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“O computador é o maior inimigo do pensamento crítico”, diz um dos pais da internet

Leonard Kleinrock fazia parte da equipe que mandou a primeira mensagem por meio de uma rede de computadores. Em entrevista ao NeoFeed, ele fala de sua preocupação com os rumos da internet

 

Leonard Kleinrock, um dos pais da internet, e professor de ciência da computação da Escola de Engenharia e Ciências Aplicadas da UCLA

Há 50 anos, o engenheiro nova-iorquino Leonard Kleinrock fazia parte da equipe que mandou a primeira mensagem por computador por meio da Arpanaet, a rede precursora da internet.

No campus da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA, da sigla em inglês), em 29 de outubro de 1969, uma equipe tentou enviar a primeira mensagem ao Instituto de Pesquisa de Stanford: “LOGIN”. Eles conseguiram digitar as primeiras duas letras. Aí o sistema caiu. Para o registro histórico, a primeira mensagem enviada pelo que viria a ser a internet foi “LO”.

Kleinrock é considerado um dos “pais” da internet, embora a paternidade da rede mundial deva ser dividida com várias pessoas. Sua teoria de informações de dados, escrita como uma tese de doutorado do MIT, em 1962, é ainda hoje a base da rede mundial de computadores.

Aos 85 anos, Kleinrock continua ativo – online e offline. Professor de ciência da computação da Escola de Engenharia e Ciências Aplicadas da UCLA, o engenheiro é autor de seis livros sobre o assunto, além de 200 pesquisas acadêmicas.

Membro da Academia Nacional de Engenharia, Kleinrock também foi agraciado com diversas medalhas e condecorações ao longo de sua carreira, das quais se destacam o prêmio Ericsson, o IMFORMS Presidents Awards e o ACM SIGCOMM Award. Das mãos do então presidente George W. Bush, o professor recebeu, em 2008, a prestigiada medalha de Ciência Nacional.

Kleinrock “recebeu” em sua sala da UCLA a reportagem do NeoFeed, instalada na parte oeste de Los Angeles. Por Skype, o professor fez alertas importantes e nos convidou a desplugar os computadores – pelo menos de vez em quando.

Acompanhe a entrevista completa.

Professor, muitas vezes o senhor foi chamado de “pai da internet”, um título atribuído a outros matemáticos e cientistas também. O que o senhor pensa disso, existe, afinal, um, “pai da internet”?
Não existe um pai da internet. Existem vários. Todo mundo contribuiu um pouco: eu, inclusive. Mas, veja só, se nenhuma dessas pessoas tão chamadas “pai da internet” tivesse nascido, a internet ainda assim existiria.

Existiria?
Sim, porque era uma coisa que estava no ar. Estava prestes a nascer. Visionários já previam isso.

Tem algum exemplo?
Tenho. Décadas antes de colocarmos o primeiro computador conectado à rede mundial, um homem já dizia que um empresário de Nova York conseguiria falar com um colega, em Londres, usando um aparelho não muito maior que um relógio. De graça, ele mandaria fotos, desenhos, escrituras… ele só não falou vídeo porque não existia essa tecnologia na época. Sabe quem falou isso?

Não tenho ideia, professor.
Nikola Tesla, em 1908. Ele descreveu a tecnologia wireless antes que tivéssemos um nome para isso.

“Eu sabia que a internet seria algo grande e que os computadores solucionariam problemas complexos. Mas eu falhei em prever a questão social”

Mas você imaginava que, em 50 anos, avançaríamos tanto? De uma mensagem falha, num computador da UCLA, para o que vivemos hoje, eu e você falando via Skype?
É fácil dizer que sim, que imaginava isso tudo, mas a resposta mais sincera fica no meio termo. Eu sabia que a internet seria algo grande e que os computadores solucionariam problemas complexos. Sabia que essa rede mundial estaria sempre ligada, sempre disponível e sempre acessível de qualquer parte do mundo, por qualquer pessoa. Mas eu falhei em prever a questão social. Na minha cabeça, seriam pessoas conversando com máquinas ou máquinas conversando com máquinas, mas nunca pessoas conversando com pessoas.

