilidade pessoal e uma voz única. Essa é a primeira parte, a outra tem a ver com o contexto da Reboot, que é: você tem que acreditar no poder fundamental dos seres humanos de se transformar e crescer.

E você sentiria que foi um bom coach e que a equipe da Reboot fez um bom trabalho mesmo quando um CEO aconselhado por você falhou ou levou uma empresa à falência?
Com certeza. Quase noventa por cento de todas as startups que conseguem investimentos de venture capital falham nos primeiros dois anos. Cada um dos seus leitores conhece alguém que falhou, se eles não falharam. A falência não significa uma má liderança, necessariamente. Quer dizer, podemos, de uma vez por todas, quebrar essa associação? Há um monte de líderes realmente bons que constroem empresas fracassadas. Assim como há um monte de líderes de merda que constroem seis empresas financeiramente bem-sucedidas. Não há a menor correlação entre essas coisas.

Qual é a sua definição de sucesso?
Precisamos expandir a definição de sucesso para além do retorno do investimento. Eu lhe dei US$ 1, como investidor, você me retorna US$ 3, você é bem-sucedido? E se você fez isso vendendo metanfetamina ou violando os direitos humanos? Isso não é sucesso. Não pela minha definição. Isso é trapaça. As pessoas se fixam no retorno do investimento como uma métrica, assim como medimos se alguém tem ou não sucesso na carreira por quanto dinheiro ganha.

“Precisamos expandir a definição de sucesso para além do retorno do investimento. Eu lhe dei US$ 1, como investidor, você me retorna US$ 3, você é bem-sucedido? E se você fez isso vendendo metanfetamina ou violando os direitos humanos? Isso não é sucesso”

Como você sabe se o seu cliente está pronto?
Sua pergunta me lembra uma conversa que tive no meu podcast com meu professor, Parker Palmer. Ele tem uns 82 anos e eu 58. E tivemos essa conversa de velhos, como velhos sentados em um banco de parque, alimentando pombos. E estávamos rindo porque muitas pessoas nos perguntam “qual é o sentido da vida? Qual é o propósito?” e a gente responde sempre com um “eu fui gentil?”. Você quer saber como saber se uma pessoa é um bom líder ou não? Pergunte quantos líderes essa pessoa formou. Parte do propósito de um negócio deve ser expandir a comunidade e o bem comum. Eu sei que isso é anticapitalista e eu estou pouco me fodendo. Veja, uma abordagem capitalista voraz é aquela que quer transformar hectares da Amazônia em fazendas de gado e tanto faz se tivermos que queimar indígenas pelo caminho. Isso é sucesso? Vai dar dinheiro, mas qual é o custo disso tudo?

A revista Wired fez uma reportagem que diz que sua abordagem sensível faz os CEOs chorarem. É verdade?
Você nem imagina. Vejo lágrimas o dia todo.

Como isso o afeta?
Isso pode ser um baita desafio. Estou acostumado a ver as pessoas chorando, porque eu genuinamente me importo, e porque sou fascinado por seres humanos. Às vezes, porém, isso tudo me transborda e é quando eu preciso me cuidar. Eu voltei há pouco de um período sabático de dois meses. As pessoas precisam entender que é preciso desacelerar e, às vezes, parar por completo. Para o seu próprio bem, para o bem de suas famílias e das pessoas ao seu redor.

“Você quer saber como saber se uma pessoa é um bom líder ou não? Pergunte quantos líderes essa pessoa formou. Parte do propósito de um negócio deve ser expandir a comunidade e o bem comum”

A liderança é para todo mundo? Qualquer um pode ser um líder?
São duas perguntas diferentes. Acredito que todos nós somos chamados a liderar em diferentes momentos da nossa vida. A liderança é, muitas vezes, associada ao poder estrutural, mas nem sempre é assim. Quando você se depara com uma situação, de um furto por exemplo, você pode agir ou não – essa decisão é um exercício de liderança.

Qual seu objetivo? Até onde quer levar a Reboot?
Há um verso de um poeta chamado David Whyte que disse “um bom trabalho é aquele feito pelas razões certas”. Não temos ambição de ser a maior empresa de coaching do mundo. Eu tenho uma tonelada de amigos em empresas de venture capital. Se eu quisesse levantar de US$ 50 milhões, US$ 100 milhões, já teria feito. Poderia ter 100 coaches. O que me importa é o trabalho. Minha ambição é colocar a cabeça no travesseiro e pensar que fiz um bom trabalho.

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