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Na BR Distribuidora, a privatização começa para valer agora

Empresa elege conselho de administração depois que Petrobras deixou o controle. Mateus Bandeira, ex-Falconi e Banrisul, era o favorito para presidir o novo board. Mas na última hora Edy Kogut ganhou o páreo

 

Nos últimos dois anos, a Petrobras Distribuidora, conhecida simplesmente como BR, passou por profundas transformações acionárias.

Em dezembro de 2017, a subsidiária da Petrobras teve seu capital aberto na B3, quando captou R$ 5 bilhões. Em junho deste ano, fez uma oferta secundária de ações e vendeu 30% do capital, arrecadando R$ 9 bilhões, pulverizando seus papéis nas mãos de diversos fundos.

Na ocasião, a Petrobras deixou o controle da empresa. A estatal mantém ainda 37,5% das ações, mas o plano é ir, ao longo do tempo, reduzindo cada vez mais sua participação na maior distribuidora de combustíveis do Brasil, dona de um faturamento de R$ 97,7 bilhões e um lucro de R$ 3,2 bilhões em 2018.

A longa caminhada rumo a ser uma empresa mais aderente ao mercado e sem influência política tem seu capítulo final nesta quarta-feira, 18 de setembro. É quando os novos acionistas, entre eles Verde Asset Management, SPX e Opportunity, vão se reunir para aprovar os nomes para um conselho de administração totalmente renovado.

Caberá anos novos membros a missão de dar as diretrizes para o turnaround na BR Distribuidora, dona de uma rede de quase 8 mil postos. “Espero uma companhia mais ágil, mais preocupada com a questão de custos e olhando mais para os acionistas”, diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), consultoria especializada em energia. “Pelo fato de ser estatal, era como se tivesse uma bola de ferro amarrada aos seus pés.”

Os nomes indicados para o conselho de administração já são conhecidos. E Mateus Bandeira, ex-presidente da consultoria Falconi e ex-presidente do Banrisul, era o favorito para assumir a presidência do conselho de administração, apoiado pelos novos fundos.

Mas, na última hora, entretanto, Edyr Kogut, conselheiro indicado pela Petrobras, levou a melhor. Kogut é próximo do atual presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco.

O novo conselho mescla uma gama de executivos do mercado, com ampla experiência em diversas áreas. Há nomes especializados em gestão, em reestruturação empresarial, meios de pagamento, programas de fidelidade, varejo e, como não poderia deixar de ser, do setor de combustíveis.

Edy Kogut, novo presidente do conselho, foi diretor da holding da Camargo Corrêa e já fazia parte do conselho da companhia. Completam a lista de conselheiros indicados pela Petrobras o executivo Alexandre Firme Carneiro, sócio da consultoria ValorArt e que já exerceu cargos na Shell, e Maria Carolina Lacerda, que atuou nos bancos UBS, Deutsche Bank, Merril Lynch e Uninbanco.

Os novos acionistas estão sugerindo para fazer parte do board Carlos Piani, ex-CEO da PDG Realty e da Equatorial Energia; Claudio Roberto Ely, que foi presidente da Drogasil entre 1998 e 2011; Leonel Andrade, CEO da Smiles entre 2013 e 2019; Pedro Ripper, membro do conselho da Iguatemi, Positivo Tecnologia e GloboNet; Ricardo Maia, que atuou na rival Ipiranga, como diretor de marketing e vendas; e, como já citado, Mateus Bandeira, ex-Falconi e Banrisul e que concorreu pelo partido Novo ao cargo de governador do Rio Grande do Sul.

Esse grupo de conselheiros deve manter à frente da operação Rafael Grisolia, segundo fontes de mercado consultadas pelo NeoFeed. Grisolia assumiu a presidência da BR em maio deste ano. Antes, ele havia sido diretor financeiro da distribuidora de combustíveis, uma indicação de Ivan Monteiro, que na época era o CFO da Petrobras.

“Os anos de 2019 e de 2020 são anos de execução, quando vamos trabalhar cada vez mais para a entrega dessas dez iniciativas de forma conjunta”, disse Grisollia, em agosto, durante a teleconferência dos resultados do segundo trimestre. “A partir de 2021, conseguiremos ver o resultado desse esforço, que faremos tão intensamente e com tanto entusiasmo, agora, com a BR privatizada.”

Reestruturação

A tarefa de Grisolia não será fácil. “A empresa desenhou um plano estratégico se comparando sempre com a Raízen e com a Ipiranga”, diz uma fonte do mercado. “E, em todos os indicadores operacionais, eles são piores. Perdem em tudo.”

A Raízen, que atua com a marca Shell no Brasil, e a Ipiranga estão à frente em diversas áreas, como lojas de conveniência e na digitalização de seus negócios.

No fim de agosto, a BR divulgou um comunicado ao mercado informando que havia celebrado um memorando de entendimento para estudar uma parceria estratégica no segmento de conveniência com as Lojas Americanas.

A BR Distribuidora deve reativar seu programa de fidelidade, o Premmia

A distribuidora também deve reativar seu programa de fidelidade, o Premmia, que está “abandonado”, segundo as palavras de uma fonte com quem o NeoFeed conversou.

Iniciativas em meios de pagamento também estão na mira. Essas são áreas em que os rivais estão atuando com projetos bem estruturados. O Ipiranga conta com o aplicativo Abastece Aí. A Raízen, com o Shell Box.

A Ipiranga também é sócia do ConectCar, que dá descontos para quem abastece em seus postos credenciados. A Sem Parar tem parcerias com a Shell e também com os postos Petrobras BR. “Mas ninguém sabe desse acordo”, diz essa fonte consultada pelo NeoFeed.

Em relatórios comentando os resultados do segundo trimestre de 2019, que foi considerado ruim, os analistas de mercado têm mostrado confiança nas mudanças que podem vir pela frente.

“Acreditamos que o mercado não se concentrará necessariamente em resultados passados, principalmente considerando que os dois últimos trimestres foram um pouco como uma montanha-russa, mas focará em perspectivas futuras”, escreveram os analistas Regis Cardoso e Victor Schmidt, do Credit Suisse.

Relatório do BTG faz análise semelhante, saudando iniciativas para melhorar o retorno aos acionistas, o que deve permitir ganhos “sólidos de margem pela frente.” Mas acrescenta uma ressalva: “Acreditamos que a vida de grandes distribuidores de combustível agora é mais difícil. Os investidores devem ver um cenário otimista com alguma dose de ceticismo.”

Na BR Distribuidora, a privatização começa para valer agora. Assim como a cobrança do mercado por resultados melhores.

* Reportagem atualizada as 14h47 com informação do nome do novo presidente do conselho de administração da BR Distribuidora

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