E quando foi que isso mudou?
Em 1972, com o e-mail. De repente, as pessoas estavam se comunicando entre si e isso dominou todo o tráfego da internet. Ah, e eu errei uma previsão também: achei que a internet seria invisível.

E ela não é?
Não, é um sistema muito complexo. O celular que estou usando agora tem uma interface horrível, com um teclado minúsculo, muitas páginas de login e outros tantos templates. A eletricidade é ótima: dois buraquinhos na parede que não pedem ação nenhuma. Você pluga ali o eletrônico que quiser e, sem nenhum comando, a eletricidade cumpre sua função. A internet não é simples assim. Não ainda, porque vai melhorar.

E você consegue se manter atualizado? Está acompanhando o desenrolar da rede?
Olha, eu me sinto muito seguro no quesito de infraestrutura, performance e operações da internet. Eu sei como essas coisas funcionam e entendo o que precisa ser melhorado. Agora, minha netinha é muito melhor que eu no uso de um smartphone, por exemplo. Ela criou minha conta do Instagram – que eu nunca usei. As crianças estão adaptadas a essas máquinas, mas talvez não consigam, como eu, antecipar a evolução dessa tecnologia. No final das contas, eu ainda ensino as pessoas a pensarem a internet. Ensino a avaliar, otimizar e analisar esse espaço.

E já que você conhece esses bastidores melhor do que ninguém, ainda há muito o que fazer? Porque às vezes tenho a impressão de que chegamos no auge da tecnologia…
Há muito o que fazer, mas não no que diz respeito à estrutura.

“Sempre fomos ruins nas previsões relativas ao uso da internet. Não prevemos o Napster, os buscadores e o YouTube”

Então há o que fazer em qual parte?
Aplicações. Sempre fomos ruins nas previsões relativas ao uso da internet. Não prevemos o Napster, os buscadores, o YouTube, o e-mail… Quando essas aplicações chegaram, foram rápidas e explosivas. As próximas gerações vão criar coisas que sequer conseguimos prever agora. Então é isso: minha previsão é que não conseguimos prever.

Você é a pessoa que tem o relacionamento mais longevo com a internet: 50 anos juntos. Como avalia essa “boda de ouro”?
Eu estou mesmo é preocupado, porque acho que há um exagero. Vejo as pessoas delegando o pensamento aos computadores. A impressão que tenho é que ninguém está se esforçando para armazenar conhecimento na cabeça, porque existe o Google, sempre disponível. Mas eu te digo uma coisa: se não está na sua cabeça e você não pensa, então não cria coisas novas. É perigosíssimo esperar que o computador saiba todas as respostas matemáticas, físicas, históricas e sociológicas. Os computadores são os piores inimigos do pensamento crítico.

Essa percepção se estende nas salas de aula?
Sobretudo ali. Quando peço para os meus alunos solucionarem uma equação, vejo que eles vão ao computador e conseguem o resultado sem entender o processo. E isso é um problema tamanho, porque eles não entendem matematicamente o que acontece. As máquinas são ótimas, não me entenda errado, mas estamos extrapolando seu uso. Estamos perdendo a capacidade de criar e confiando demais na inteligência artificial.

E como vamos desenvolver novas aplicações, como você disse antes, se estamos falhando em entender e criar?
Precisamos dar descanso aos smartphones e aceitar que o Google ou a Siri não estarão sempre disponíveis – e nem deveriam. Quantos são os casos que ouvimos falar de homens poderosos no ramo da tecnologia que proíbem seus filhos de usarem aparelhos e redes sociais? O que acha que essa decisão deles diz sobre esse cenário todo?

“A impressão que tenho é que ninguém está se esforçando para armazenar conhecimento na cabeça, porque existe o Google”

Acha, então, que a internet passou de matemática para social?
Certamente a internet e o computadores ganharam muito mais terreno no campo da sociologia. As pessoas não sabem como funcionam essas máquinas e, na maioria dos casos, nem deveriam saber. Agora, todo e qualquer engenheiro tem por obrigação entender essas operações. Se você pede para que a máquina solucione um problema ou decisa algo por você, então é melhor saber quais os critérios que ela usa e como balanceia os dados.

