Negócios

“O Brasil não tem força ou energia para ser protagonista”, diz Mendonça de Barros

Para o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações do governo FHC, até para ser coadjuvante as condições do País são muito limitadas e serão necessários, no mínimo, cinco anos para arrumar a casa

 

Luiz Carlos Mendonça de Barros (Foto: Marcos Quint/Fiesc/Divulgação)

Luiz Carlos Mendonça de Barros, 77 anos, costuma ser muito direto em suas análises, o que pode causar certo desconforto entre aqueles que não estão acostumados ao seu estilo.

Engenheiro de formação e doutor em economia pela Unicamp, ele foi ex-presidente do BNDES e ministro das Comunicações no governo de Fernando Henrique Cardoso. Conhece os bastidores do poder como poucos.

E, seguindo seu estilo, não poupa munição ao falar do desempenho do ministro da Economia, Paulo Guedes, a quem atribui os problemas de relacionamento com o Congresso e as dificuldades de o governo aprovar pautas importantes.

“Agora, o governo baixou a bola, tratou de arranjar uma base mais sólida no Congresso e retomar o papel que estava com o Paulo Guedes, que se achou o grande reformador da economia”, diz Mendonça de Barros ao NeoFeed. “Tem de ser humilde, escolher as reformas, negociar”, afirma.

Foi na sua gestão como ministro que o governo realizou a privatização de telecomunicações, em julho de 1998, e arrecadou de R$ 22 bilhões com o leilão. A entrada da iniciativa privada e de concorrentes no setor levou ao início do processo de universalização do acesso a linhas telefônicas.

Mas foi também nessa época que ele foi grampeado ilegalmente em conversas telefônicas com outros membros do governo. As gravações, que se tornaram públicas, revelaram os bastidores da privatização da Telebras e deixaram dúvidas sobre determinados grupos empresariais.

Mendonça de Barros e outros nomes ligados à história pediram demissão. Processados por improbidade administrativa, todos foram inocentados pela Justiça Federal em 2009, com a confirmação em segunda instância no ano seguinte.

Longe do governo, o ex-ministro fundou a gestora Quest Investimentos, em 2001. Em 2015, a italiana Azimut fechou a compra de 60% do negócio pelo valor de R$ 70 milhões, aproximadamente – 35% pertencentes a Mendonça de Barros, 15% que estavam nas mãos do BTG Pactual e 10% de propriedade da equipe de gestão.

Houve uma mudança no nome e a gestora passou a se chamar AZ Quest. Mais tarde, em 2010, Mendonça de Barros decidiu investir na operação local da chinesa Foton Caminhões. Atualmente, ele é sócio e presidente do conselho de administração da companhia. Acompanhe sua entrevista ao NeoFeed:

Qual é a sua opinião sobre a recuperação econômica no Brasil?
Para mim, o fato importante neste momento está relacionado ao IBC-BR (Índice de Atividade Econômica do Banco Central, uma prévia do PIB), que mostra uma recuperação mais forte do que a prevista, com crescimento pelo quarto mês consecutivo. Várias instituições financeiras estão revisando o tamanho da queda do PIB deste ano, mais perto de uma queda de 4% do que de 4,5%. Esse dado é importante porque só por meio do crescimento econômico será possível tratar a questão fiscal.

Essa questão fiscal tem preocupado o mercado. Como resolver isso?
Qualquer melhoria fiscal tem de vir por meio da volta do crescimento, e ele esta aí. Tanto que a arrecadação mês a mês já voltou ao que era antes da crise. Na margem, a economia brasileira saiu da crise.

Mas não há outros efeitos da crise que ainda são sentidos?
Claro que a crise deixa feridas. Por exemplo, na dívida pública, no déficit fiscal. Mas essa crise histérica que estamos vendo no mercado financeiro é porque o Paulo Guedes (ministro da Economia) não tem mais a mesma posição de confiança do passado. Ele perdeu parte importante da equipe, pegou muita coisa para ele e está dando cabeçada.

As reformas prometidas pelo governo ainda durante a campanha presidencial ainda não aconteceram. Os analistas políticos costumam dizer que esse é o tipo de pauta que deve ser acelerada assim que se toma posse. O governo perdeu o timing?
O fato de as promessas de reforma não terem sido cumpridas até agora significa que o governo não tinha a menor ideia do que essas reformas representavam. Agora, o governo baixou a bola, tratou de arranjar uma base mais sólida no Congresso e retomar o papel que estava com o Paulo Guedes, que se achou o grande reformador da economia. Tem de ser humilde, escolher as reformas, negociar.

O papel do BNDES durante a crise foi adequado?
Com a crise, o BNDES foi obrigado a entrar no crédito. Mas esse comportamento de oferta de crédito em alta pode ser visto em várias pontas. Em setembro, o financiamento de carros novos e usados chegou ao seu recorde dos últimos dez anos. O mercado imobiliário também apresenta retomada no crédito.

E daqui para frente, o que esperar do BNDES?
O BNDES vem exercendo sua função ao aliviar as empresas que vinham apresentando problemas de refinanciamento de suas dívidas. Acho que esse papel vai continuar, até porque a liquidez tem crescido graças à liquidação das suas carteiras (venda de participação em empresas). Além disso, o BNDES vai voltar a ter um papel importante quando começarem os projetos na área de saneamento, que devem movimentar muitos recursos.

Qual deve ser o plano para a retomada da economia a partir de agora? 
O governo vai ter de assumir um programa social mais poderoso para chegar a quem vive à margem da economia informal. Esses ainda sofrem com as crises, têm uma vida pior hoje. O programa emergencial vai ter de ser feito.

Onde o governo deve manter o seu foco?
O governo deve sair cada vez mais da parte da economia formal, tanto em relação às empresas formais quanto estatais. Hoje o mais importante é o governo se concentrar em saúde, educação e complemento de renda.

Então é melhor o governo não ceder a vontade de parte de sua equipe que acha que o Estado deve ser o indutor da retomada…
A (ex-presidente) Dilma Rousseff foi última que tentou fazer o governo exercer esse papel de indutor e arrebentou com toda a economia.

O Brasil tem chances de assumir um papel de relevância na reconstrução da economia internacional ou os problemas ambientais, políticos e sanitários podem colocar o País como coadjuvante?
O Brasil não tem força ou energia para ser protagonista. Até para ser coadjuvante suas condições são muito limitadas. Agora, o país tem pela frente uns cinco anos para arrumar a casa.

Siga o NeoFeed nas redes sociais. Estamos no Facebook, no LinkedIn, no Twitter e no Instagram. Assista aos nossos vídeos no canal do YouTube e assine a nossa newsletter para receber notícias diariamente.

Leia também

Newsletter

Receba notícias do NeoFeed no seu e-mail

 
Li, compreendi e concordo com os Termos de Uso e Política de Privacidade
do site.

UM CONTEÚDO:

BRAND STORIES

Newsletter

Receba notícias do NeoFeed no seu e-mail

 
Li, compreendi e concordo com os Termos de Uso e Política de Privacidade
do site.

VÍDEOS

Assista aos programas CAFÉ COM INVESTIDOR e CONEXÃO CEO