Em terceiro cheque em um ano, Merama capta US$ 60 milhões e vira unicórnio

Fundada há um ano, a startup que pretende construir uma “Unilever digital” já levantou US$ 445 milhões em três rodadas e passa a ser avaliada em US$ 1,2 bilhão

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Guilherme Nosralla (à esq.) e Renato Andrade, cofundadores da Merama

Na América Latina, os unicórnios estão nascendo cada vez mais cedo. A mais nova empresa a fazer parte do grupo de startups bilionárias é a Merama, uma empresa que nasceu simultaneamente no Brasil e no México, para criar uma holding de marcas, uma espécie de “Unilever digital.”

A companhia está anunciando, nesta quinta-feira, 9 de dezembro, um follow on da rodada série B de US$ 60 milhões junto a Advent e Softbank, que já haviam investido US$ 225 milhões na startup em setembro deste ano. Com isso, a Merama passa a valer US$ 1,2 bilhão.

“O objetivo com esse aporte é aumentar o capital de giro das marcas, financiar o nosso custo operacional e encontrar novos parceiros”, diz Renato Andrade, um dos fundadores da Merama, ao NeoFeed. “Queremos criar marcas do zero e atuar em todos os mercados que a gente vê como importantes.”

Com o aporte, a Merama se torna um dos unicórnios mais rápidos da América Latina, região que tem ganho esses seres mitológicos numa velocidade estonteante nos últimos tempos. No México, a fintech Clara, que acabou de chegar ao Brasil, recebeu uma avaliação bilionária em oito meses. A brasileira Daki, de entrega ultrarrápidas, conseguiu atingir esse patamar em dez meses.

Fundada há um ano por Andrade, Guilherme Nosralia, Sujay Tyle e Felipe Delgado, a companhia já levantou US$ 445 milhões (aproximadamente R$ 2,4 bilhões). Entre os investidores, além de Advent e Softbank, estão Monashees, Globo Ventures, Maya Capital e Valor Capital.

O que chama a atenção dos investidores é o modelo de negócios que já faz sucesso no exterior. Andrade não disfarça que ele e seus sócios se inspiraram na operação da americana Thrasio, que consiste em adquirir companhias que vendem produtos pela internet e impulsionar suas operações com investimentos em marketing, administração e estoque.

A Thrasio ganhou tração no mercado americano ao comprar empresas de comércio eletrônico que operam dentro da Amazon, cujo marketplace é dominante nos Estados Unidos. Foram mais de 200 aquisições desde que a companhia foi fundada, em 2018. Para manter a máquina de M&A em atividade, a Thrasio levantou mais de US$ 3,4 bilhões junto a investidores privados – entre eles, a Advent. E tornou-se unicórnio em julho de 2020.

A Merama tenta replicar esse modelo na América Latina. Com 25 empresas compradas e mais de 30 marcas sob seu comando, a previsão de faturamento é de US$ 300 milhões em 2021. A vantagem é atuar em um mercado ainda em franco crescimento. De acordo com dados da Ebit/Nielsen, mesmo com um crescimento de mais de 41% nas vendas online durante o ano passado, a penetração do e-commerce no varejo brasileiro em 2020 foi de 9%.

É pouco em comparação com outros mercados. Nos Estados Unidos, de acordo com a consultoria Statista, a penetração das vendas online no terceiro trimestre deste ano foi de 13%. Na China, o mercado digital já representa mais de 35% das vendas.

“Made in Latam”

Ainda que o negócio seja baseado num plano criado lá fora, a Merama adaptou a operação para atender as peculiaridades do mercado em que atua. Ao contrário de sua rival americana, a startup opta por comprar apenas uma parte majoritária das empresas em um primeiro momento, tornando-se sócia do negócio e mantendo os fundadores dentro do negócio. O restante da operação só é adquirido num período que pode levar entre dois e quatro anos.

“O empreendedor brasileiro é muito apegado ao negócio e é uma peça estratégica para a gente porque trabalha ao nosso lado para fazer com que o negócio cresça. Ao mesmo tempo, ele ganha desde o dia um porque já coloca o dinheiro da venda no bolso”, diz Andrade.

No checklist para comprar uma empresa, a Merama tem algumas regras de ouro. A primeira é que o negócio deve estar inserido com um canal de vendas no meio digital, mesmo que não esteja num marketplace.

Está também escrito em pedra que as empresas não devem atuar com a produção dos bens. Ou seja, sem fábricas – o que ajuda a reduzir custos e complexidade do negócio.

Um terceiro ponto é geográfico: apenas empresas latino-americanas. O portfólio atual conta com operações no Brasil, México, Chile, Colômbia e Peru – os nomes das empresas não são revelados. Há negócios nos Estados Unidos, mas são exceções e que não devem ser repetir num curto prazo.

O quarto ponto dessa lista é mais flexível e diz a respeito do tamanho das companhias. “Já investimos em empresas com receita de US$ 1 milhão e outra com receita de US$ 200 milhões. O trabalho de diligência é o mesmo”, diz Andrade, que afirma que, na média, o faturamento gira entre US$ 30 milhões e US$ 50 milhões.

Passada a busca e a assinatura de venda de parte da participação, a holding passa a investir para aumentar a escala de negócios daquela marca. O e-commerce é turbinado com uma injeção de capital para aumentar seu estoque, passa a operar em um número maior de marketplaces e tem estratégias de marketing exclusivas para aumentar as vendas.

“O plano para cada e-commerce varia muito. Mas, essencialmente, não deixamos a empresa ter falta de estoque e perder vendas por isso e ajudamos ela a expandir seu negócio para todos os canais online, além de propiciar vendas para o exterior”, afirma Guilherme Nosralia, outro fundador da Merama.

Capitalizada, o próximo passado da Merama consiste em aumentar o número de empresas que fazem parte de seu portfólio. Não há um número final, mas a meta parece não ser atingir os três dígitos, como a Thrasio. “Temos certeza de que não serão 150 ou 200 marcas como modelos europeus e americanos. Deve ser mais próximo de 40 do que de 150”, diz Andrade.

Ainda que a Merama tenha passado por processos rigorosos de diligência de investidores, o crescimento em alta velocidade chama a atenção. Ainda mais para um negócio que sobrevive de comprar outras empresas e integrá-las dentro de uma operação.

“É preciso ter velocidade, não pressa”, diz Douglas Carvalho, analista da Target Advisor, consultoria especializada em fusões e aquisições. Ele afirma que leva tempo para integrar uma operação e fazer os ajustes necessários, com contratações e cortes de funcionários.

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