Marcos Molina, do Marfrig, elege dívida baixa como foco para 2022

A Marfrig, segunda maior produtora de carne bovina do mundo, já foi uma das empresas mais alavancadas do mercado. Depois de equacionar esse problema, a ordem é manter a dívida em patamares mais baixos

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Segunda maior produtora de carne bovina do mundo, atrás apenas da também brasileira JBS, a Marfrig reportou na noite de terça-feira, 26 de outubro, resultados fortes relativos ao período de julho a setembro de 2021, em linha com o que vem mostrando ao mercado já há alguns trimestres.

Mas, se o passado recente mostra passos consistentes da operação, que vêm se refletindo na valorização de suas ações, a Marfrig enxerga um horizonte menos positivo à frente. E já escolheu sua prioridade para atravessar os percalços e seguir em sua trilha favorável no mercado de capitais.

“Estamos muito pessimistas com o cenário global e no Brasil em 2022. A inflação vai vir e os juros vão aumentar”, disse Marcos Molina, fundador e presidente do Conselho de Administração da Marfrig, em conferência com analistas na manhã desta quarta-feira, 27 de outubro.

“Então, nesse contexto, nosso principal driver e direcionamento será a dívida baixa, a geração de caixa e o alongamento da dívida”, afirmou Molina. “Essa é a primeira coisa. O estratégico fica em segundo lugar.”

Essa visão dá sequência a uma estratégia que ganhou força, em particular, a partir de 2020. Desde então, a Marfrig, que já figurou entre as empresas mais alavancadas do País, vem conseguindo equacionar esse indicador.

Alguns números do terceiro trimestre mostram os efeitos dessa estratégia. No período, o grupo alcançou uma relação entre dívida líquida e Ebitda de 1,10 vezes, em reais, e de 1,07 vezes, em dólar, o menor índice de alavancagem em um trimestre da sua história.

Aos analistas, Molina disse que o patamar estipulado como ideal pelo board da companhia é abaixo de duas vezes. “O sonho é abaixo de uma vez, mas isso é mais para o futuro”, acrescentou o presidente do Conselho da Marfrig.

A empresa encerrou o trimestre com uma dívida líquida de US$ 2,52 bilhões (R$ 13,7 bilhões), uma redução de 12,2% na comparação com o segundo trimestre de 2021. Em reais, o recuo foi de 4,5%. A empresa atribuiu a queda à forte geração de caixa no período.

“Encerramos o trimestre com US$ 2,9 bilhões em caixa”, afirmou Tang David, diretor financeiro e de relações com investidores da Marfrig. “O suficiente para cobrir praticamente os vencimentos que temos até 2026.”

Nessa equação, o prazo médio da dívida do grupo passou para 4,97 anos ao fim do terceiro trimestre, contra 4,76 anos, no encerramento do segundo trimestre, e 4,15 anos, índice reportado no terceiro trimestre de 2020.

Se a orientação global é focar no pagamento e na manutenção da dívida em baixos patamares, a Marfrig também já decidiu quais são as prioridades relacionadas especificamente ao mercado brasileiro. Especialmente diante da suspensão, desde o início de setembro, das exportações destinadas à China, em virtude de casos de vaca louca em Minas Gerais e no Mato Grosso.

“Estamos vendo o quarto trimestre com cautela”, disse Miguel Gularte, CEO da Marfrig para a América do Sul. Ele ressaltou que a companhia vem comprando “em passo muito curto”, diante de questões como a correção, para baixo, do preço da arroba do boi, e da distribuição de canais.

“Também não estamos vendendo muito no longo prazo”, observou. “Porque se a China voltar, temos condições de redirecionar rapidamente para esse destino, que vai seguir sendo líder no período imediato e no médio prazo das exportações na região.”

Para lidar com os impactos da suspensão, a Marfrig, que tem 13 unidades habilitadas a exportar para a China na América do Sul, sendo sete no Brasil, redirecionou a produção para suas unidades no Uruguai e na Argentina. Gularte destaca outra mudança no mapa de operações realizada no período.

“Nós aprovamos a exportação para os Estados Unidos a partir do Brasil”, disse o executivo. “Das dez unidades que temos no País, seis já estão aprovadas e duas em fase adiantada nesse processo.”

Ele também destacou a retomada dos canais de food service no mercado doméstico e a estratégia da empresa de focar no segmento de industrializados e em produtos de carne com marca, de maior valor agregado, no País.

“E é importante ressaltar que, no pós-pandemia, dois canais vão se incorporar à nossa dinâmica comercial”, observou. “O e-commerce e o delivery, que vieram para ficar.”

A Marfrig também reforçou a estratégia por trás do investimento realizado na compra de participação na também brasileira BRF. Desde maio deste ano, o grupo começou a adquirir fatias na operação, até chegar a 32,98% recentemente.

O movimento foi aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e levantou no mercado a especulação sobre uma possível fusão das duas operações, o que já foi negado pela Marfrig. Em 2019, as duas empresas chegaram a anunciar um acordo nessa direção. Mas a transação foi encerrada pouco tempo depois.

“Nós confirmamos que o investimento é passivo e não pretendemos atingir 33,33% de participação, o que dispararia a poison pill”, afirmou David. Molina, por sua vez, acrescentou: “O mercado pode ter certeza que não terá nenhuma surpresa além do que já falamos.”

Resultado

No terceiro trimestre de 2021, a Marfrig reportou um lucro líquido de R$ 1,67 bilhão, o que representou um salto de 148,7% sobre o resultado divulgado há um ano. O Ebitda, por sua vez, foi de R$ 4,7 bilhões, crescimento de 115,6% na mesma base de comparação.

Entre julho e setembro, a receita líquida ficou em R$ 23,6 bilhões. A América do Norte respondeu por 71% desse montante, com R$ 16,7 bilhões, alta de 38,9%. A companhia atribuiu o resultado na região a fatores como a recomposição dos estoques da cadeia de food service e o cenário econômico ainda impulsionado pelos estímulos financeiros do governo americano.

Já a América do Sul apurou uma receita de R$ 6,9 bilhões no período, 44,1% superior na comparação com o terceiro trimestre de 2020. No continente, a Marfrig destacou a expansão de 8,3% nos volumes destinados à exportação, que representaram 62% da receita total da operação, e o aumento de 36,8% no preço médio total de vendas.

A empresa está avaliada em R$ 17,2 bilhões. Suas ações estavam sendo negociadas a R$ 25,15 por volta das 11h, alta de 2,15%. No ano, os papéis acumulam uma valorização de aproximadamente 70%.

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