Negócios

Howard Marks, o cofundador da Oaktree Capital, não está tão otimista com o mercado

Uma das vozes mais respeitadas do mercado global de investimentos, o cofundador da Oaktree Capital, empresa americana com US$ 113 bilhões de ativos sob gestão, fala sobre os impactos da pandemia, o cenário nos EUA e na China, e dá dicas para investidores

 

Howard Marks, cofundador da Oaktree Capital

Com 74 anos e mais de meio século de experiência, o americano Howard Marks é uma das vozes mais respeitadas no mercado global de investimentos, sendo apontado como uma das lendas desse segmento.

Dono de uma fortuna estimada em US$ 2,1 bilhões, ele é um dos cofundadores da Oaktree Capital, empresa americana de investimentos em ativos de risco, com US$ 113 bilhões sob gestão. E é conhecido por suas análises e comentários precisos sobre o cenário econômico mundial.

Essa faceta se mostra em seus já famosos memorandos direcionados a clientes ou mesmo nos livros de sua autoria, como “The Most Important Thing: Uncommon Sense for the Thoughtful Investor”, lançado em 2011.

Ele tem entre seus admiradores confessos nomes do calibre de Warren Buffet, o magnata e megainvestidor do Berkshire Hathaway. Buffet já declarou que tem Marks como um de seus gurus.

Nesta segunda-feira, o investidor americano mostrou um pouco do estilo com o qual ganhou fama e fortuna em participação no podcast Insights, da Bradesco Asset Management. Entre outros temas, Marks falou sobre a Covid-19, suas implicações nos Estados Unidos e na China, e deu dicas para investidores.

O NeoFeed selecionou alguns temas abordados pelo investidor. Confira:

Pandemia e futuro
Estamos enfrentando agora quatro forças que têm um poder tremendo e não têm precedentes. Temos a pandemia, uma das maiores do século; a pior economia em oito anos, se não mais; a maior queda nos preços do petróleo da história; e a mais forte resposta do Fed e do Tesouro americano da história. Pegue essas quatro forças juntas e pense nas interações e nas implicações para cada uma delas. Claramente, você precisa admitir para você mesmo e para os outros que não se sabe como será o futuro. Há visões pessimistas e otimistas, e qual delas nós escolhemos não depende do nosso conhecimento do futuro, já que ele não existe. Eu tendo a ser mais preocupado do que um sonhador.

Paciente em coma
Quando você coloca um paciente em coma para curar uma doença, você tem que dar suporte, tem que tirá-lo do coma, acordá-lo e ajudá-lo a retomar a vida. E eu não acho que será fácil, suave ou rápido. Então, nós temos a batalha titânica entre a doença e os efeitos do fechamento da economia contra os esforços do Tesouro e do FED. Eu acredito que a economia vai voltar gradualmente. E penso que não será até 2022 que o GDP (Produto Interno Bruto, na sigla em inglês) vai recuperar o nível de 2019. Em outras palavras, teremos três anos de crescimento econômico perdido. Um grande número de pequenos negócios não vai reabrir, as pessoas que trabalham lá não terão seus empregos de volta. Então, você tem que reacender os pequenos negócios e o crescimento econômico. Não será fácil. Não será como apertar um botão e fazer a economia voltar à vida.

Medidas do FED e implicações
Os danos estão sendo reparados. E há uma indicação de que os investidores acreditam no poder do FED e do Tesouro em restaurar a economia. Agora, você tem que perceber que isso significa que há companhias com problemas fundamentais que, dada a fortaleza do mercado de capitais, podem agora acessar grandes somas de dinheiro. São companhias que não são saudáveis, mas que estão sendo capitalizadas por dinheiro fácil, o que não é bom. Outra questão é a crença de que companhias e gestores podem adotar um comportamento arriscado e se as coisas derem errado, o governo vai ajudar. É algo que chamamos de perigo moral. A crença que você não será punido por erros também não é boa. Porque é preferível que gestores operem com a expectativa de que, se cometerem algum erro e não funcionar, terão que pagar o preço.

