Galatea: uma nova galeria de arte com “velhos” conhecidos

Tomás Toledo, ex-curador do MASP, e os galeristas Antonia Bergamin e Conrado Mesquita fundaram uma galeria de arte que combina mercado primário com secundário para se capitalizar e revitalizar carreiras de artistas

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O trio Galatea Tomás Toledo, Antonia Bergamin e Conrado Mesquita

Ao terminar de esculpir em marfim a escultura de um corpo de mulher, que chamou Galatea, o artista Pigmalião se apaixonou pela obra. Afrodite, a deusa do amor, comovida com a devoção com que ele tratava a escultura, deu vida a ela para que o casal pudesse viver a relação de afeto. Inspirados na lenda mitológica, o curador Tomás Toledo, 35 anos, e os galeristas Antonia Bergamin, 34, e Conrado Mesquita, 37, fundaram a galeria Galatea, que tem o objetivo de misturar as caixinhas do mercado de arte.

“As galerias geralmente escolhem um nicho para atuar. Ou trabalham com mercado primário ou com mercado de revenda. Não têm uma grande mistura como a que nós estamos nos propondo”, afirma ao NeoFeed Tomás Toledo, que, após sete anos, deixou o Museu de Arte de São Paulo (Masp) para fundar a nova galeria com os dois sócios.

“A Galatea vai trabalhar com esses dois mercados, com artistas de diversos períodos, de grandes nomes da arte brasileira a jovens artistas, passando também pelo resgate dos que foram esquecidos pela crítica.”

Essa também é uma estratégia para a capitalização do negócio. Segundo o curador, algumas galerias de mercado primário têm mais dificuldade de conseguir recursos para ampliar suas operações. “Quando você trabalha com a revenda, existe uma possibilidade de capitalização maior. Com o dinheiro levantado no mercado secundário, podemos financiar o desenvolvimento de carreiras ainda desassistidas de jovens artistas”, explica

Um curador na galeria

Antonia Bergamin e Conrado Mesquita praticamente nasceram dentro do sistema de arte. Bergamin é filha de Jones Bergamin, marchand, colecionador e diretor da tradicional casa de leilões Bolsa de Arte. Ao lado de Thiago Gomide, por quase 10 anos, dirigiu a galeria Bergamin&Gomide (atual Gomide&Co.) com foco no mercado secundário.

Obra de 1974 do artista Chico da Silva que terá uma exposição na estreia internacional da galeria em Nova York

Mesquita é filho do marchand carioca Ronie Mesquita. Juntos, pai e filho fundaram a Galeria Ronie Mesquita, no Rio de Janeiro, especializada em arte brasileira e latino-americana da segunda metade do século 20. Mesquita esteve à frente da galeria por 15 anos.

O estranho – mas nem tanto – no ninho é Toledo. Formado em filosofia, foi levado para o setor de curadoria do Masp por Adriano Pedrosa, diretor artístico da instituição. Toledo trabalhou no museu por sete anos, saindo como curador-chefe.

“Sempre achei interessante a relação da curadoria com o mercado. Já estava no meu plano atuar nesta área depois que terminasse meu momento no campo institucional”, conta. Foi uma conversa com Bergamin para saber quais seriam os seus passos após o fim da sociedade com Thiago Gomide que deixou Toledo interessado por esse projeto que ela havia começado a gestar com Mesquita.

Sua expertise como curador de importantes mostras, como Histórias Afro-atlânticas (Masp e Instituto Tomie Ohtake, 2018) e as últimas Abdias Nascimento: um artista panamefricano (2022) e Volpi popular (2022), vai trazer alguns diferenciais para a Galatea. “Com um curador de fato na fundação e direção, vamos fazer acompanhamento curatorial dos artistas representados. É um diferencial nosso”, afirma.

O vernissage da Galatea será uma individual do artista baiano José Adário, um dos poucos ferreiros de candomblé e umbanda que resistem em Salvador.

Toledo também fará a direção artística do programa de exposições da galeria convidando outros curadores para atuarem na elaboração e organização de mostras. “Não queremos que o espaço tenha uma única visão curatorial. Nossa ideia é agregar o pensamento de outros curadores e outros artistas”, explica.

A programação da Galatea também não será tão apressada quanto costumam ser as de outras galerias do mercado, que trocam de exposição todos os meses. De acordo com o curador, a ideia inicial é ter exposições de média e longa duração para que mais pessoas tenham tempo de visitar. “Um mês não dá conta de todo o investimento feito pela galeria nem do empenho do artista. Decidimos não ser só um lugar de venda. Queremos dar uma contribuição cultural para a cidade”, diz.

Mostrar a quê veio

A sede da galeria, na rua Oscar Freire, em São Paulo, ainda não está pronta – passa por uma reforma que deve terminar no último trimestre. O vernissage da Galatea está previsto para novembro com uma individual do artista baiano José Adário, conhecido como Zé Diabo. O artista é um dos poucos ferreiros de candomblé e umbanda que resistem em Salvador. Ele está na lista de artistas representados pela galeria, ao lado do jovem carioca Allan Weber, cujo trabalho será levado a uma mostra individual do estande da galeria na feira ArtRio, em setembro.

Obra de Allan Weber: mostra individual do estande da galeria na feira ArtRio

Enquanto Adário é um artista já na faixa dos 70 anos que trabalha com processo artesanal para a fabricação de esculturas em ferro, Weber tem apenas 30 anos, trabalhou como entregador de aplicativo e ganhou destaque ao publicar suas fotos mostrando a rotina dos entregadores na edição 20 da revista Zumm, publicação sobre fotografia do Instituto Moreira Salles.

A galeria também fará sua estreia internacional neste ano: vai participar da feira 20th Century, em Nova York, prevista para setembro. Para o début internacional, levará uma exposição monográfica do acreano Chico da Silva (1910-1985). O artista autodidata de ascendência indígena desenvolveu em suas obras imagens das culturas, cosmologias e mitologias indígenas e populares brasileiras.

Toda essa diversidade de representação da Galatea estará presente no primeiro evento da galeria, a segunda edição da SP-Arte, prevista para agosto. Para a feira, cujo mote será brasilidades, os sócios vão apresentar a exposição coletiva “Tramas brasileiras”. No estande, o visitante poderá ver trabalhos de importantes artistas do concretismo brasileiro, além de contemporâneos que retomam o pensamento concreto e artefatos indígenas que apresentam a geometria em suas cestarias.

“A mistura de temporalidades, regionalidades e tipos de produção é algo importante para a nossa galeria”, afirma Toledo. É assim que os sócios pretendem dar vida ao cubo branco, como no mito de Galatea.

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