O que muda na Petrobras com Adriano Pires como CEO?

Pires é o terceiro CEO a assumir o comando da Petrobras em três anos. Mas o mercado acredita que há pouca margem para mudar a política de preços da estatal

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Adriano Pires, novo presidente da Petrobras

Alguns consideram o cargo de ministro da Fazenda no Brasil (ou da Economia, como nos dias de hoje) o pior emprego do mundo, pela instabilidade do cargo.

O jornalista e ex-ministro da Comunicação Social no governo de Dilma Rousseff, Thomas Traumann, escreveu um livro sobre isso, em que entrevistou 14 ex-ministros da Fazenda para entender suas decisões que mudaram o Brasil e mexeram no bolso dos brasileiros.

Mas não menos perigoso é o cargo de presidente da Petrobras, a maior empresa brasileira, com valor de mercado de R$ 439 bilhões, que acaba de nomear o consultor Adriano Pires como seu novo presidente, sucedendo ao general da reserva Joaquim Silva e Luna, que ficou apenas um ano no cargo.

Pires é o terceiro presidente à frente da Petrobras em três anos – e o terceiro nomeado durante a gestão do presidente Jair Bolsonaro. Ele chega à estatal do petróleo em meio à pressão para reduzir o preço do combustível em um ano eleitoral, um tema sensível a qualquer governante que esteja sentado na cadeira presidencial no Palácio do Planalto.

Um exemplo de como é perigoso ser presidente da Petrobras – e de como eles duram pouco no cargo – é que desde o governo do presidente José Sarney (1985-1990), a média é de três CEOs por mandato.

Sarney, por exemplo, trocou cinco vezes o presidente da Petrobras. Fernando Collor de Mello (1990-1992), em sua rápida estadia no Palácio do Planalto, fez também cinco trocas. O presidente Itamar Franco (1992-1995) foi o que menos mexeu na estatal do petróleo brasileiro, com apenas uma troca.

Na sequência, Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) fez três trocas. Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011), duas. Dilma Rousseff (2011-2016), duas. E, por fim, Michel Temer (2016-2019), mexeu também duas vezes no cargo.

Interferência?

Sabe-se que o presidente da República de um país como o Brasil pode muito, mas que não pode tudo. E, na Petrobras, desde que estourou o gigantesco escândalo de corrupção conhecido como Petrolão, foi construída uma governança que, se não impede, ao menos limita as interferências políticas.

As reações à nomeação de Pires no mercado são positivas, por se tratar de um nome técnico, com ampla experiência no assunto. Mas as ações da Petrobras, apesar da ligeira alta no pregão desta terça-feira, 29 de março, não estão subindo de forma explosiva. As ações preferenciais (PETR4) avançam 2,5%. E as ordinários (PETR3), 1,15% por volta das 12 horas.

“Em nossa opinião, a mudança deve significar pouco em termos de interferência direta na estratégia de precificação de combustíveis da empresa. Os estatutos da Petrobras estabelecem que os diretores e os membros do Conselho de Administração são legalmente responsáveis por quaisquer decisões politicamente motivadas que resultarem em perdas financeiras para a empresa”, escreveram Pedro Soares e Thiago Duarte, analistas do BTG Pactual, em relatório.

Os analistas Regis Cardoso e Marcelo Gumiero, do Credit Suisse, foram na mesma linha. “Não esperamos mudanças significativas para a política de preços da Petrobras ou em sua estratégia global focada em exploração do pré-sal e em águas ultraprofundas”, escreveram.

O Goldman Sachs, por sua vez, lembrou que a atual governança corporativa e as leis brasileiras limitam a intervenção do governo nas políticas da empresa no curto prazo.

“Pires já defendeu anteriormente a necessidade de um fundo de estabilização de combustível para cobrir o recente impacto do conflito Ucrânia/Rússia na preços do petróleo. Ele também observou que tal fundo poderia ser criado com os dividendos da Petrobras, além de mencionar a necessidade de o governo não interferir na política de preços de combustível da empresa”, escreveram os analistas Bruno Amorim, João Frizo e Guilherme Costa Martins, do Goldman Sachs.

Nome reconhecido

Pires, o novo CEO da Petrobras, tem longa carreira acadêmica e é reconhecido no setor de óleo e gás e de energia. Ele já trabalhou na Agência Nacional de Petróleo (ANP) e é fundador da CBIE, uma consultoria de energia e infraestrutura.

Em diversas ocasiões, através de artigos ou entrevistas, Pires se manifestou em favor da independência da Petrobras e da importância de uma política de preços alinhada com o mercado internacional. O novo CEO da Petrobras já defendeu também a privatização da Petrobras como saída para o dilema do preço do combustível no Brasil.

“Achamos que isso é mais uma prova do fato de que a decisão do governo de substituir Silva e Luna é muito mais uma tentativa de melhorar a comunicação da Petrobras com a sociedade e com os políticos, em vez de um esforço direto para mudar sua estratégia”, escreveram os analistas do BTG Pactual.

A missão de Pires à frente da Petrobras, a seguir a linha de raciocínio do mercado, é repetir a frase do livro “O Leopardo”, do italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957). “Algo deve mudar para que tudo continue como está.” A conferir se tudo, realmente, ficará como está nos próximos meses.

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