Poderia me dar um exemplo prático disso?
Anos atrás, um desenvolvedor trabalhava em um jogo de xadrez, mas ele cometeu um erro. Num belo dia, ele trocou os sinais: em vez de “+”, colocou “-” na função principal. Ou seja, ele programou a máquina para perder sempre. A grande questão é que ele não percebeu o equívoco, porque até para perder é preciso ter consciência do jogo e domínio “da bola”. Sei que pode parecer pequeno, mas vamos supor que damos ao computador a missão de melhorar nossa economia nacional. Aí cometemos um erro semelhante, e agora a máquina vai deteriorar a economia, sem que ninguém perceba. Se você não entende a forma como as máquinas tomam suas decisões, é muito perigoso, entende?

Entendo. E um dos problemas que vêm com essa tecnologia toda é a questão da obsolência de postos de trabalho…
Sempre será fundamental empregar a inteligência humana para avaliar o que os computadores estão fazendo e como estão fazendo. É preciso decifrar o que as máquinas fazem e suas motivações.

Então estamos sendo muito pessimistas na questão do desemprego..
Muitos postos de trabalho vão desaparecer, como alguns já sumiram. Mas outros serão criados. O que é fato é que vamos trabalhar menos. Antes trabalhávamos por 12 horas, agora por oito horas e num futuro não muito distante será um tempo ainda menor. Estamos passando agora por um momento de profunda transformação, que costuma ter alguma dor. Nessas transições, há quem perca e quem ganhe, e computador algum conseguiria solucionar essa equação.

Mas não corremos o risco de nos tonarmos obsoletos, uma vez que as máquinas desempenham tantas funções melhores que a gente?
Em matéria de criatividade, somos muito melhores. As máquinas sugerem, mas a gente cria.

“O meu pior pesadelo é que essas ameças levem os países a pensarem em redes fechadas”

O que você espera ver nos próximos anos? Algo que está à beira de acontecer e que talvez mude o rumo da humanidade?
Para ser sincero, agora tenho muitos medos e preocupações. Tenho observado a faceta obscura da internet dominando as coisas: essas questões com privacidade, pornografia, fraude, etc. Na “adolescência” da internet, os hackers invadiam computadores para coisas pequenas, como travar a máquina. Agora falamos de grupos organizados, coordenando ataques de impacto global. O meu pior pesadelo é que essas ameças levem os países a pensarem em redes fechadas. A China está colocando firewall em tudo, se seguirmos todos esses exemplos, corremos o risco dos sistemas não se conversarem bem e perdermos a principal vantagem da internet, que era acesso ao mundo, instantaneamente,

Por falar nessa questão de segurança, qual o papel do governo nessa era tecnológica?
Acho que o governo tem que atuar firmemente na questão do antitruste, como estamos discutindo mundo afora. Mas não acho que os governos têm que liderar as redes; não podem ditar o que acontece. O blockchain, por exemplo, é poderoso porque permite que se autorregule. É um sistema democrático.

Mas o blocklchain se apoia na crença de que há mais pessoas “boas” no mundo, e que elas podem regular o sistema…
Sim, e isso é matemático: se tivermos um número maior de usuários justos, então o sistema estará seguro.

Então a internet é quase uma expressão da fé…
Olha, a internet levou 20 anos para se comportar propriamente. Centenas de engenheiros e cientistas trabalharam duro para que ela respondesse bem aos comandos. E tudo parecia bem, quando, em 1990, entrou no ar um processo de monetização. Quando o dinheiro entrou, veio também aquela faceta sombria da qual falamos: fraudes, golpes e afins. Mas como a internet estava apoiada sobre uma fundação segura, ela continua de pé. Já o blockchain nasceu com uma cifra na boca, sem que houvesse tempo de se ajudar propriamente. É preciso trabalhar para rever isso.

Mas para trabalhar isso é preciso engenharia e, de novo, aquele pensamento crítico.
Sim, a internet nos deixa muito mais poderosos, sobretudo quando a desligamos e pensamos com a nossa própria consciência.

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