Negócios

O caso da Simpress e o dilema de todo empresário brasileiro

A empresa de outsourcing ilustra o desafio diante da crise. A receita em seu negócio principal, de equipamentos de impressão, já recuou 60%. E a dificuldade de abastecimento está impedindo que a companhia se beneficie da explosão na demanda por notebooks, impulsionada pelo home office

 

Vittorio Danesi, fundador e CEO da Simpress

No começo dessa semana, os números na tela do computador de Vittorio Danesi pareciam reforçar a máxima de que, em toda crise, há uma oportunidade.

Em meio ao caos gerado pelo Covid-19, o empresário contabilizava, em apenas quatro dias, um salto de 500% na procura pela locação de notebooks da Simpress, companhia de outsourcing de impressão e de equipamentos.

A repentina busca das empresas pelo home office parecia apontar uma alternativa à Simpress. Mas só reforçou o dilema à frente, não apenas de Danesi, mas de todos os empresários do País.

Veloz e imprevisível, o avanço do vírus dificulta qualquer medida para conter seus efeitos nos negócios. E, nesse contexto, até mesmo as oportunidades escondem desafios que evidenciam a gravidade da pandemia.

“Parecia um tsunami. Em quatro dias, nós locamos o volume que costumamos fazer em um mês”, diz Danesi, fundador e CEO da Simpress. “Ao mesmo tempo, o mercado não tinha estoque e capacidade de produção para atender a essa explosão na demanda.”

Se, de um lado, o coronavírus explica o aumento da procura por equipamentos. Em outra frente, a falta de condições para absorver os pedidos também está diretamente ligada ao surto.

A China concentra boa parte dos fornecedores de componentes e de produtos acabados da indústria de tecnologia. O fato de o país ter sido o ponto de partida da pandemia, trouxe sérios impactos nessa cadeia.

Em apenas 4 dias, a Simpress locou o mesmo volume de equipamentos que costuma expedir em um mês

Esses efeitos começaram a se refletir no desabastecimento de insumos e produtos em outros países, especialmente a partir deste mês. Como o setor é totalmente atrelado ao dólar, a alta da moeda americana agravou ainda mais esse cenário.

“Nós zeramos nosso estoque e tivemos que comprar uma base adicional no mercado”, afirma Danesi, que identificou um aumento de cerca de 15% no preço dos equipamentos. No total, a empresa alugou mais de 3 máquinas no período. “E ainda há uma demanda por mais de 9 mil notebooks que não temos como atender.”

Segundo o empresário, ainda não há uma previsão de quando o abastecimento será normalizado. A Simpress está priorizando o atendimento a empresas com quem já mantém contratos de terceirização de impressão. Desde a semana passada, cerca de 30 companhias dessa base decidiram estender esse relacionamento para a categoria de notebooks.

Já entre os potenciais novos clientes na esteira do coronavírus, a procura foi alta por contratos de curta duração, entre três e seis meses. A companhia decidiu, porém, privilegiar aqueles de longo prazo, em média, de dois a três anos.

Gota no oceano

Diante dessa demanda em potencial, a falta de capacidade de atendimento e a esperada alta nos preços não são as únicas fontes de preocupação para a Simpress. “A locação de notebooks é importante nesse momento de incertezas”, afirma Danesi. “Mas ela é uma gota de oceano no nosso faturamento. E não faz uma diferença substancial no nosso dia a dia.”

Fruto de uma estratégia de diversificação iniciada há cerca de 18 meses, o aluguel de notebooks e PCs responde por apenas 3% do faturamento da Simpress. O carro-chefe são os serviços de impressão e gestão de documentos, vertente na qual a empresa tem uma base de 1,2 mil clientes. Nas demais categorias, a carteira é formada por 70 companhias.

