Martelo batido: consórcios Aegea e Iguá arrematam blocos da Cedae por R$ 22,6 bi

No leilão de infraestrutura mais aguardado dos últimos tempos, o consórcio liderado pela Aegea levou dois blocos da concessão da Cedae, por R$ 15,4 bilhões. Já o consórcio da Iguá ficou com um bloco, por R$ 7,2 bilhões. O valor total arrecadado representou um ágio de 113,2% sobre o valor mínimo previsto no certame

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Na tarde desta sexta-feira, 30 de abril, a sede da B3, no centro de São Paulo, foi o palco do maior e mais aguardado leilão de infraestrutura dos últimos tempos: os quatro blocos de concessão da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae).

Cercado de tantas atenções, o leilão arrecadou R$ 22,6 bilhões, o que representou um ágio de 113,2% ante a arrecadação mínima prevista no edital, fixada em R$ 10,6 bilhões.

Com o martelo batido, o grande vencedor foi o consórcio liderado pela Aegea, que desembolsou R$ 15,4 bilhões para arrematar dois blocos incluído na concessão. O bloco 1 foi arrebatado com um ágio de 103,13%, por R$ 8,2 bilhões. E o bloco 4, por R$ 7,2 bilhões, com um ágio de 187,75%.

No processo, o consórcio liderado pela Iguá Saneamento ficou com o bloco 2, com uma proposta de R$ 7,2 bilhões, 129,86% superior à outorga mínima definida para essa área da concessão.

Com um lance mínimo previsto de R$ 908 milhões, o bloco 3, por sua vez, teve apenas uma proposta da Aegea, dentro do piso inicial, que foi retirada pelo consórcio.

Os consórcios vencedores serão responsáveis pelos serviços pelo prazo de 35 anos. E terão como obrigação a universalização dos serviços até 2033. No total, terão que investir R$ 30 bilhões em infraestrutura, sendo R$ 12 bilhões já nos primeiros cinco anos.

Mais R$ 1,86 bilhão devem ser investidos na infraestrutura de favelas. Parte do dinheiro arrecadado no leilão será investido em projetos de despoluição R$ 2,6 bilhões na Baía de Guanabara, R$ 2,9 bilhões na Bacia do Guandu e R$ 250 milhões no complexo lagunar da Barra da Tijuca.

Para dar conta dessas cifras bilionárias, as empresas que lideraram os dois consórcios responsáveis pelos lances vencedores reforçaram seus caixas recentemente. Nesta semana, por exemplo, a Aegea anunciou um aporte de R$ 1,3 bilhão da Itaúsa, em troca de uma fatia de 8,5% em sua operação.

Fundada em 2010, a empresa é controlada pelo grupo brasileiro de infraestrutura Equipav e conta ainda com o Fundo Soberano de Cingapura (GIC) entre seus acionistas. A Aegea venceu dois dos três leilões realizados na área de saneamento em 2020.

O primeiro deles, para operar o serviço de esgotamento dos municípios de Cariacica e Viana, na região metropolitana de Vitória (ES). E o segundo, envolvendo 68 cidades no Mato Grosso do Sul. Em 2020, a Aegea reportou lucro líquido de R$ 500,9 milhões, alta de 70,2%, e receita líquida de R$ 2,3 bilhões, 4% superior ao resultado de 2019.

A Iguá Saneamento também está capitalizada. No fim de março, a empresa anunciou um acordo com o fundo de pensão Canada Pension Plan Investment Board (CPPIB), no valor de R$ 1,17 bilhão, dos quais, R$ 514 milhões serão injetados na operação. Os R$ 664 milhões restantes envolvem uma aquisição secundária de ações.

Controlada pelo private equity IG4 Capital, a Iguá foi fundada em 2017. Hoje, a empresa tem 14 concessões e quatro parcerias público-privadas, que cobrem 37 municípios e 6 milhões de pessoas. Em 2020, a companhia apurou uma receita operacional líquida de R$ 757,6 milhões.

“Estamos em um momento ímpar”, disse Carlos Brandão, CEO da Iguá, ao NeoFeed, citando o acordo com o CPPIB e a vitória no leilão. “Com esses passos, quase duplicamos a empresa, temos os recursos para o financiamento da operação e confirmamos que estamos com a estratégia correta.”

Ele ressaltou que o bloco 2 era o “preferido” pela Iguá no leilão, pelo fato ter uma concentração geográfica grande, com poucos municípios dispersos, o que facilita a gestão da operação. “Tínhamos mais espaço para avançar, mas os outros competidores não foram tão focados nesse lote”, disse. “E conseguimos um equilíbrio na equação risco retorno super favorável.”

Brandão acrescentou que a vitória não reduz o apetite da companhia para os outros leilões previstos no setor. Ao contrário. “Talvez vamos ajustar um pouco o calibre para focar nos processos médios e grandes”, observou. “Nós crescemos duas vezes a empresa. Falta crescer quatro.”

Outros dois consórcios participaram da fase final do leilão: o Redentor, liderado pelo Grupo Equatorial, e o Rio Mais Saneamento, com a participação de nomes como a Brookfield Business Partners e a BRK Ambiental. Ao longo do processo, no entanto, um total de 12 empresas, brasileiras e estrangeiras, demonstraram interesse pelo processo.

Além do valor arrecadado e dos investimentos bilionários envolvidos, outros componentes ajudam a explicar tamanha expectativa em relação ao leilão, visto pelo governo federal como a joia da coroa na área de infraestrutura.

Entre outras questões, o pacote inclui o fato de esse ser o primeiro leilão depois da regulamentação do marco regulatório do saneamento, realizada em dezembro do ano passado. O leque envolve ainda a própria relevância da região e os serviços de má qualidade que ganharam contornos ainda mais críticos na região da concessão, no último ano.

A Cedae atende hoje 12 milhões de pessoas em 64 dos 92 municípios do Rio. A concessão, no entanto, só contempla 35 cidades, incluindo a capital fluminense.

Dentro do modelo de “filé e osso”, que já vem sendo adotado pelo governo federal em outros certames, como no caso dos aeroportos, cada bloco contemplou tanto municípios mais atrativos para a iniciativa privada, pelo potencial de arrecadação, quanto cidades que exigem mais investimentos em infraestrutura e com previsão de menor retorno.

Cada lote tinha, porém, um piso diferente. A outorga mínima do bloco que conta com a zona oeste da capital fluminense e outros seis municípios era de R$ 908 milhões. Já no bloco que cobre a zona sul da capital e outros 18 municípios, incluindo São Gonçalo e Cantagalo, a outorga mínima era de R$ 4 bilhões.

A Cedae também não será totalmente privatizada. O certame não incluiu os processos de captação e tratamento da água. Sob esse modelo, as concessionárias terão que comprar a água do Estado para fazer a distribuição e o esgotamento.

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