China
A China é amplamente diferente dos mercados emergentes. É a segunda maior economia do mundo e tem feito progresso em vender mercadorias para os seus próprios cidadãos, sua classe média emergente. O país parece ter a doença sob controle e dá sinais de que sua economia está retomando crescimento. A China deve ter um crescimento pequeno esse ano, de 4%, o que pode indicar uma recessão para eles, mas é uma taxa que muitos países vão invejar. Então, é difícil lutar contra a China no longo prazo. Eles ainda têm recursos inexplorados, especialmente humanos, e têm, eu diria, um governo autoritário organizado e eficiente, que pode fazer o que quer e tem fortes aspirações de crescimento.

Mercados emergentes
Para muitas das nações emergentes, o problema é, número um, demanda fraca do mundo desenvolvido por commodities, número dois, o fato de que nos últimos dez anos eles conseguiram facilmente emprestar dólares e hoje o acesso a dólares pode ser mais limitado. Então, o reembolso será um problema para alguns deles. Os mercados emergentes serão altamente dependentes na recuperação da economia no mundo desenvolvido.

Eleições americanas
A questão essencial para todo investidor é se Donald Trump é real como a maioria das pessoas acredita que ele é: um presidente pró-empresas. Quando ele foi eleito, o mercado respondeu muito bem por esse motivo. E provavelmente responderá novamente. Joe Biden e os democratas são menos pró-empresas, mais populistas, e mais propensos a regularem os negócios e a renda. Existem muitas pessoas nos EUA que gostam do caráter e da experiência de Biden, mas que temem que os democratas enfatizem essas questões.

Dados e insights
Dado não é insight. O insight vem da capacidade de fazer um trabalho superior para entender o que os dados significam. Fatos, dados ou conhecimentos que todo mundo possui não podem torná-lo um investidor superior. Se você quer ser um investidor superior, precisa saber algo que outros não sabem ou fazer um trabalho melhor na interpretação dos dados. É o que tentamos fazer na Oaktree.

Tese da Oaktree
Dizemos que o mais importante não é ganhar muito dinheiro, mas controlar riscos. Não é o tamanho do seu sucesso, mas o número de falhas que você tem e o quão ruins elas são. Nós buscamos consistência. Nossos clientes abordam nossas classes de ativos, querem participar, mas não querem o risco total, não querem um tiro na lua, nos bons anos, e as quedas e quebras, nos períodos ruins. Eles querem ter um bom desempenho de forma consistente. Nós nos especializamos em algumas questões e tentamos fazer melhor do que os outros. E não baseamos nossas ações de investimento em previsões do futuro, porque isso não pode ser feito.

Conselhos para investidores
O segredo é foco. Seres humanos tendem a serem emocionais e a fazerem a coisa errada, no tempo errado. Você tem que ser menos emocional do que a maioria. Quando as coisas vão bem, você precisa ser cauteloso. As coisas estão indo bem, mas não são para sempre. E quando as coisas vão mal, você tem que pensar que elas não serão ruins para sempre. O mais importante para qualquer investidor, em qualquer época, é pensar em um programa de investimentos moderado. Não tão agressivo que você se assuste e venda nos maus momentos. E não tão conservador que você não participe dos bons tempos. Crie os programas apropriados para você, dadas suas condições financeiras, sua idade, suas aspirações e sua capacidade de conviver com altos e baixos.

Siga o NeoFeed nas redes sociais. Estamos no Facebook, no LinkedIn, no Twitter e no Instagram. Assista aos nossos vídeos no canal do YouTube e assine a nossa newsletter para receber notícias diariamente.

Leia também

UM CONTEÚDO:

VÍDEOS

Assista aos programas CAFÉ COM INVESTIDOR e CONEXÃO CEO