Uma das pioneiras no mercado de outsourcing de impressão no País, a Simpress tornou-se um dos principais nomes do setor e chamou a atenção das rivais estrangeiras. Em 2015, foi comprada pela Samsung. E, dois anos depois, pela HP. Em 2014, último ano em que divulgava seu resultado, a empresa faturou R$ 485 milhões.

Acostumado aos altos e baixos do mercado local, Danesi seguiu no comando da operação. Mas, segundo o empresário, nada se compara aos impactos vivenciados nesse momento. “Ninguém hoje no globo viveu uma catástrofe dessa envergadura”, diz.

Principal indicador de receita futura no setor, o volume de páginas impressas nos clientes da empresa recuou 60%

O efeito devastador já pode ser sentido no negócio principal da Simpress. Principal indicador de receita futura do segmento de outsourcing de impressão, o volume de páginas impressas nos clientes da empresa caiu 60% na segunda-feira, 23 de março, em comparação com igual período na semana anterior.

“Se as empresas não operam, não imprimem. E se não imprimem, eu não faturo”, explica Danesi, que não vê perspectivas, ao menos no curto prazo, para a reversão desse cenário. “O mercado parou. Todo mundo está olhando para dentro de casa. Agora, ninguém está disposto a falar de negócios”, afirma, citando os setores de saúde, comércio eletrônico e as indústrias alimentícias como único ponto de apoio nesse momento.

Operação

Com mais de 1,8 mil funcionários, a Simpress transferiu todos os seus funcionários de escritório para o modelo de home office, a partir da segunda-feira 16. A dificuldade, porém, são os 1,2 mil profissionais em campo, dedicados à prestação de serviços nos clientes. Para esse quadro, responsável por uma vertente essencial da operação, a empresa adotou uma série de protocolos de redução dos riscos.

Danesi diz ainda não ter uma opinião formada em meio ao debate que contrapõe os que defendem a retomada das atividades econômicas e os que entendem que a paralisação é a medida mais adequada no momento. “Tenho acompanhado muitas opiniões baseadas em achismos”, afirma. “Temos que nos amparar, minimamente, em dados técnicos para não nos arrependermos depois.”

Em linha com um coro que vem ganhando força entre os empresários, Danesi cobra uma postura mais ativa da equipe econômica no combate aos efeitos da crise. E reforça a necessidade de maior cuidado e clareza em qualquer comunicação de medidas nesse momento.

Nesse último caso, ele cita como exemplo a Medida Provisória 927. Publicada em 22 de março, a MP continha um artigo que abria a possibilidade de suspensão de pagamento de salários por até quatro meses. Diante da repercussão negativa, o texto foi revogado no dia seguinte.

“Não é aceitável esse tipo de atitude em um momento no qual todos estão com os nervos à flor da pele”, observa. “É preciso evitar os custos colaterais e o retrabalho de construir ou descontruir o que foi falado”.

“Ninguém hoje no globo viveu uma catástrofe dessa envergadura”, diz Vittorio Danesi, CEO e fundador da Simpress

Para o empresário, a equipe econômica deve se concentrar, no curto prazo, em medidas urgentes para preservar empregos e garantir a sobrevivência das companhias, especialmente aquelas com maior restrição de caixa. Entre essas iniciativas, estão a criação de linhas de crédito rápido e desburocratizado para micro, pequenos e médios empresários.

Em contrapartida, Danesi entende que essas medidas precisam ser acompanhadas por uma mudança na postura que vem sendo adotada por parte dos empresários no País. “Tenho visto companhias aproveitando essa situação para suspender pagamentos, sem negociar, como se só elas existissem no mundo”, afirma.

Ele defende a formação de uma “corrente de solidariedade”, onde, com o apoio do governo, todos os empresários se comprometam a honrar seus compromissos, com o objetivo de minimizarem os efeitos em suas respectivas cadeias. “Não estamos numa guerra convencional. Temos pela frente um inimigo invisível”, diz. “Esse é o momento de unir forças para ver como saímos vivos do outro lado do túnel.”

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