Em Bordeaux, os grandes châteaux jogam uma bomba e “saem de cena”

Nos últimos meses, três dos quatro châteaux com classificação máxima em Saint-Émilion confirmaram que não vão submeter seus vinhos à revisão decenal prevista no comitê de produtores local. Entenda o impacto dessa medida

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No mundo do vinho, alguns rituais são mantidos por décadas para definir a qualidade – e principalmente a fama – da bebida. Um desses costumes é, a cada dez anos, saber quais châteaux terão a pontuação máxima em Sant-Émilion. Mas o tradicional ranking, criado em 1955 e que classifica os grandes vinhos de Bordeaux em “Premier Grand Cru Classé A”, está perto de ser implodido.

No ano passado, os châteaux Cheval Blanc e Ausone, ambos “Premier Grand Cru Classé A”, a categoria mais elevada na pirâmide, decidiram sair do grupo e não participar da revisão prevista para ocorrer em 2022. Além disso, em outubro de 2021, Hubert de Boüard, proprietário do Château Angélus, foi condenado pelo tribunal de Bordeaux.

Ele foi culpado por influenciar no resultado da revisão realizada em 2012 na classificação de St-Émilion. Nesta revisão, Angélus foi promovido da Premier Grand Cru Classé B para a categoria “A”, junto com Pavie. Assim, Cheval Blanc e Ausone, que reinavam sozinhos desde o início da classificação, receberam a companhia dos dois châteaux.

Ainda na revisão mais recente, a categoria “B” foi excluída, existindo hoje apenas 82 vinhos classificados e divididos em “Grand Cru Classé” (64 châteaux), “Premier Grand Cru Classé” (14 châteaux) e “Premier Grand Cru Classé A” (4 châteaux); em ordem crescente de qualidade.

O juiz do caso levou em consideração que, em 2012, Boüard era membro do comitê nacional das denominações de origem da França (INAO) e presidente do sindicato dos produtores “Cru Classé” de St-Émilion. Além de proprietário do promovido Angélus, Boüard é consultor de outros 8 châteaux com classificação Cru Classé em St-Émilion.

O produtor do Angelus já anunciou que não participará da disputa

Mais custosa que a multa de 40 mil euros a que Hubert de Boüard foi condenado pelo tribunal (ainda cabe recurso), são as cicatrizes na reputação do consultor, cuja família está há oito gerações envolvida na produção de vinhos em Bordeaux. Manifestando desgosto e se sentindo injustiçado, Boüard anunciou, na primeira semana de 2022, que o Château Angélus também não participará da revisão da classificação em 2022.

A saída de três dos quatro châteaux melhor classificados do ranking tem um grande impacto para a indústria. Afinal, a classificação é uma ferramenta importante para o trade, especialmente quando se pode balizar o preço frente aos mais caros vinhos de St-Émilion.

O Château Cheval Blanc safra 2006, por exemplo, pode ser encontrado a R$ 13.600 na importadora World Wine e o Château Ausone, também da safra 2006, é vendido a R$ 13.200, na mesma importadora. A empresa é atualmente a que mais importa vinhos de Bordeaux com cerca de 76 mil garrafas em estoque, apenas de vinhos Cru Classé, divididos em 217 rótulos e safras diferentes.

Segundo Juliana La Pastina, presidente da World Wine, a empresa apostou desde seu início, em 1999, nos grandes vinhos de Bordeaux, o que permite ter um bom relacionamento e negociação com as empresas negociantes desses vinhos (boa parte dos cru classé são vendidos por empresas intermediárias, no formato de bolsa de valores).

Apesar do baque, que pode influenciar nos preços e no surgimento de novos ícones, Juliana traz um contraponto à crise da classificação. “Os consumidores desses vinhos têm bom conhecimento, possuem grandes adegas e compram tanto para pronto consumo como para guardar”, diz Juliana. “São pessoas que já sabem a história e qualidade de cada château, além de pesquisarem pontuações e preços. A marca e tradição de cada um contam muito mais”.

Em 2021, a World Wine comprou “en primeur” (modelo de compra antecipado, praticado em Bordeaux) cerca de 42 mil garrafas de Cru Classé, que devem chegar até 2023. “Mesmo já em meio à polêmica das saídas de Cheval Blanc e Ausone, os preços seguiram em alta, reflexo da boa safra na região e alta demanda dos mercados compradores”, disse Juliana.

No entanto os motivos alegados por Cheval Blanc e Ausone para tal movimentação pouco tem a ver com a atuação e condenação de Boüard. Em meados do ano passado, a cúpula de diretores de Cheval Blanc, formada por Pierre Lurton (diretor-geral), Pierre-Olivier Clouet (diretor de enologia) e Arnaud de Leforcade (diretor comercial) manifestou o descontentamento já com a revisão feita em 2012.

Eles dizem que os critérios de avaliação davam muito peso para o marketing feito pelas vinícolas e até estrutura de enoturismo, deixando apenas 15% do peso da avaliação para questões de terroir, viticultura e estrutura de vinificação, o que impacta diretamente a expressão da bebida. Na mesma época, Pauline Vauthier, proprietária de Ausone comentou que o marketing e o enoturismo são fatores positivos, porém a mensuração de um grande vinho se faz através do terroir, viticultura e história.

O conselho de vinhos de St-Émilion, através de seu presidente, Jean-François Galhaud, ainda tentou acalmar os ânimos anunciando que na revisão de 2022 o ranking elevaria a importância da degustação dos vinhos de 30% para 50% como componente da nota final de cada château, e relativizou a questão do terroir e viticultura por não encontrar formas de avaliar.

A medida foi ineficaz, mas Galhaud tenta provar que a reputação do ranking permanece inabalada e que até hoje o INAO já recebeu mais inscrições de vinhos que na revisão de 2012. Mas a largada para a revisão de 2022 será feita apenas com o Château Pavie defendendo a posição de “Premier Grand Cru Classé A”.

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